Nasceu em Bissau o pé direito que fez Portugal campeão

euro 2016

Reunidos em concílio, os deuses tinham decidido que a França seria campeã europeia. Os deuses já não se reuniam em concílio desde que Luis de Camões se lembre, e Luis de Camões deixou de se lembrar já lá vão praticamente cinco séculos.

Desta vez, os deuses decidiram por unanimidade. Mesmo Vénus, com um olho em Cristiano, deixou-se empolgar pelo hercúleo meio-campo francês.

Mas mesmo quando les jeux sont faits, há sempre qualquer coisa que va plus. A meio catrineta nau portuguesa parecia desgovernada e aos 17 minutos sofre um golpe baixo. Cristiano Ronaldo aparece tombado no campo de batalha. Um jogo que devia ser guerreiro, glorioso e épico é aflorado pela aflitiva cor púrpura da tragédia.

Os velhos deuses vacilaram. A França é uma grande equipa, reunia os favores olímpicos, mas desequilibrar assim as forças em presença pareceu, mesmo aos deuses amorais, uma afronta à estética. Aos 17 minutos, os deuses decidiram abdicar e entregar aos 22 jogadores que estavam em campo a decisão. O que se passou, a partir dos 17 minutos de jogo, no Stade de France foi humano, muito humano. E Portugal ganhou.

É empolgante ganhar. A mim convida-me sempre a um delicioso silêncio. Se me pusessem uma câmara de televisão à frente, não conseguiria falar, nem saltar aos gritos de olé, olé, nem berrar contra o adversário. Poria um bezerro sorriso de felicidade. Sabe-me bem a vitória. Soube-me bem ontem à noite (tão leve e fresco o champagne que se faz na bela França!) e sabe-me agora ainda melhor nesta manhã de férias, antes de meter os calções e ir para a praia. O cheiro da vitória pela manhã!

E não é de napalm o meu cheiro de vitória. Ganhámos à França e se eu amo a França. Gosto da língua, belíssima, apaixonada, veemente, cheia de sexys buraquinhos filosóficos. Gosto da Normandia e da Bretanha, do sol de Nice, Cannes e Saint-Tropez, dessas colinas milionárias e cosmopolitas, para não falar de Paris, margem esquerda ou margem direita, luz do mundo, que nos deu as cores de Cezanne e Degas e depois as de Picasso, Modigliani e Matisse. Gosto da França de Flaubert, Balzac e Rimbaud. Gosto de champagne, de Proust, célebre pasteleiro que tão bem, sem as saber fazer, fazia madalenas.

E gosto da selecção nacional francesa. Tricolor, sim, mas branca e negra também. Retrato vivo, em 2016, de séculos da odiosa, amorosa, torturada e por isso humana relação da Europa e de África. Estão ali onze jogadores, mas há uns bons séculos de história, subterrânea, nas veias deles.

É a grandeza da França que faz grande a vitória de Portugal. Alguns franceses terão dito que Portugal jogava um futebol nojento. Nem lhes responderia, mas alguns portugueses gritam agora que ganhámos à França de merda. Discordo. Ganhámos à grande e imensa França que guarda os modos de quem já foi Senhora do Mundo e ainda tem na cabeça acordes de Debussy e Bizet, ou não tivesse o hino mais bonito do mundo, no qual o de Portugal se inspirou.

E ganhámos à nossa maneira dramática. Caído o comandante, onze guerreiros portugueses souberam seguir o que o racionalíssimo treinador português – o extraordinário engenheiro – lhes dizia e foram, como um vinho que precisa de estágio, jogando melhor minuto a minuto. Se o jogo tivesse cinco horas, Portugal acabaria a jogar um futebol que nem Pelé ou Maradona saberiam jogar.

