Uma (espécie) de elogio a Trump

Deixem-me lá falar um bocado de política.Isto por aqui é proibido mas o Fonseca anda distraído.

Regressemos pois ao início. Trump aparece na corrida para as primárias do Partido Republicano como uma caricatura grotesca, uma bizarria americana que ninguém levou a sério. Depois foi o que se viu.

Durante toda a campanha para a presidência, contam-se pelos dedos das mãos as sondagens e o analistas que previram o desfecho final. A plausibilidade crescera, é verdade, mas ainda mais verdade é que a esmagadora maioria de nós não acreditou. Foi o que se viu.

Veio depois a ideia, bizarra vista do hoje, de que o Trump Presidente eleito seria profundamente diferente do Trump candidato. Foi o que se viu.

A equipa é que era. Quem verdadeiramente manda não é o Presidente. Trump vai ser moderado pelo seu gabinete. Está bem está. Hoje alguém acredita que de um cocktail de criacionistas, racistas, condecorados por Putin, céticos ambientais, militaristas furiosos e um genro ou outro, vai ser fazer da Casa Branca um santuário de sagacidade? Pois.

Ontem ainda, muita gente inteligente, um pouco pelo Mundo inteiro, jurava a pés juntos que a inaugural address seria o momento de reconciliação com a América. Uma espécie de epifania à la Soares com o seu Presidente de todos os Portugueses de 1986. Foi, repito-me, o que se viu e ouviu.

Em suma: Trump tem sido um dos políticos mais subestimados dos últimos tempos. Porque não tem um discurso sofisticado. Porque não tem um argumentário densificado. Porque tem um comportamento que parece – e sublinho o parece – errático. Sim. A franja também não tem ajudado. Mas o que é relevante é que Trump tem feito desse desprezo intelectual uma força. É Presidente e só por manifesta teimosia podemos continuar a achar que o conseguiu por acaso, por causa do Putin, da pós verdade, ou porque o sistema eleitoral americano é perverso.

Já vos explico onde quero chegar. Primeiro gostava de propor a hipótese de contrariar três mitos sobre Trump.

1 – Primeiro mito: “Trump não tem visão, estratégia ou pensamento. Bom, não diria tanto. Há uma diferença abissal entre não ter um pensamento estruturado e cartesiano e não ter pensamento. Trump não tem uma estratégia, muito menos um programa, em sentido estrito ou clássico. Não pensa em bullet points nem terá constituído um gabinete de estudos há dez anos. Trump é um primário, não é um primata. Tem um pensamento pouco estruturado, pouco elaborado. Mas tem pensamento. Uma ideia mal explicitada intelectualmente mas clara de onde quer chegar. E uma intuição finíssima sobre a forma de lá chegar.

2 – Segundo mito: “Trump é errático. Desenganem-se. Ser imprevisível não é sinónimo de ser errático. Podemos ser surpreendidos mas não podemos daí inferir aleatoriedade. Trump não errático. Trump é pragmático. Nesse sentido afasta-se da tradição secular de uma política americana que, cultivando e promovendo a diversidade, sempre se manteve ancorada nos valores funcionais liberais dos founding fathers. Parêntesis: a esquerda, num acesso de pós verdade, reescreveu o sentido da palavra liberal (acrescentou-lhe um neo que é uma forma de insultar como outra qualquer) mas vamos ter todos muitas saudades do liberalismo clássico americano. Volto à vaca fria. Trump é de um pragmatismo cortante liberto da canga dos valores liberais. Tem, já o disse uma ideia clara. To Make America Great Again não é, pardon my french, um mero slogan. É um programa intelectualmente básico mas nem por isso mais frágil de defesa intransigente e sem compromisso dos interesses económicos dos EUA. Para o cumprir com pragmatismo Trump recusa amarras morais, culturais ou históricas. Reclama total flexibilidade. Hoje a Rússia, amanhã a China. Visto assim não é de espantar que não goste da ONU, da NATO ou de qualquer outra instituição diplomática multilateral. Scrap all this shit. Trump não quer perder tempo a conversar com um Europa que não se entende a conversar sozinha. Não quer alianças nem compromissos duradouros. Hoje a Rússia, amanhã a China, repito. Não há aqui nada de errático. Há pragmatismo sem concessões.

