Facebook e a política a preto e branco

A Society for News Design atribuiu uma medalha de ouro na categoria best digital design 2016 a um trabalho notável do WSJ. Bem sei que, à primeira vista, isto não parece particularmente excitante. Mas se me derem mais dois minutos perceberão a relevância da coisa.

A ideia foi ilustrar num site uma experiência levada a cabo, em 2015, por um conjunto de Facebook Researchers (?). A dita experiência consistiu (com a colaboração dos próprios) em catalogar 10 milhões (!!!) de utilizadores do Facebook como very liberal, liberal, neutral, conservative, ou very conservative. Depois, durante 6 meses, tratou-se, tão só, analisar o conteúdo consumido por estes utilizadores. Com base nisso, e na auto-catalogação acima descrita, definiram-se as 500 principais fontes de informação e dividiram-se em duas categorias: red e blue.

O red feed na página do WSJ é automaticamente alimentado pelas fontes preferidas pelos conservatives. O blue feed é automaticamente alimentado pelas fontes preferidas pelos liberals. A ideia é replicar um feed tipo de um conservative, lado a lado com um feed tipo de um liberal.

O resultado é espantoso e pode ser espreitado aqui.

Tenho ainda, devo confessar, muito mais perplexidades do que certezas sobre os efeitos das redes sociais na formação de opinião e consequentemente no funcionamento da democracia. Mas esta experiência parece demonstrar uma coisa assustadora: no mundo maravilhoso dos logaritmos vivemos cada vez mais em bolhas informativas que tendem a reforçar as nossas convicções e preconceitos. Não era exactamente a isto que Stuart Mill se referia quando, sem nunca efectivamente usar a expressão, defendeu a metáfora do marketplace of ideas como fundamento máximo da defesa da liberdade de expressão.

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.

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2 respostas a Facebook e a política a preto e branco

  1. A Vieira diz:

    “A tirania, na Idade Média, começou pela liberdade. Tudo começa por ela.”

    Jules Michelet

  2. EV diz:

    É o perigo de Eco…

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