Uma cabeceira em forma de et caetera

Candida Hofer. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Candida Hofer. Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

Uma lista, acho que disse Eco, não pode acabar com um et caetera. Uma lista é por definição incompleta. Uma lista é sempre o seu contrario. Diz mais de si pelo que de si fica de fora do que pelo que em si incorpora. A minha vida são também as pilhas de livros que quase me expulsam de casa. Uma razão mais do que válida para vos deixar com uma lista brevíssima do que foi o melhor da minha cabeceira no ano que ainda agora acabou.

1 – Stoner. John Williams. O meu romance de 2015. Desde logo pelo encanto de todos os livros que são livros perdidos. Publicado em 1965, o romance adormeceu no esquecimento durante quase cinquenta anos para se fazer “the greatest american novel you never heard of”. É um livro para quem gosta de livros tristes. Uma infância dura no Missouri, uma vida dedicada à literatura, uma carreira obscura, um casamento falhado e uma filha que se aparta. É um livro, repito, para quem gosta da tristeza dos livros tristes. Mas é também, e é talvez isso que o faça extraordinário, o romance menos triste de todos os romances tristes.

2 – Ouro e Cinza. Paulo Varela Gomes. Crónicas, páginas, sobre “sentimentos, sítios, ideias, objectos, imagens, climas bichos, plantas”. Não sei se sei dizer muito mais do que diz o próprio autor. De Portugal a Goa são fragmentos de nostalgia, aqui e ali ainda pontuados por um assomo de revolta. Mas são sobretudo, foi assim que o li e foi isso que verdadeiramente me tocou, crónicas dispersas de um passado que se faz um todo e que, aos poucos, docemente, se reconcilia consigo mesmo.

3 – Mais um dia de vida. Ryszard Kapuscinski. O homem, repórter, jornalista, escritor, mas sobretudo viajante, caiu-me ao colo, noutra vida, numa livraria de Varsóvia e nunca mais me deixou. Desta vez são poucos meses de uma Angola que, em 75, espera a independência. Em que milhares de vidas erram, esperançosas ou sem réstia de qualquer esperança, por uma Luanda que de pedra se vai fazendo de madeira à medida que crescem os contentores improvisados em que se empacotaria a vida de toda uma cidade. São estradas desertas de tão vermelhas, aldeias abandonadas, animais putrefactos, e sobretudo, ao longe, o ribombar da guerra que se aproxima e se faria quase eterna. Uma viagem a um tempo único.

4 – To kill a Mockingbird. Harper Lee. Mais uma vez o encanto dos livros perdidos. Go set a watchman, tal como Stoner, andou adormecido 50 anos. Foi o pretexto, bom como qualquer pretexto, para regressar aos clássicos e tapar um indesculpável buraco negro na minha literária incultura. To kill a Mockingbird é a América profunda e é a América onde despontam, a medo, os Civil Rights. Atticus Finch é Martin Luther e é Rosa Parks. É a advocacia na sua mais nobre acepção. Tal como, curiosamente, James Donovan, o advogado de Bridge of Spies, não é outra coisa. Esta sugestão são pois, na verdade, duas. (Re)leiam Harper Lee e visitem Spielberg. Há muito mais em comum entre ambos do que à partida se poderia julgar.

5 – O barulho das coisas ao cair. Juan Gabriel Vásquez. Uma viagem a um passado recente e violento, que cicatrizou gerações de colombianos e que chega pelas mãos de “uma das mais originais novas vozes da literatura latino-americana”. Vargas Llosa dixit.

E pronto. Fica a faltar o quase tudo. Fica a faltar, proibido, o et caetera.

 

Uma vez não são vezes mas os anos também não acabam todos os dias. Desta vez este texto sai aqui, antes ainda de sair na Visão.

 

 

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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4 respostas a Uma cabeceira em forma de et caetera

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Já estou a levar 3 a 2. Vou ter de ler três destes livrinhos. Olhos em brasa.

  2. pedronorton diz:

    5mn à Benfica e dá a volta ao resultado!

  3. EV diz:

    Se me tivesse dado para o crime queria ser ladrão de bibliotecas!

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