A Criação

 

 

Para o filho de camponeses que eu sou, confesso que a polissemia do termo me tem desgraçado. Há a Criação, essa obra visível e invisível do Ser Supremo, a que, com a autorização do probation officer que é Richard Dwakins , chamarei Deus. E há depois a criação que o meu pai e a minha mãe tinham numa parte do quintal na Luanda dos anos 60, e a que chamarei, queira Dawkins ou não, patos, galinhas e coelhos.

São coisas que perturbam a infância de qualquer um. O que é, afinal, a Criação? O resultado é que ainda hoje me pergunto, criação por criação, se em miúdo andei a dar milho às galinhas ou a Deus.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a A Criação

  1. ana marchand diz:

    a Deus , Manuel , e adeus.

  2. Maria Antonieta diz:

    Bem apanhado! Com a imagem de uma cena de ‘Los Olvidados’, de Buñuel, melhor ainda.
    De facto, também nunca percebi porque se chamava – actualmente, não sei – criação, à criação de aves . Olhe que coelhos não são criação, não! Sou alentejana e lá no Monte só ouvia chamar criação a galinhas, patos, pintos e galos…:))

    Bom domingo.

    • Obrigado pelo seu comentário.
      Os meus coelhos estavam numa coelheira a dois passos das galinhas. Eram criados e bem criados. Logo eram criação, se criação for a propagação de animais domésticos, não acha Maria Antonieta? Mas agora, com o que disse, deu-me vontade de ir criar coelhos para o Alentejo. Deve ser mais saudável do que andar a fazer livros.

  3. Bea diz:

    se fora eu, preferia dar milho às galinhas. Dar milho a Deus parece-me altamente perigoso, nada nos garante que aprecie. E as iras divinas não são brincadeira.

  4. EV diz:

    Já me ri tanto!

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