Ganhámos, disse, à nossa maneira dramática. Patrício, o nosso guardião, os centrais, o gigantesco William, o veloz Raphaël Guerreiro (único português a ostentar no nome um orgulhoso umlaut), o sábio e ardiloso Nani, o imprevisível e filosófico Quaresma, a quem se deve já pedir um livro, foram os meus heróis. E tu, Renato, mesmo no dia em que te conseguiram apagar, serás sempre o meu herói. Ou seriam, até aparecer o herói desmedido e libertador a que chamaremos Éder. E o momento histórico exige que sejamos rigorosos. O nosso herói chama-se Éderzito António Macedo Lopes e nasceu em Bissau, em 1987. Éder fez um jogo exemplar. O seu metro e oitenta e oito centímetros ganhou, que me esteja a lembrar, todas as bolas que disputou no ar. Ganhou, dando o corpo ao manifesto, todas as jogadas de bola no chão, ganhando a posição aos adversários, obrigando-os a derrubá-lo. Ganhava um livre a cada cinco minutos. E, por causa dele, o Stade de France inclinou-se e a bola, o maravilhoso esférico, passou a estar cada vez mais perto da baliza do imenso Lloris, e uma vez mesmo, com estrondo, na barra da baliza dele.

O que Éder fez no golo é só a confirmação da sua convicção e do poder de que vinha impregnado. Éder entrou em campo com uma missão: marcar um golo. Raphaël encarniçou-se a disputar uma bola, já no meio campo gaulês. Sacou-a e meteu-a em William, que de primeira a deu a Moutinho que a entregou a Éder. Está a uns vinte e cinco metros da baliza. Um defesa francês cai-lhe em cima e o ombro esquerdo de Éder aguenta-o. O francês cola-se-lhe como uma carraça, mas Éder já lhe ganhou a frente. Tem à direita outro francês que hesita. Já o parasitário francês da esquerda foi cuspido, incapaz de aguentar o poder que exala do físico de Éder. O da direita continua a hesitar e Éder já avançou dois metros e a bola agora oferece-se ao seu melhor pé, o direito. O francês da direita percebe o infinito perigo, mas, num dilema cartesiano, nem sai da posição, nem vai em cima do homem, e Éder, o homem, chuta rasteiro e cruzado para o seu lado esquerdo, a vinte e um, vinte e dois metros da baliza, quase colando a bola ao poste, tornando inútil o desesperado e belo vôo de Lloris.

A bola rolou nas redes da baliza francesa – «oh, ça fait beacoup de mal aux bleus», ouço dizer em francês – e o meu coração rende-se à beleza humana disto tudo, já não balouçam as redes, mas balouça enlevada a minha pequena alma portuguesa que o pé direito deste guineense de Bissau pôs em êxtase. Nasceu em Bissau o pé direito que pôs um povo inteiro em delírio.

Gritei golo e volto, agora, ao meu beatífico silêncio. Mas penso que ganhou a equipa que gosta mais de jogar à bola. Os franceses gostam, claro, e jogaram bem. Mas só gostam de jogar um bocadinho e não estavam preparados para passar ali a noite a jogar. Os portugueses, com Ronaldo a descobrir uma forma de jogar à bola fora das quatro linhas, estavam prontos para acampar no Stade de France e ficarem mil horas a jogar com prazer. Os franceses gostam tanto de jogar à bola como nós, mas nós gostamos de jogar à bola mais tempo. Fomos a selecção que jogou mais minutos, horas perdidas que foram horas ganhas. Também por isso somos campeões. De nós próprios e da Europa.

Éder

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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26 respostas a Nasceu em Bissau o pé direito que fez Portugal campeão

  1. Pedro Bidarra diz:

    Puta que pariu! Fizeste-me chorar outra vez

  2. EV diz:

    Se eu fosse dona do jornal A Bola, dava-lhe uma página inteira para fazer o que quisesse, até desenhos!

  3. Flor diz:

    Manuel, que texto magnifico. Obrigada.

  4. Luísa Tavares de Mello diz:

    A mim também me fez chorar! Logo a mim que não gosto de futebol, que não conhecia o Eder e nem sei de que clube é! É português de Bissau e patinho feio que ficou bonito.
    Não lhe vi pegar na taça nem segurá-la para a foto. Era ele que merecia tê-lo feito em nome de todos nós.

