Viagem num submarino nuclear

Já vou, com as crónicas que agora lá escrevo, na minha terceira vida no Expresso. Regressei no final de 89, se bem me lembro, e cheguei cheio de gás, com vontade de escrever em português, depois da primeira fase, em que escrevera no incompreensível português de Vincennes VII, se é que me faço entender. Fartei-me dar bolas pretas aos filmes que via – é que não gostava mesmo de nada – e isso criou-me a reputação de não estar para ali com falinhas mansas, ou dito de outro modo, a encher chouriços. Tudo falsidades de um tipo tímido, mas que é que se há de fazer? Nem sempre tive razão, e isso é só para dizer o mínimo. Dos “realizadores comerciais” gostei muito de John McTiernan. Gostei muito, na altura, hoje quase morro de saudades. O que eu não dava para voltar a este submarino!

red october

BANG BANG
M.S.Fonseca

O ofício de John McTiernan é a criação de universos claustrofóbicos. Basta lembrar Assalto ao Arranha-Céus e ir, agora, fazer a confirmação com Caça ao Outubro Vermelho. O ofício de John McTiernan é a criação de grandes máquinas a que nem passa pela cabeça que se possa separar, como trigo do joio, o que é especificamente cinematográfico e o que é especificamente físico: lembrem-se de Predador que ele tinha feito com Schwarzenegger e vejam se não é quase a mesma coisa neste Outubro Vermelho.

Há cineastas que pensam o cinema. Há outros que respiram o cinema. Se se disser que estes últimos fazem, em geral, o cinema de «kiss, kiss, bang, bang» não se andará longe da verdade. McTiernan, para voltarmos ao filme entre mãos, é muito mais «bang, bang» do que «kiss, kiss». E como ele sabe que toda a gente sabe, o cineasta pode agora dar-se ao luxo de tomar o seu tempo, de se pôr a limpar armas num filme de guerra. É um risco. É como entreter a martinis secos tipos com dente afiado para bifes à cortador. E em Outubro Vermelho, o mais falso filme de acção dos últimos tempos, acaba até por nem haver bife que se veja. Quando muito servem-se torpedos à laia de bitoque.

O género de Outubo Vermelho é o do filme de espionagem. A grande questão é: como fazer filmes de espiões num mundo sem inimigos? As maiores reservas que se têm levantado ao filme decorrem, com efeito, do novo quadro geo-estratégico criado pela era Gorbatchov. Lamentam-se os «clichés» de Guerra Fria. Mas o que é isto! Será que anda tudo esquecido da velha máxima hitchcockiana: «The cinema is not a slice of life, it’s a piece of cake.»

O que não quer dizer que, mesmo dentro dos estritos códigos do «filme de espionagem – ramo naval», Outubro Vermelho passe sem reparos. Demasiado seguro do seu estatuto, McTiernan faz do filme um exercício de estilo (autor-submarino com periscópio de fora?): vá lá, digam-se nomes de «artistas» capazes de situar, como McTiernan o faz, Sean Connery na cerrada perfeição gráfica da sala de comando do submarino. E façam, se forem capazes, uma lista de cinco nomes, tão hábeis e eficazes como McTiernan, na organização dos planos. Quem é que hoje é senhor para fazer de cada movimento de câmara um personagem, ou uma ameaça, ou um efeito indispensável de atmosfera? Para estas coisas, há cineastas que confiam nos diálogos, ou se contentam com os cenários, ou então penduram-se nos actores. McTiernan não é de fiar-se na Virgem: faz tudo a câmara, iluminação e montagem. Precisa de cenários, claro. Diálogos e actores são o seu bónus. É assim em Caça ao Outubro Vermelho, quase como em Predador e Assalto ao Arranha-Céus, mas com menos «acções fortes» e movimentos mais presos pela concepção gráfica do espaço.

E o que é que isso interessa? Será Outubro Vermelho um filme político? Enfim … se gostam de diálogos de direita ditos por actores liberais … Agora a sério – e apesar do dinheiro deitado à rua com os efeitos especiais – Outubro Vermelho vale, como todo o cinema de McTiernan, pelo domínio dos ingredientes técnicos que fazem o espectador viver em primeiro grau as impressões físicas que as personagens do filme protagonizam. Faz-nos cantar o hino soviético, olhando para Sean Connery em contra-picado; e, em perseguição a um cozinheiro-espião, põe-nos a nadar de cócoras, ao lado de Alec Baldwin, esmagados pela panóplia dos mísseis nucleares.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a Viagem num submarino nuclear

  1. albertino.ferreira diz:

    Já vi várias vezes por azar da programação repetitiva do canal Hollywwood . Tenho a impressão que só se safa mesmo o Sean Connery…

    • Ora aí está uma opinião que não partilho. Gosto mesmo do filme, do Sam Neill, do Baldwin, dos secundários. Mas gosto sobretudo da realização – boa – do Mc Tiernan,

  2. Guilherme Godinho diz:

    “como fazer filmes de espiões num mundo sem inimigos?”
    Ò Manuel! E então o senhor que queria vender azeite ilegalmente para a rússia? Há sempre guerra!

  3. EV diz:

    Eu diverti-me com o livro tio Clancy e com o filme – às vezes isso chega, despensar a vida durante uma hora e meia no cinema ou enquanto as páginas duram…

  4. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Para mim este bem melhor do que o “assalto”, gosto do cenário minimalista e do “RED” como tema…pelos menos é a ideia que ainda tenho do filme…

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