Conspiração contra a América *

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Se bem estão lembrados, Franklin Delano Roosevelt foi derrotado na eleição presidencial de 1940 por Charles Lindbergh. O aviador e herói vinha sendo criticado, é certo, pelo seu apoio público e entusiástico ao governo de Hitler. Era um candidato improvável e ninguém o levou demasiado a sério. Mas a verdade é que apareceu de surpresa na convenção Republicana daquele ano e acabou nomeado como candidato do partido. Depois foi o que se viu. Odiado à esquerda, Lindbergh obteve o apoio popular da maioria dos estados do sul e do interior e, contra todas as expectativas, venceu as eleições com relativa limpeza. Daí ao tratado de paz com a Alemanha nazi e com o Japão foi, literalmente, um tirinho. Seguiu-se o que se tinha de seguir. Uma política abertamente racista e anti-semita que culminou num programa forçado de “americanização” dos jovens rapazes judeus. O mundo livre e ocidental acordara, do dia para a noite, para o seu pior pesadelo.

É evidente, caro leitor, que nada disto é o que parece. Isto é Roth e é Roth do melhor. A Conspiração contra a América foi publicado em 2004. Se tivesse sido publicado em 2024 teria ido parar às prateleiras dos romances históricos. Sendo as datas o que são, vão ter de inventar-se prateleiras para os romances proto-históricos.

Tudo isto podia ser uma mera curiosidade. Uma mera casualidade e uma mera coincidência. Mas não é. A grande literatura alimenta-se da realidade. Recalcada, submersa, escondida, inconsciente, paralela. Era Freud que o dizia. Não fui eu que inventei. “Os poetas e os romancistas são aliados preciosos, e o seu testemunho merece a mais alta consideração, porque eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha ainda. São, no conhecimento da alma, nossos mestres, que somos homens vulgares, pois bebem de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência”.

Roth não é Nostradamus e Lindbergh não foi Trump. Mas Roth é do melhor que a literatura contemporânea tem. E os sinais, submersos e subterrâneos, percebe-se agora com límpida clareza, estavam todos lá. Deles se fez ficção e deles se fez realidade. O escritor foi capaz de lê-los. Foi capaz de reconhecer “entre o céu e a terra, muitas coisas que a nossa sabedoria escolar nem sequer sonha(va) ainda”. Os sinais, meus caros, continuam todos cá. Mas a hora dos escritores acabou. A responsabilidade é agora nossa, homens vulgares. E é sobretudo nossa, europeus vulgares. Sabemos hoje que a América não estava afinal imune aos impulsos populistas atávicos. Mas os americanos só tinham a literatura para os fazer “beber de fontes que não se tornaram ainda acessíveis à ciência”. Nós temos também a história. E temos, portanto, muito menos desculpas.

* Esta crónica foi publicada na Visão em 24.11.16

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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3 respostas a Conspiração contra a América *

  1. albertino.ferreira diz:

    A ficção tornou-se realidade…Ainda há escritores da estirpe do Roth, de que li alguns livros mas não esse, que têm a clarividência, pelo seu conhecimento profundo da América, de prever o impensável que está a acontecer, mas não é ficção. Como lutar contra isto deste lado de cá do Atlântico?Aceitam-se sugestões.

  2. nanovp diz:

    Truth is stranger than fiction…

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