Entre as estrelas

Foi na noite de terça-feira, na Cinemateca. A casa, a que tanto deu, homenageou e bem Rui Santana Brito, que foi director da biblioteca e vice-presidente. Convidado para participar li este texto, versão mais alargada do que já aqui escrevera, quando o meu amigo Rui morreu.

Conheci o Rui Santana Brito há 35 anos, neste velho palacete mourisco, a que chamamos Cinemateca Portuguesa e que está aqui mesmo, atrás de mim, a ranger de memórias e a ranger de saudades.

Dessa primeira vaga que fundou a Cinemateca Portuguesa, o Rui foi o último a chegar. Já cá estavam, da velhinha Cinemateca Nacional de Manuel Félix Ribeiro, o José Manuel Costa, a Teresa Fernandes, o José Matos-Cruz. O João Bénard, pai da nova cinemateca, tinha-nos trazido, ao João Lopes e a mim, um ano antes. Trazia agora o Rui Brito, não para visionar filmes, nem para escrever as famosas folhas, que se pudesse o João Bénard escreveria todas, mas para assaltar a caverna de Ali-Babá que era a biblioteca, onde se encavalitavam as jóias e pedras preciosas a que chamamos livros, bem como o ouro que eram os Cahiers du Cinéma e a prata que eram todas as outras revistas de cinema.

A biblioteca precisava de um cinéfilo. Aqueles milhares de “livros-fantasmas”, as colecções dos Positif, Variety, Photoplay e Screen precisavam de atormentar, de assustar, de amar alguém. Eram fantasmas a precisar da sua Mrs. Muir e o Rui, de tão cinéfilo, não se importava nada e achava mesmo muita graça a ser a Gene Tierney dessa tão bela sala da biblioteca e de trazer aqueles milhões de fantasmas escondidos à vida!

Ficámos logo amigos – ficávamos logo amigos naquele tempo. Mais velho do que eu, o Rui não só sabia quem era Gene Tierney, como sabia quem eram actores que eu nunca tinha visto, actrizes a quem eu ignorava a devoção que lhes era devida, devoção que ainda hoje ando a pagar, em amortizações com protestos de arrebatamento e paixão. Não bastava amar a Lilian Gish ou a Grace Kelly, o Cary Grant ou o John Wayne, era preciso amar Eleanor Parker, Rossana Podestà ou Audrey Totter, para falar só de actrizes que ainda há poucas semanas o Rui defendeu, na última mensagem que deixou na página do facebook dele. Eu julgava saber o que era um realizador e um argumentista, aprendi com o Rui o que era o actor, o que era a actriz.

A homenagem que a Cinemateca Portuguesa hoje lhe faz é justíssima. Rui Santana Brito foi, será sempre, um cinéfilo de unhas e dentes, construtor desta casa. Podia dizer-vos mais coisas que o Rui foi. Podia dizer que ele foi o vice-director da Cinemateca, ao lado do João Bénard. Podia falar-vos da forma como ele organizou, fez crescer e embelezou o tesouro da biblioteca e o pôs nas mãos e à frente dos olhos de milhares de estudantes e cinéfilos.

Podia falar das contribuições em pesquisas, fotos e traduções que deu aos inenarráveis catálogos e ciclos da Cinemateca. Tudo isso lhe devemos e por isso estamos aqui. Mas o Rui, a estas coisas oficiais, com muita cerimónia e coisa e tal dizia-me sempre. “Manel, grrr!, isso é mesmo de engolir punhos.”

Deixem-me ser egoísta e ter com ele uma conversa pessoal. Rui, tu e eu cumprimos o que no “Casablanca” era só uma promessa. Não fomos viver para Brazaville, embora às vezes nos apetecesse, mas tivemos o princípio e o meio de uma bela amizade que não acaba aqui. Foi uma amizade forjada quase toda em diferenças, a minha calma e a tua impulsividade, as tuas opiniões vivas e directas contra a minha retórica ao retardador.

Mas uma amizade forjada também num tronco comum: procuravas nos filmes e nos livros uma dimensão essencial para a vida. A beleza. A beleza comovia-te. Tenho a certeza de que chorámos nos mesmos filmes, de que fechámos os olhos a ler os mesmos livros. E sei disso também, porque viajámos juntos, de comboio, de carro e de barco. De avião nada, contra os aviões, marchar, marchar, porque se o Rui tinha receio, a Antónia, minha mulher, fugia e foge dos aviões como os miúdos do Night of the Hunter fogem de Robert Mitchum. Mesmo assim, levámos a nossa cinefilia a grandes viagens. O Rui com o José Joaquim, que foi o amor da sua vida, eu com a Antónia, todos com a Natália, nossa Condessa, a sua mais fiel amiga, e com o nosso Manel Cintra Ferreira. A Madrid, a Paris, a Roma, a Florença, a Capri, a Marrocos. Mas também à costa amalfitana, à descoberta dessa morada dos deuses que se chama Positano.