  5. albertino.ferreira diz:

    Isto tudo ainda me parece irreal porque não acreditava, qual velho do Restelo… desde a pobre exibição contra a Islândia, ainda mais considerando que um 3º classificado do grupo F consegue ser Campeão, é quase milagre, mas a minha mulher dizia que sim mesmo vendo a avalanche francesa da 1ª parte. Como estivemos quase sempre acantonados no nosso meio campo os franceses desgastaram-se e não marcaram graças ao Patrício. Depois, no prolongamento eles já não podiam com uma gata pelo rabo e veio ao de cima a raça do português, os incentivos do Ronaldo na linha lateral e o pé direito do Éder que me fez saltar da cadeira e dar a mão á palmatória. Neste dia lembrei-me do meu pai, que já lá está, sportinguista dos quatro costados, o quanto ele vibrava com o futebol e como gostaria de ter assistido a este glorioso e único momento.

    • Albertino, levanto a minha taça benfiquista ao seu pai sportinguista. Que este título possa, por uns dias unir a nossa memória desportiva nesta coisa irreal que ´+e sermos campeões.

  6. Manel! Vês bem, mas não vês tudo, como ninguém vê tudo.

    Portugal ganhou, nós ganhámos! Na última meia hora de sofrimento nem um golo de 2M (Portugal também é feito de cerveja africana) entrava, estava embuchado…

    Mas, ao que íamos. Ganhámos o campeonato da Europa de Futebol, feito extraordinário assente numa equipa e num treinador sofreram com “Sangue, trabalho, suor e lágrimas”. Mas, ganhámos muito mais, Manuel!

    Não sejas discreto!

    Sê ululante!

    Nem o Nelson “À sombra das chuteiras imortais” escreveu assim. Ganhaste ao Rodrigues! O Campeonato atlântico da “Vida como ela é” foi nosso neste post! A Engraçadinha ficou reduzida a asfalto selvagem! Elas já não gostam de apanhar! E a Mentira tornou-se verdade! O Anjo Pornográfico dá voltas no caixão, não aguenta – como os gauleses – O Berro impresso nas Manchetes.

    • Meu imenso e Índico amigo, já não há léxico, nem língua que nos deixe chegar perto do féretro de Nelsinho. Respect my friend. Mas sejamos amadores, e deixemo-nos levar pelo entusiasmo e pela liberdade em que vivemos e queremos continuar a viver. Para jogarmos à bola, para irmos à bola, para gritarmos na bola.

  7. Jorge Silva diz:

    Este texto é demasiado brilhante.

  8. Braavo! Delicioso e não, não-triste.

  9. Luis Eme diz:

    Felizmente somos um país de “heróis acidentais”, Manuel.:)

    (e também de seleccionadores teimosos. Felizmente este anda com “santinhos” em todos os bolsos e parece que sabe mesmo falar com Deus…)

  10. Lindo, tão lindo este texto heróico, Manel. Lindo assim de molhar o teclado do computador.

  11. nanovp diz:

    Entre desejo e milagre, força e desespero, crença e sofrimento…este texto é também ele uma vitória…

  12. Ler, reler, imprimir e emoldurar. Muito, muito bom.

  13. Maria da Piedade F. M. diz:

    Sempre ouvi dzer, eu que só vejo futebol quando Portugal joga e que tenho a maior dificuldade em perceber o conceito de fora de jogo (?!?), que a Bola tinha grandes jornalistas. Não sabia que tinha um grande Poeta. Um grande obrigada por este texto. São coisas destas que nos fazem ainda acreditar num mundo melhor para todos …

  14. albertino.ferreira diz:

    Ainda no estado de irrealidade em que estou, longe de ser sonho, só penso na frase que o D. Alfredo Di Stefano dizia a caminho dos balneários quando da final em Amesterdão que o Real Madrid perdeu para o Benfica em 1962 por 5-3 :”No lo creo”!No lo creo!” Tenho de esfregar bem os olhos para lo crer!

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