Ozu e os amores tatuados

Late Autumn. Yazujiro Ozu.

Late Autumn. Yazujiro Ozu.

Aparentemente são só três homens que tentam casar a filha de uma amigo desaparecido.

Aparentemente é só uma rapariga que lhes resiste com receio de deixar uma mãe só.

Aparentemente é só um filme sobre gente trivial, com problemas triviais, num tempo trivial.

Acontece que Late Atumn é o antepenúltimo filme de Ozu. E Ozu, fingindo tratar de trivialidades, nunca verdadeiramente trata de trivialidades. Ozu é sempre a subtileza silenciosa do coração humano. Sem pans , sem travellings, sem dissolves. Ozu é amor quotidiano cortado a direito. E neste outono da vida, Ozu é a incondicionalidade do amor que é o único que pode ser chamado materno. Amor sem ses,  amor sem mas, amor sem condições e sobretudo amor sem posse.

Amor sacrificial como são, ou deveriam ser, todos os amores de mãe. Amor como são, ou em tempos foram, todos os amores tatuados.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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2 respostas a Ozu e os amores tatuados

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Amor de Ozu é amor de Ford. Amor de câmara.

  2. pedronorton diz:

    Lenta no caso de Ozu. Para não dizer imóvel. Mas também se ama em câmara lenta.

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