O Rui reformou-se há dez anos e eu já tinha saído da Cinemateca em 1992. Continuámos juntos. Nestes últimos dez anos, em que eu escolhi publicar livros, o Rui esteve sempre presente nas minhas aventuras editoriais. Traduziu alguns dos melhores livros que publiquei, a começar pelas 900 páginas da História de Juliette ou as Prosperidades do Vício do abominável Marquês de Sade, para logo, resgatando-se dessa incursão blasfema e apóstata, me traduzir o críptico Rei Jesus, de Robert Graves. Traduziu, de Churchill, Os Meus Primeiros Anos, mas também Os Intelectuais, de Paul Johnson, O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde e A Ilha do Tesouro, de Stevenson.

Eu gostava tanto do que ele traduzia, que, para poder pôr o meu nome ao lado do dele num livro, pedi ao Rui para traduzirmos juntos O Principezinho. Levou-me à boleia e hoje posso mostrar o livro, com orgulho, à minha filha, que ele e o José Joaquim foram os primeiros amigos a ver, depois dela nascer.

Estamos hoje, na sala da Cinemateca a homenagear, numa segunda despedida, o meu amigo Rui Santana Brito, meu companheiro da Cinemateca de João Bénard, meu companheiro de viagens, meu companheiro de uns minutos de êxtase de fim de tarde na Ponte Vecchio, em Florença. A última vez que o vi, numa cama do hospital dos Capuchos, despedi-me dele com um beijo. Foi o único beijo que lhe dei e não sabia ainda que era um beijo de despedida! Contava amarrá-lo à promessa, que o fez sorrir, de que me acabaria a tradução de O Vermelho e o Negro, de Stendhal, que já ia a dois terços.

O Rui, intempestivo, foi-se embora. Só lhe perdoo por saber que foi juntar-se a Mrs. Muir, a Ava Gardner e Montgomery Clift, a quem a cadela dele, a Carmela, tem andado nos últimos tempos a morder as pernas. Se ouvirem trovões nos tempos mais próximos, não se assustem, é o reencontro do Rui com a Carmela, que estão a ouvir. Mas o reencontro não é só com a adorável e louca Carmela. É também o reencontro do Rui com a sobrinha e o cunhado que, com a irmã, Judy, formaram, além do José Joaquim, o núcleo familiar de que tinha tanto orgulho.

E esta viagem do Rui é, também, o reencontro com meia cinemateca, o Filipe Jacinto, o Senhor Gil e o senhor Alberto, o Luis de Pina, o João Bénard e o Manel Cintra Ferreira.

Rui, vais fazer-me uma falta dos diabos. E não é pelas traduções. O que eu quero saber é com quem é que posso agora conversar sobre um certo tipo de canções, por exemplo as versões do Tico-tico no Fubá, da Carmen Miranda ao Ney Matogrosso? Isto é que conta, são coisas destas que enchem uma amizade e uma vida. E, sem ti, Rui, a quem é que posso perguntar por intrigas, traições, ter um grande jantar de má língua à volta da vida das grandes stars, que me dê para cinco crónicas no Expresso? Contaste-me coisas que te vão dar alguns processos judiciais, se aí, entre as estrelas, houver processos judiciais.

Deves estar a olhar lá de cima com um bocadinho de pena por não estares aqui, vivo, prosaicamente sentado, na fila da frente, como merecias. Mas, por outro lado, que grande orgulho não sentirás, neste momento. Depois de tanto as teres amado na terra, estás agora entre as tuas estrelas, lá no céu. Um abraço, Rui.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a Entre as estrelas

  1. Artur Hermenegildo diz:

    E eu lá estive, que o Rui, que conheci muito mal, merecia. Um Cinéfilo de primeira qualidade!

    Só agora, depois da sua morte, me apercebi de qual foi o seu trabalho e o seu contributo concreto para a Cinemateca, na parte da biblioteca,e ainda o fiquei a admirar mais.

    Tive pena de, antes da sessão, não me ter sido possível saber quem era a irmã, Judy, que foi colega do meu pai, há uns 35 anos. Gostava de lhe ter falado.

  2. albertino.ferreira diz:

    Na terça-feira integrado na homenagem ao Rui, vi pela primeira vez, Um Rei e Quatro Rainhas, do Walsh, com Clark Gable e Eleanor Parker; excelente filme, belas interpretações. Além do mais o Rui tinha muito bom gosto, era mais do que um cinéfilo, pelo que conta neste texto de homenagem mais que merecido, no fim um autêntico enciclopedista. Vamos continuar a ver os filmes que ele amou.

  3. EV diz:

    Que bonito e comovedor, Manuel Fonseca.

  4. Maria João Freitas diz:

    Li o seu texto como se estivesse a ver um filme da dupla Michael Powell / Emeric Pressburger. O Manuel faz uma espécie de magia com as palavras: até consegue que a morte pareça bonita. (será por isso que tive vontade de chorar?)

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