Manto protector

Foto: Miguel Seabra

(Quando vi esta foto do Miguel Seabra, imprimi naquele momento, uma série delas)

Brinquei às escondidas. Encontrei sustos e verdades.
Senti o prazer, a solidão do vento. Do vento rápido.
Refresco de pensamento no rosto. A soltar as crinas da gaiata menina.
Espreitei o escuro. A grandeza.
Beijei sem saber.
Ouvi Roberto leal
Lambada, e chorando se foi a caminho de casa.
Onde vais portuguesa bonita a subir para a escola.
Mas foram sobretudo os fados Dela, que se tatuaram em mim. Como uma lágrima, de 3a feira, escorregando a caminho de casa, na volta da catequese – um cartuxo de pipocas. – Coisas de feira, menina! Rituais de sábado á tarde.
De uma ladra que me deu tanto, enquanto, o monumento crescia em mim. Ganhou-me no presente. Sempre no meu alcance, a avistar o Tejo. E corria o Tejo, corria. Leva-me, lava-me contigo, Tejo! E Tejo levou-me.

O monumento antecipou-me-A.
Já lá estávamos. As duas no Panteão Nacional. O manto que me cobria na.morada de meus pais. Já antes da hora de nascer. Antes de ser pequenina. Antes de ser já o era. Qual é coisa qual é ela, menina?
E o destino ergueu-se.
E fez da mulher um monumento. Pedra sobre pedra. Branca sobre branca. Até aos céus.
Foi por vontade de Deus.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.