3 – Terceiro mito: “Trump não é político. Nada de mais errado. Trump identificou com rigor quase científico (garantem-me que com rigor mesmo científico) a sua base política de apoio: os descamisados da globalização (curiosamente um público namorado por uma certa esquerda). Sabe muito bem com quem fala e olhe que não é consigo. Identificou com não menos precisão um inimigo externo para dar coesão ao seu eleitorado: o establishment supostamente corrompido de Washington que abrindo a América ao Mundo beneficiou ilegitimamente do comércio internacional e roubou emprego aos americanos mais desprotegidos (que ele próprio deva o seu sucesso a essa economia aberta ao Mundo não é coisa que faça qualquer confusão ao seu espírito pragmático). Deu-se ao trabalho de criar até uma América mitológica, em plena crise pós industrial, magnífica distopia tão afastada da realidade como subliminarmente eficaz. Trump será populista, será manipulador e será um líder de facção. Será radical e será divisionista. Mas se isso é não ser político então Mussolini era um burocrata maçador.

Concluo e digo finalmente ao que venho. Trump é mais inteligente, mais eficaz, e mais consistente do que temos querido crer. Poupe lá o insulto mais um segundo. Dizer isto não é um elogio. Serve tão simplesmente para dizer que quanto mais o desprezarmos mais perigoso se tornará. É altura de lhe darmos o crédito que merece. Só assim o combateremos.

Ridículo, ridículo, só mesmo o cabelo.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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16 respostas a Uma (espécie) de elogio a Trump

  1. Ana Dória Borges diz:

    Obrigada Pedro, esta é a analise que todos deveriam ler, só e apenas para entender …

  2. flor diz:

    Subscrevo.
    Obrigada pelo post.

  3. Se do ponto de vista europeu e pelos dados revelados pelos vários indicadores, a governação foi, apesar da maior crise económica mundial depois de 1929 e ao invés da Europa, um sucesso, há algo, porque contraria a história da tomada do poder dos partidários do populismo, que não consigo compreender: o que correu mal nestes anos de Obama para que o povo americano votasse numa mudança tão radical, e entregasse o mais alto cargo da nação ao sinistro Donald Trump?

  4. Angel Ruiz diz:

    Olá Pedro.
    Acho atua analise muito certeira.
    Considero no entanto que te escapam alguns pormenores:
    – Trump muda tanto a tradição politica bi-partidaria Americana (e Europeia) quanto Obama-Yes-we-CON. Os lamentavelmente comparsas (ou patrões) do teu patrão Balsemão-Bilderberg, não deixaram de perceber que o povo está farto de traidores diabos maçonico.kabalistas. Assim, estão abertos a candidatos (Pseudo)”Anti-Sistema”.
    – Servirão para aplicar mais algumas massónicas medidas Draconianas (como Obama tanto fez).
    – E para, após provarmos uma nova fase de conflito (está mais evidente que nunca), Tese “Trump”, anti-Tese “Liberais” (lLIBERTINOS Morais ou Económicos) da falsa-dicotomia da kabalística dialectica Hegeliana.
    – Mediante este novo Mussolini-de-trazer-por-casa:
    (o primeiro também fora financiado pelos banqueiros sionistas locais – o tio-bisavó do Herdeiro da Fiat – até este se fartar de ciladas e o executar, não sem antes ter treinado as forças terroristas armadas sionistas).
    Seão desacreditadas, re-estigmatizado, diabolisado e anatemisado qualquer movimento com cariz conservador que queira preservar a civilização tradicional e ocidental.
    Dirão então “Be carefull for what you wish”.
    Os negocios vorazes Rothschild não sofrerão. Uns passinhos para traz, para melhor avançar as fases pendentes do genocidio cristão branco sem oposição.
    Sapar e Minar e Destruir a Sociedade para Saquea-la, Despoja-la, Devora-la. Grau 33? = “Ordo ab Caos” = A “Ordem” (Tiranía) mediante o Caos.
    Lamento mencionarte aquí que o Balsemão é assim obviamente mais um “Vampirinho” da voraz séptica Horde Rothschild.
    Espero que te convertas ao fariseismo, senão farás parte dos 2800 escravos por pseudo-judeu que o Talmud prevé no messianismo da “paz mundial”.

  5. Angel Ruiz diz:

    Ah, a propósito:
    Felicito-te por não terem na SIC, nos folhetins – novelas campanha de Mestiçagem-Obrigatoria à-la Sarko(ma)Si(zi) como promove a TVI nas suas.

