Nem que a vaca tussa e o boi espirre

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Acabei agora de ler, depois de ver até à última gota o Liverpool-Man United, o que o Pedro Norton escreveu aqui sobre o polémico Prémio Nobel da Literatura atribuído a Bob Dylan.

Eu tenho uma pesporrenta relação com o Prémio Nobel da Literatura. Esnobo o Prémio, mas não esnobo o meu amigo Pedro Norton, com quem gosto de beber copos, discutir futebol e dançar. É amor? É um bocadinho.

O Pedro é, sublinho-o, meu companheiro em dois livros sobre Fernando Pessoa, um dos quais, a estilhaçar muitos dos limites e compartimentos estanques do que seja “um livro”, vai aparecer por aí daqui a um mês. O que o Pedro escreveu, pela clareza da argumentação, merece toda a minha atenção. Tanto mais que não estou de acordo com os pressupostos dele e, por consequência, com as conclusões.

Mais do que contestar a sua tão bem articulada e obstinada fortaleza, começo por dizer donde venho e onde estou. Bob Dylan faz parte da minha vida emocional, ideológica, estética e cultural. Como os Beatles ou os Rolling Stones, como Jim Morrison ou Leonard Cohen. Ou seja, e para discutirmos seriamente, não vale a pena (o que o Pedro não faz) fazer aquela típica divisão dos que estão a favor ou contra, dos reaças e dos progressistas. Estar a favor de Bob Dylan, e eu estou, não significa que se esteja a favor de se lhe dar o Prémio Nobel da Literatura. E estar a favor da atribuição deste Nobel a Bob Dylan pode não ser, admita-se, estar a favor de Bob Dylan. Espero, já o disse, que Dylan recuse o prémio. Se ele o fizer, só tenho uma novíssima razão para acreditar que mais comungo da mundivivência que a música dele para mim representou e acompanhou.

E agora quero acrescentar ainda mais um ponto a este conto: eu admiro a poética de Bob Dylan. Sim as letras – e não vejo porque não lhes havemos de chamar poemas – são magníficas e foram-me dadas a conhecer na forma de música, forma para qual foram criadas. Criadas e forçadas, porque quando se escreve para música não é exactamente a mesma coisa que escrever exclusivamente para o papel de um livro, obrigando-se a letra ou o poema, as palavras, a métrica, as rimas a parâmetros a que um poeta pode, com outra liberdade e com outra propósitos filosóficos ou espirituais, dispensar-se. Ouvi-las, às canções de Dylan, a essa mistura de palavras e de música, a essa extraordinária voz de sarapilheira que embrulhava as palavras em ondas mais agrestes do que melódicas, deu-me êxtases, nirvanas, revolta, uma calma satisfação também. Devo-lhe uma parte da minha vida.

Acabei de louvar como poética, a escrita de Dylan, as suas letras ou poemas que foram posteriormente reunidos em livro. Ou seja, estou pronto, como Pedro Norton, a cantar o poeta Bob Dylan. Porque raio não acho, então, que ele deva ter o Nobel. Dou três modestas razões:

  1. Porque Bob Dylan, tenha ou não o talento de escritor, não tem obra de escritor. A força dos seus poemas vem do território (a música) para o qual foram genuinamente concebidos. Impôr-lhes a condição de literatura é traí-los.
  2. Porque fora da música e só no papel, por méritos que tenham e têm, esses poemas são convencionais e estão longe de atingirem a esfera do sublime, da elevação literária a que a melhor poesia contemporânea ascendeu. Ou seja, amamos esses poemas por causa da música que vem com eles e estaria muito bem dar-lhes o Prémio Nobel da Música se o houvesse, mas não o da Literatura que, para usar uma cansada expressão, só de forma menor são. Esta é, evidentemente, matéria de opinião, mas as opiniões discutem-se!
  3. E vou, por fim, ao argumento central do meu amigo Pedro: a revolução. Dar o prémio a Dylan seria revolucionar os limites da Literatura. É, a meu ver, o menos conseguido dos seus argumentos. Dylan tem as letras das suas canções reunidas numa antologia poética, a que se soma mais um livro de crónicas e uma narrativa, “Tarantula”, de que não se pode falar seriamente. Minto, tem ainda uns maravilhosos livros infantis com igualmente maravilhosas ilustrações. Tudo isto, se visto como Literatura, é convencional, mais meritórios sem dúvidas os poemas, mas ainda assim convencionais nos conteúdos e nas formas. Nada disto “alarga” a Literatura. Alargou a literatura Melville com a “Moby Dick”, que ainda hoje não sabemos se é ensaio ou romance, documentário avant la lettre ou ficção. Alargou a literatura Lautréamont ao escrever “Os Cantos de Maldoror” que não sabemos se é esgoto ou céu, ou um infame apelo ao assassinato. Alargou-a o Beckett que o Pedro tão bem lembrou.

