História da minha ida ao psicanalista

2001 Odisseia no Espaço no momento em que me bateu com estrondo na cabeça

2001 Odisseia no Espaço no momento em que me bateu com estrondo na cabeça

O Manuel deu aqui o mote. E eu fui a correr deitar-me num divã de psicanalista, e, dos esconsos da minha memória, tentei recuperar tudo o que me rebentou com estrondo na cabeça antes dos 18 anos. Segundo o psicanalista dono do divã onde me deitei, entrei numa espécie de transe e da minha boca semi-inconsciente saíram umas frases desgarradas e sem nexo. Quais foram, só o sei através de uma gravação que o dito psi me fez chegar. Que não me preocupasse com o discurso pouco menos do que imperceptível, disse-me ele: bastaria sentar-me em frente a um computador, começar a teclar sem freio ao som das minhas palavras gravadas e esperar pelo resultado. E assim fiz. E deu o resultado que aqui vos deixo. 

Jane Eyre – Durante muitos anos associei o medo ao simples soletrar do nome. Ao ponto de só conseguir adormecer com a porta do quarto aberta para a luz do corredor. Reacção puramente pavloviana, pois que a Jane Eyre herself era, como sabem, a menos perigosa das criaturas. Acontece que estava no sítio errado à hora errada quando, plantado à frente da televisão como era hábito naqueles tempos, ouvi a terrível gargalhada da louca da mulher de Mr. Rochester, que vivia encarcerada num sótão do palácio. Mas não foi só o medo que a gargalhada fez despontar em mim. Os meus primeiros sentimentos masoquistas vieram daí também, ou não tivesse eu continuado a seguir semanalmente a série à espera de mais uma das gargalhadas da louca que me faziam tremer de alto a baixo.

2001, Odisseia no Espaço – Mesmo sem ter bem a noção disso na altura, terei tido aí a primeira prova, de muitas que me chegaram depois, de que uma obra de arte não se fez para ser entendida. Mais tarde dei-me conta de que o fascínio de uma obra de arte reside precisamente aí, em não a percebermos bem, ou termos liberdade para a perceber à nossa maneira. E o facto de ter então 10 anos de idade parece de pouca monta quando o fascínio, mais de 35 anos depois, ainda perdura.

A primeira vez – Não, não é nada disso em que estão a pensar, ainda era muito novo para isso. Foi a primeira vez num estádio de futebol e numa catedral. Dois em um. Foi um Benfica-Braga e o placard no fim marcava 2-0 com golos de Néné e Reinaldo. Foi por essa altura, também, que fiquei a saber que se podia jogar futebol profissional sem sujar os calções e que, só por se ter um físico descomunal e uma cor de pele diferente (e, vá lá, não se ter uma especial habilidade), se podia entrar no anedotário nacional. Tudo a cores, porque, até então, só a colecção de cromos do Mundial da Argentina me dera uma ideia, ainda que pálida, daquilo que a televisão só mostrava a preto e branco e a telefonia – colada ao ouvido aos domingos à tarde sempre à mesma hora – nem isso.

Cet animal a décidé de ne pas travailler – Esta frase, dita assim mesmo por um professor que espalhava o terror pelos alunos do Liceu Francês, ainda hoje ecoa na minha cabeça. Seria fastidioso explicar aqui em que consistia uma técnica habitual que nos permitia a nós, alunos dele, fingir que fazíamos os dolorosos trabalhos de casa que nos impunha diariamente. O que interessa é que, numa manhã, fui desmascarado e ele, não conseguindo conter a sua fúria por um tipo (que até tinha notas bem aceitáveis) ter tentado enganá-lo de uma forma tão vil, exclamou a tal frase que não mais deixou de me perseguir sempre que o meu corpo é tomado por uma onda de preguiça: “CET ANIMAL A DÉCIDÉ DE NE PAS TRAVAILLER!”.

Ian Curtis – Com os seus Joy Division, a minha primeira obsessão na música. Antes de Cure, Echo & The Bunnymen e Smiths. Responsável, também, pelos primeiros três minutos da minha vida em que, vá-se lá saber porquê, o puro prazer esteve associado à melancolia e sofrimento de uma voz. Como uma faca espetada violentamente no coração que provocasse uma dor reconfortante e libertadora. E logo a seguir, o choque do meu guru António Sérgio a anunciar que eu jamais ouviria aquela voz num palco. Tudo porque o rapaz de 23 anos que era Curtis tinha decidido pôr uma corda à volta do pescoço.

A desmistificação do macho – O livro era a “História da Minha Vida”, de Jay McInerney, um daqueles típicos romances da geração “Less Than Zero”, e contava as deambulações pelo mundo do sexo e da droga, entre LA e NY, de uma jovem de 21 anos, Alison Poole, fisicamente irresistível como se impunha e sempre pronta a debitar o cartão de crédito que seu abastado lhe confiava sem hesitar. Contado na primeira pessoa pela própria Alison, uma predadora sexual de respeito apesar da sua juventude, reduziu a zero a todos os estereótipos da masculinidade com que o marialvismo dominante me emprenhava pelos ouvidos e que eu – muito ingenuamente naqueles tempos de pós-puberdade – recebia sem questionar. Ficou para a história a forma hilariante como Alison/Jay (no início ignorava que Jay era nome de homem) descreveu a pirueta com que, desajeitadamente, os seus parceiros sexuais estragavam o momento de puro prazer do cunnilinguis só para terem direito, em simultâneo e rapidamente, ao fellatiozinho da ordem. Mais útil do que qualquer livrinho de educação sexual da Verbo, tanto para jovenzinhos que se queiram iniciar nos mistérios da sedução feminina como para entradotes que nunca se olharam ao espelho. E responsável, também, pelo fair-play que me tenho esforçado por cultivar ao longo dos tempos: foi o livro que mais ofereci, quanto tinha a idade da Alison, a meninas da idade da Alison.

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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