Buddy “King” Bolden

O homem da fotografia viveu entre a década de 70 do século XIX e a década de 30 do século XX. Barbeiro de profissão (outra versão da história fá-lo editor de um pasquim de escândalos chamado Cricket), bêbedo muitíssimo competente, acabou os seus dias num hospital psiquiátrico do Estado do Louisianna. A foto, carcomida pela humidade, é o único registo que sobreviveu do homem e da sua obra. O que, convenhamos, é pena. «To say the least». Atendendo a que foi o primeiro a tocar uma música estranha, misto de blues, de gospel e de ragtime, a que anos mais tarde alguém chamaria … jazz.
A que soaria, exactamente, o som de Bolden? A que soa o som dos mortos? Para onde vai a música quando não fica capturada em purgatórios de vinil ou em infernos de bits e bytes? Existirá um Paraíso para a Música quando volta a ser pó? E um Inferno? Não consta que Dante e Beatrice fossem melómanos mas custa a crer que o destino da música seja nenhum. E se assim é, qual terá sido o destino da musica de Bolden? Ecoará no Paraíso ou o lugar é uma maçadora coutada para anjos, arcanjos e querubins e para a sua pueril música celestial? Prefiro acreditar que continua a tocar, eterna, roufenha, crioula, embriagada, numa sufocante cave do Inferno. E que, todas as noites, tem em Charles “Buddy” Bolden o espectador especial que nunca pode ter em vida.

O mais certo é que vá, eu também, morar para aqueles lados. Não tanto por causa dos dotes musicais que não tenho, mas por culpa de muitas outras histórias que, se me dão licença, prefiro levar comigo. Se houver lugar na sala hei de pedir um Gumbo, uma cerveja fresca, hei de sentar-me ao lado de Buddy Bolden. Depois, com um olhar de cúmplice, dou-lhe uma cotovelada e sussurro-lhe ao ouvido: “I thought I heard Buddy Bolden say, Funky-butt, funky-butt, take it away.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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2 respostas a Buddy “King” Bolden

  1. este escrever foi deveras triste! e poético! e apaziguador! e, logicamente, lindo! é bom começar segundas assim. Bem Haja!

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