Podemos querer recusar a Literatura como forma de arte anacrónica, podemos estar incomodados com esse peso de séculos de pergaminhos, rolos, incunábulos e papel, mas se queremos ferir poética e literariamente esses limites, por amor da santa, arranjem-me mais do que a colectânea de belos, rebeldes e inspirados poemas de um cantor da minha vida, que repete, afinal, nesse, particular, os passos da Amália do pasmosamente belo “Estranha Forma de Vida”, do Jim Morrison de “Riders on the Storm”, do Jacques Brel de “Ne Me Quitte Pas”. Ouvidos, nas vozes deles e nas canções a que pertencem, esses poemas viram-nos do avesso. Solitariamente esparramados no papel, há outros e muitos poemas que os ultrapassam.

Obrigarmo-nos à exigência de os procurarmos não é ser conservador, é só a obrigação de quem para si e para os outros quer alturas de incenso. E se alguma coisa eu reconheço, me seduz e encontrei no meu amigo Pedro Norton foi essa aventureira exigência e a incessante, por vezes inquieta, procura de alturas de incenso. Distraiu-se, agora, a olhar apaixonadamente para o juvenil Dylan de Greenwich Village. A falta que ao Pedro andam a fazer os anos 60. Ainda o hei-de ver, Gauguin, de flores nos cabelos, um vento dos mares do sul a bronzear-lhe a face sem barba.

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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13 respostas a Nem que a vaca tussa e o boi espirre

  1. Não concordo. Não concordo. Não concordo. Não concordo….

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Meu caro, se menos por menos dá mais, cada dois “não concordo” dão para aí um “Concordo”, não acha?

  2. albertino.ferreira diz:

    Concordo absolutamente consigo, caro Fonseca, e assino por baixo toda a sua bem fundamentada opinião. O facto de até agora não se dignar responder aos telefonemas do Comité Nobel prenuncia que vai recusar o prémio. Era o melhor que ele fazia e mostrar assim a sua grandeza, não o aceitando, porque não o merece.Ponto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Caro Albertino, não podemos especular sobre as razões de Dylan, mas espero que no fim ele nos surpreenda, porque é isso que ele merece, ser sempre a fonte da nossa surpresa.

  3. EV diz:

    É bom entrar no blog e ler este ping-pong! Escuso-me a dizer que, na questão Dylan, jogo na sua equipa.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Mas é preciso dizer que este ping-pong se deve ao grande jogo de cintura do nosso Peter Norton. Foi ele que abriu as hostilidades e eu acho que está longe de desistir. Com Dylan ou sem Dylan vamos ter mais música argumentativa. Música para Nobel.

  4. Jose Carlos Rodrigues diz:

    Caro Manuel da Fonseca, concordo com o teu texto e as tuas razões. Assino por baixo

    • Manuel S. Fonseca diz:

      José Carlos, já sabes que é um prazer. E olha que sou capaz de usar a assinatura nuns contratos de compra e venda, não digo de uns submarinos, mas de uns porta-aviões. Um abraço

  5. Luis Eme diz:

    Além de tudo o que o Manuel escreveu soa estranho ouvir que Dylan é Prémio Nobel da Literatura.

    Penso que ele tem um ego dos grandes, por tudo o que conseguiu, por todas as lutas que ganhou (e também por ser um mau entrevistado, só diz o que quer…). E é por isso que deve dar umas gargalhadas boas com os amigos mais próximos, pela estranheza da coisa (quase a caminho da anedota…) e pelas coisas incríveis que se têm escrito em todo o lado (dos contra e dos favor).

  6. Artur Hermenegildo diz:

    Percebo o teu argumento e até concordo com ele.

    Mas…

    De repente, assalta-me esta dúvida. E então o Teatro? Um autor de Teatro também escreve primordialmente palavras para serem ditas (e até cantadas, porque não?), e não apenas para serem impressas e lidas.

    A própria Poesia, aliás, existe igualmente, acho, para ser dita, e não apenas lida.

    E, posto isto, já não sei.

  7. Artur Hermenegildo diz:

    O Dylan fez melhor, muito melhor, do que recusar o prémio. Pura e simplesmente ignorou-o. Chapeau!

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