    A vossa última novela, (embora prefira as da globo), tem uma psicopata de turno bem menos desgradavel e cansativa. É-vos autorizado fazê-las sem?
    Abraço
    Angel

  6. Artur Hermenegildo diz:

    Exacto. Pouca gente, infelizmente, terá percebido esta evidência. Ir pelo caminho de gozar com o homem e tratá-lo como um imbecil é exactamente aquilo que melhor serve os interesses dele.

    O apelo aos “descamisados” não é novo e foi essa como sabemos a base de apoio dos fascismos nos anos 30. A incapacidade da Esquerda em mobilizar estas camadas da população é fatal.

    Aquilo que passa por “esquerda” nos EUA (e cada vez mais na Europa também) não passa de uma versão soft da direita, tão comprometida com o sistema, os interesse, a corrupção, etc, como a direita tradicional está.

    Deixo uma nota adicional: em termos de política externa, Trump será provavelmente menos “interventivo” militarmente do que Obama foi e do que Hillary seria. O que não é difícil,aliás.

  7. «Um cocktail de criacionistas, racistas, condecorados por Putin (?), cé(p)ticos ambientais, militaristas furiosos e um genro ou outro»…

    Quando pessoas com (ir)responsabilidades em importantes órgãos de comunicação social têm – e revelam – tais preconceitos, uma tal perspectiva deturpada, assente em calúnias, em generalizações abusivas, em mentiras, relativamente a um determinado conjunto de pessoas, a um movimento político, a um partido, não é surpreendente que em vez de informação (mais ou menos) equilibrada, isenta e rigorosa, tais órgãos produzam propaganda. O que, aliás, também explica a pergunta – e o espanto – de outro comentador deste texto, o Sr. António Barreira: «O que correu mal nestes anos de Obama para que o povo americano votasse numa mudança tão radical, e entregasse o mais alto cargo da nação ao sinistro (sic ;-)) Donald Trump?» Na verdade, muita coisa correu mal; na verdade, a presidência do Sr. Hussein não foi um «sucesso»; e foi por isso que, precisamente, grande parte do povo americano – incluindo em (dezenas de) condados e em Estados que em 2008 e em 2012 deram a vitória ao marido de Michelle – votou numa «mudança radical».

    E que o autor desta «posta», e outros, não se preocupe(m) e não perca(m) tempo em (tentar) «combater» Donald Trump. Nos EUA não faltam esquerdistas (verdadeiramente) racistas, intolerantes e violentos a fazerem isso mesmo, através de (frívolos) processos judiciais, manifestações e motins (com destruição de propriedade pública e privada), e apelos ao assassinato do actual presidente. Mais valia preocupar(em)-se com quem, deste lado do Atlântico, em Portugal e no resto da Europa, tenta tirar-nos as liberdades, destruir o nosso modo de vida, e mesmo matar-nos… e que não é, obviamente, a dita «extrema-direita».

    • pedronorton diz:

      Meu caro Octávio dos Santos.
      Muito obrigado antes de mais pelo seu irado comentário.
      Não estou é seguro de ter percebido o seu ponto.
      É ou não é verdade que na equipa de Trump existe um criacionista (Ben Carson)? É ou não é verdade que Jeff Sessions disse que a national association for the advancement of coulored people era “unamerican” e “communist inspired”? É ou não é verdade que o US attorney Thomas Figures testemunhou que Sessions lhe disse que “the KKK is ok”? É ou não é verdade que Rex Tillerson foi condecorado por Putin? É ou não é verdade que JaredKushner é genro de Trump? Mad Dog Willis é conhecido pelas suas posições pacifistas?
      Ficam os bois chamados pelos nomes. Gostava que me explicasse onde é que há aqui uma uma generalização?
      Não lhe peço que concorde comigo. Peço-lhe que não seja preconceituoso. Não presuma que não fiz o meu trabalho de casa.
      Com os meus cumprimentos
      PN

      • Caro Pedro Norton,

        antes de mais, não consigo ver como é que o meu comentário é «irado» e «preconceituoso». Na verdade, a ira e o preconceito estão, sim, no seu texto: quanto à primeira, o senhor fala em «combater» Donald Trump; quando ao segundo, tal é evidente pela, exactamente, generalização que faz…

        … Evidente ao usar, primeiro, o plural, e, depois, dar exemplos… singulares. Referiu inicialmente «criacionistas», e, depois, menciona um «criacionista». «Racistas», e, depois, um «racista». «Condecorados por Putin», e, depois, um «condecorado por Putin». «Militaristas furiosos», e, depois, um «militarista furioso». «Um genro ou outro»… embora, por enquanto, só exista um (haverá outro se e quando a outra filha, Tiffany, se casar). E, curiosamente, não dá exemplos de «cépticos ambientais», talvez porque entretanto se tenha apercebido de que tal expressão é algo… bizarra.

