Guerra e Paz, 10 anos

A Guerra e Paz nasceu a 10 de Abril de 2006. Faz hoje 10 anos anos de vida. Lembrei-me de escrever uma carta aberta à Imprensa. Os jornais e os livros são irmãos de armas. Vivem juntos a mesma crise, a crise da leitura popular prolongada.
Juntos podem criar futuro.

Carta Aberta à Imprensa
de um irmão mais velho

Querida Irmã Imprensa,

Obrigado. Com que outra palavra poderia começar esta carta de amor e respeito? Repito, obrigado.

Eu, Guerra e Paz, já ando de braço dado contigo há dez anos. A 10 de Abril de 2006, na sessão do meu nascimento, na Fundação Gulbenkian, estávamos juntos, jornais, rádios, televisões e livros. Estreámo-nos com um novo livro de Agustina, Fama e Segredo na História de Portugal, que ainda não sabíamos que seria o último da nossa grande autora. E, ao lado de Agustina, estava outro livro, a lição ética, cívica e de sabedoria que é a Correspondência entre Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner.

agustinaSena

Ano a ano, fomos publicando 40 a 50 novos títulos. E confirmámos, nestes dez anos, a mudança do mundo. Os olhos que nos liam, que liam livros e jornais, que ouviam rádio e viam plácida e descansadamente filmes e televisão, movem-se à prodigiosa velocidade da luz de iphones para tablets, de laptops para plasmas. Hoje, temos um Usain Bolt em cada olho: nenhum olhar pára mais do que 9,4 segundos em coisa nenhuma. Álvaro de Campos cantou, como os Futuristas, a velocidade. Sabiam lá eles o que era a estonteante velocidade.

A mudança só mete medo a quem só tem para oferecer o espectáculo da sua morte. A Imprensa, jura-vos este vosso irmão editor, não perecerá. Jornais, revistas, rádios, programas, noticiários, telejornais, televisões são a sala moral da civilização. À minha irmã Imprensa não a assusta a promessa de duas bofetadas, porque quando foi preciso não teve medo, apesar de desarmada e só de olhar puro, de levar um tiro no campo de batalha. Para melhor e mais limpidamente renascer, a seguir.

Os livros são, no meio dos mais extremos confrontos, um lugar de paz, quase inócuo, uma não-notícia. Mas vinha pedir-te, maninha Imprensa, que, no meio das tuas mil preocupações, dos leaks, dos off-shores, das armas de destruição maciça, não te esqueças deste teu irmão mais velho que é o livro. Porque é no livro que começam todas as notícias. Cada leitor de livros é um leitor atento dos jornais, cada leitor de livros é um inteligente ouvinte da rádio, cada leitor de livros é um interessado espectador de reportagens, de documentários, de histórias da televisão.

classicos lusos

Sempre que um editor não vende um livro, quantos leitores perde um jornal? Que massa de pensamento crítico perde a rádio, a televisão e o cinema? É nos livros que começa a paixão da leitura. É nos livros que começa a paixão do pensamento. É nos livros que começa a paixão lúdica de ler, ouvir e ver histórias.

Por puro egoísmo que seja, para reforçares a massa crítica dos teus leitores, ouvintes e espectadores, não deixes no esquecimento o teu irmão mais velho. Querida Irmã Imprensa, mostra corajosamente nos teus jornais, rádios, televisões, esse anacrónico e bizarro artefacto chamado livro. Mostra as capas – os leitores gostam de ver capas – entrevista os autores que, se escreveram um livro, é porque alguma coisa têm para dizer. Mas sobretudo critica-os, analisa-os, comenta-os, porque se os livros te admiram, querida maninha Imprensa, é porque tu tens opinião própria e independente, porque tu só és o que és porque pensas pela tua cabeça. E mostra as capas e repete o título – acredita, não é espaço que desperdiças, é mais uma mente e um coração que ganhas para a tua batalha diária.

clássicos estrangeiros

Sou a Guerra e Paz editores e faço 10 anos. Um ano de uma editora de livros vale por 7 anos humanos. Porque o livro é exactamente como o cão e por isso é que o livro é, também, o melhor amigo do homem. Neste 10º aniversário, ao longo deste humaníssimo ano de 2016, publicámos ou vamos publicar clássicos da língua portuguesa, Os Maias e A Cidade e as Serras, de Eça, O Que Fazem Mulheres e o Amor de Perdição de Camilo, o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Viste as capas, irmã Imprensa? Ah, e publiquei ou vou publicar clássicos universais, A Ilha do Tesouro, O Amante de Lady Chatterley, A Volta ao Mundo em 80 Dias, O Retrato de Dorian Gray. E que lindas capas, que lindas capas, mana Imprensa!

Sim, confirmo, vai sair agora o Pequeno Livro Vermelho, de Mao Tsé-tung, depois de já terem saído o Manifesto Comunista e o Mein Kampf. Juro-te que nunca os viste assim, vestidos como graficamente os desenhei e vesti.

totalitários

Bem sei, queres uma novidade. Já o pai Guttenberg me dizia que é da tua idiossincrasia. Olha, convido-te a vires dançar. O Leonard Cohen já nos dançou até ao fim do mundo. E gostámos. Eu convido-te a vires dançar um livro. Chama-se À Espera de Bojangles. Eu sei que gostas muito do Bojangles, da canção. Estás enganada se achas que não se pode ouvir uma canção da inenarrável e negríssima Nina Simone sair das palavras de um livro de um romancista francês. Solta-se música e borbulha neste livro o mais capitoso champagne. É uma criança de dez anos que nos conta tudo. Num livro que o pai e a mãe dela dançam, cantam e riem letra a letra. Por amor e com amor. O mesmo «amour fou», o mesmo amor louco com que tu, minha irmã Imprensa, e eu, editor, de meu nome Guerra e Paz, amamos a palavra, e pela palavra atraímos, seduzimos e levamos ao êxtase quem nos lê.

Teu irmão mais velho
Guerra e Paz

bojangles

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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7 respostas a Guerra e Paz, 10 anos

  1. Bea diz:

    Parabéns aos manos e que mantenham sempre o afecto que propicia a longevidade pacífica.
    As capas estão um espanto. Mas por acaso gosto bem mais do interior. Na verdade, não li o último livro que aqui apresenta. Nem a correspondência entre Jorge de Sena e Sophia, capa discreta como convém às epístolas. Há-de ser espelho de raros momentos.

  2. albertino.ferreira diz:

    Parabéns. Já tenho os do Eça, do Camilo e do Machado de Assis e faço votos de que continue nessa senda. O “À Espera de Bojangles” e outros eventualmente poderão ficar para a próxima Feira do Livro.

  3. EV diz:

    Parabéns, senhor editor!

  4. Luis Eme diz:

    Bons ventos para continuarem a navegar “dentro da crise”, sem descurarem a arte.

  5. Flor diz:

    muitos parabéns! e que mantenha esse bom humor (em si e nas suas edições) por muitos e fartos anos.

  6. Artur Hermenegildo diz:

    Parabéns! Cá em casa moram (ofereci à Luísa) o Fernando Pessoa e o Camilo.

  7. nanovp diz:

    Manuel, uns sentidos /(e atrasados) Parabéns !!!!!”Tudo vale a pena se a alma não é pequena…”

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