Assassínio de presidentes. Uma tradição americana

 

 

Houve vinte tentativas de assassínio de presidentes do Estados Unidos. Quatro tiveram sucesso: Abraham Lincoln, James A. Garfield, William McKinley e John F. Kennedy foram todos mortos a tiro. Suspeita-se, ainda, que mais dois foram envenenados: Zachary Taylor em 1850 e Warren G. Harding em 1923.

Dois presidentes foram feridos, Theodore Roosevelt (na condição de candidato) e Ronald Reagan. Desde John F. Kennedy, todos os presidentes, com excepção de Lyndon B. Johnson sofreram tentativas de assassínio — curiosamente, e segundo os teóricos da conspiração, LBJ foi um dos responsáveis pelo complô para assassinar Kennedy — embora, com a excepção de Reagan, todas as tentativas tenham sido particularmente ineptas.

Embora algumas nasçam de conspirações e enredos políticos, a maior parte das tentativas foram levadas a cabo por lobos solitários de pistola em punho, claramente com problemas mentais e uma ligação especial ao divino que lhes permite ver o anti-cristo. Eis algumas.

Em 1835, um pintor chamado Richard Lawrence, disparou duas pistolas sobre Andrew Jackson. As pistolas não funcionaram e o presidente, dando-se conta do sucedido, alçou da bengala e deu uma tareia perpetrador. O homem endoidecera, pensa-se, devido ao efeito da inalação das tintas que duranta anos usara para pintar casas. Com o passar do tempo e o crescer da insanidade, convenceu-se ser Ricardo III, rei de Inglaterra, e credor de dinheiro que o presidente se recusava a pagar-lhe. No seu demente delírio pensou que, matando o presidente, o vice-presidente honraria a dívida imaginária. E assim vai de comprar um par de pistolas e disparar sobre o presidente. Falhou. Depois de julgado foi internado num hospital psiquiátrico até ao fim da vida.

Piores sortes tiveram assassino e vítima em1901. Às 16.07 de uma sexta-feira de Setembro, o presidente William McKinley cumprimentava populares e visitantes no Templo da Música em Bufalo, no âmbito de exposição Pan-Americana, quando o Leon Czolgosz, um autoproclamado anarquista, desempregado e militante, se aproximou e disparou dois tiros de uma pistola de calibre .32. Uma das balas alojou-se no estômago. O presidente McKinley morreu uma semana depois, de septicémia. Czolgosz foi executado na cadeira eléctrica.

O presidente McKinley apareceria anos mais tarde, em 1912, mas já lá vamos.

Depois da morte de McKinley, o Congresso determinou a obrigatoriedade dos serviços secretos protegerem o presidente. Já tinham sido assassinados Abraham Lincoln e James A. Garfield.

James A. Garfield foi assassinado por um tal Charles Guiteau, um escritor de discursos mentalmente perturbado e extremamente ofendido com o presidente por este lhe ter negado o lugar de embaixador em Paris. Guiteau estava convencido que tinha sido ele, e o brilhante discurso que escrevera, e que o então candidato lera apenas duas vezes, o responsável pela eleição do presidente. E como recompensa queria o posto de embaixador em Paris. Não o obteve. Antes obteve um .442 Webley, um revolver com punho de marfim — declarou mais tarde que, com punho de marfim, a arma seria uma peça mais bonita para figurar no museu — e disparou dois tiros sobre o Garfield na Baltimore e Potomac Railroad Station. O presidente morreu onze semanas mais tarde, devido a complicações (foi antes dos antibióticos e das, hoje, habituais normas de higiene médicas). Guiteau, embora diagnosticado com a doença bipolar por efeito da sífilis no cérebro, foi enforcado.

Também por razões de insanidade John Warnock Hinckley Jr. tentou assassinar Ronald Reagan com um revolver Röhm de calibre .22. Hinckley era fã do filme Taxi Driver e ainda mais fã de Jody Foster, que há anos perseguia e queria impressionar. Assassinar Reagan foi a ideia que teve.

Uma das minhas histórias favoritas é a da tentativa de assassinato do presidente Theodore Roosevelt. Tem todos os ingredientes: o doido, a pistola da ordem e um discurso milagroso. A história conta-se em três penadas:

John Flammang Schrank, nascido na Baviera, mas a viver nos E.U. desde os nove anos (um emigrante, portanto), foi um pacífico e amável taberneiro de Nova Iorque até aos seus trinta e tal anos. Vivia com os tios, os pais tinham morrido quando era novo, e tinha uma namorada. Mas depois os tios morreram, e morreu a namorada também. John, de coração despedaçado, vendeu tudo e errou durante anos pela costa leste. Tornou-se religioso, um estudioso da bíblia, que debatia com fervor em parques e jardins, e escrevia poesia.

Em 1912 — e de acordo com documentos encontrados no próprio Schrank depois da tentativa — o fantasma de William McKinley visitou-o e pediu-lhe para vingar a sua morte apontando para uma imagem de Roosevelt. Na noite de 14 de Outubro, em Milwaukee, quando Theodore Roosevelt saía do hotel onde tinha jantado e se dirigia a um comício para ler um discurso de cinquenta páginas, Schrank disparou uma bala de um Colt Police Posite Special de calibre .38. A bala bateu na caixa dos óculos e furou as cinquenta páginas, dobradas, do discurso que Roosevelt tinha no bolso. O maço de papel impediu a bala de chegar ao pulmão. Com a bala alojada nas costelas, Roosevelt, literalmente salvo pela oratória, seguiu para o comício e discursou.

Schrank foi, mais tarde, diagnosticado com as habituais insanidades mentais e passou o resto dos seus dias internado num hospital psiquiátrico.

E podíamos ficar aqui a noite toda, mas já se percebeu a moral da história: que não falta gente disposta e pronta a ver o anti-cristo na Casa Branca. É uma tradição americana.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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8 respostas a Assassínio de presidentes. Uma tradição americana

  1. albertino ferreira diz:

    Este seu post quer dizer que o sr. Trump é um sério candidato a ser o quinto presidente americano a sofrer uma tentativa de assassinato em funções e a morrer em consequência disso?!

    • Pedro Bidarra diz:

      Para ser sincero acho que mais depressa será impugnado ou preso. Mas o assassínio faz parte do famosos checks and balances; embora de um modo informal

  2. Bea diz:

    Eu não quero dizer o que toda a gente pensa depois desta leitura.

  3. A Vieira diz:

    Não existem principios éticos tipo “checks and balances”, para o assassínio físico e de caracter.

  4. Maria Antonieta diz:

    Não tenha pressa, com ou sem ironia, um tiro naqueles cornos era o mínimo que o fulano merecia!

    Assinado: Uma anti, anti – cristos

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