Ainda a pós-verdade

Irene Pimentel faz no Facebook uma crítica – justíssima, como veremos – a um post meu sobre a pós-verdade. Permitam-me umas curtas notas sobre o assunto.
1 – A primeira é sobre a forma. Irene Pimentel critica de forma informada, educada, construtiva. Não é, infelizmente, a regra. Se mais razões não houvesse – e o respeito que me merece é só mais uma – esta razão bastaria para que eu tivesse a obrigação de responder-lhe. Faço-o aqui, neste blog, porque uma das nossas regras é, precisamente, cultivar a discussão civilizada.
2 – A segunda, mais importante, é sobre a substância. Aquilo que eu tentei criticar, sem sucesso, foi a realidade subjacente ao conceito de pós-verdade. Não o conceito em si mesmo. Julgo que o título do post está na origem do equívoco mas a verdade (lá está) é que o título induz em erro. Irene Pimentel está pois, para todos os efeitos, carregada de razão na crítica que me dirige.
3 – No mesmo post arrisquei, no curto espaço de algumas linhas, ir mais longe. E desde já admito que nada disto seja consensual. Mas é o que penso. A minha tese é a de que a pós-verdade é filha do relativismo que, por sua vez, nasce da deturpação de um conceito liberal. Tento explicar. Um liberal – tal como o entendo – recusa que existam verdades absolutas – ideológicas, religiosas, sexuais, culturais –  dogmaticamente impostas no domínio do privado. Fá-lo para proteger a liberdade individual de consciência e de expressão. Não o faz para concluir a inexistência de uma qualquer Verdade. Como então escrevi, aceitar a incognoscibilidade da Verdade, recusar a sua imposição na esfera privada, não significa proclamar a sua inexistência, muito menos o direito a, individualmente, procurá-la.
Da simples incompreensão desta ideia liberal, da confusão entre a recusa da imposição de verdades no domínio do privado e a recusa, pura e simples, da existência de uma qualquer Verdade, nasce, arrisco afirmá-lo, o relativismo. Ou seja, a ideia de que tudo se equivale, de que não há verdades absolutas. A ideia de que tudo depende das circunstâncias, do quadro mental ou cultural.
Ora, a pós-verdade parece-me ser, nesse sentido, um mero prolongamento lógico do relativismo. Já não apenas se recusa a mera existência teórica de Verdades absolutas, dá-se legitimidade plena à mentira.
4 – A era da pós-verdade é, ao contrário do que possa parecer, uma enorme oportunidade para o jornalismo. Assim o fact-cheking, mais do que um moda passageira, possa continuar a ser uma das nucleares razões de ser da profissão. Não há Facebook que substitua essa função.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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4 respostas a Ainda a pós-verdade

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Se eu não andasse pelo deserto viria aqui dizer-lhe que me é mais simpática a ideia de que o pomposo conceito de pós-verdade é uma merda, como Vexa, Pedro Norton, começou por dizer e, a meu ver, bem. Conceito que não tem nada de novo. As massas induzidas por notícias falsas, a informação inventada, é velha de séculos. Da Grécia e de Roma. Foi a pós-verdade que levou a cicuta à boca de Sócrates e já havia pós-verdade nas Catilinárias. Sem a pós-verdade Shakespeare não teria posto na boca de Marco António a arrebatada oratória que virou do avesso a multidão que deixa de incensar Brutus para logo lhe querer queimar a casa. Eu vi a pós-verdade a fazer correr sangue nas ruas de Luanda na transição para a independência e depois da independência… Eu vi, gerações e gerações viram a pós-verdade ainda ela não tinha nascido. Oh, e há lá mais pós-verdade do que a Vassili Grossman ou Victor Serge relatam nos seus romances sobre o comunismo soviético… O comunismo sim, fez da pós-verdade uma religião.

  2. pedronorton diz:

    Manuel,
    O conceito de pós verdade pode não ser novo e ser até pomposo. Mas o ponto central da crítica – com que concordo – é que a realidade subjacente ao conceito, seguramente ainda mais velha, é que é a verdadeira merda. E tanto é que foi em merda que deu na Grécia, em Luanda e em Moscovo.
    Abraco

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