        Dir-me-á, talvez, que um «s» a mais ou a menos não faz grande diferença; que é pouco menos do que irrelevante colocar a discussão no singular ou o plural. Não concordo: creio que faz toda a diferença; é uma questão de rigor, de honestidade intelectual.

        Vejamos agora, mais detalhadamente, alguns dos casos… singulares que referiu.

        Ben Carson é um «criacionista»? Ele disse que sim se tal for entendido no sentido de que acredita num «Criador» – ou seja, Deus. De qualquer forma, a opinião dele sobre a idade real da Terra não parece ter prejudicado a sua carreira e o seu sucesso como um dos melhores neurocirurgiões do Mundo.

        Jeff Sessions é um «racista»? Se é, sem dúvida que se trata de um dos mais insólitos, porque, enquanto procurador no Alabama, e entre outros feitos, promoveu o fim completo da segregação nas escolas daquele Estado, e acusou (e conseguiu a condenação à morte de) um líder local do Ku Klux Klan. Quanto a Thomas Figures, eu não lhe daria muita credibilidade, já que, posteriormente, foi acusado de corrupção.

        Rex Tillerson foi «condecorado por Putin»? Sim… por ter promovido o desenvolvimento das relações económicas (ao nível do petróleo) entre os EUA e a Rússia. Não consta que tenha sido, como os «cinco de Cambridge» e os Rosenberg, por espionagem a favor de Moscovo. Porém, mais «merecedora» de uma condecoração seria Hillary Clinton, já que, enquanto secretária de Estado, permitiu que 20% das reservas de urânio norte-americanas passassem a estar sob controlo dos russos.

        James Mattis é um «militarista furioso»? É certo que ele não é um pacifista, mas não consta que o seu percurso tenha sido caracterizado por frequentes ataques de raiva e/ou tiroteios injustificados. Ou o senhor acha que qualquer militar é necessariamente uma pessoa descontrolada?

        Enfim, eu diria que chamou aos «bois» os nomes errados. Reconheço que fez um «trabalho de casa», mas os «livros escolares» a que terá recorrido não são os mais… «actualizados». Com efeito, muitas pessoas – incluindo, infelizmente, demasiadas que trabalham na comunicação social – acreditam piamente, por exemplo, em tudo o que vem da CNN, do New York Times, do Washington Post, do El Pais, do Libération, do The Guardian e da BBC. Creio que deveriam ser um pouco mais… céPticos. 😉

        • Pedro Norton diz:

          Caro Octávio,
          Tem razão quanto aos s. Não me parece que seja uma desonestidade intelectual mas está no direito de ter a opinião que quiser.
          Quanto aos ambientalistas céticos só não os citei porque são vários: scott pruitt, Mike Pompeo e o próprio Trump devem chegar.
          Finalmente as fontes. Sim. Considero bastante qualquer dos OCS que citou. Não serão imunes a erros. Mas acho que ficaríamos todos muito mais pobres se não existissem.
          Não sei quais são os seus “livros escolares” mais actualizados e mais credíveis mas estou sempre dispor´velara aprender.
          cumprimentos,
          PN

          • Pedro Norton diz:

            E já agora, não resisto. Quer convencer-me que tratar Obama por Hussein não tem nada a ver com preconceito? Costuma tratar o Trump por John?

            • Porque é que tratar alguém pelo seu nome verdadeiro, ou um dos seus nomes verdadeiros, é «preconceito»? Este, sim, parece ter sido sentido pelo próprio, já que durante bastante tempo se apresentou como «Barry» em vez de Barack, e «Soetoro» (o apelido do padrasto indonésio) em vez de Obama.

  8. Hoje ouvi na radio que a Espanha é dos paises mais anti-Trump, nâo sei se é certo e se temos os espanhois razâo para isso o nâo, mas depois de ler isto fico ainda mais intranquilo…

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