Grandes discursos: Ich Bin ein Berliner

Este é um livro de heróis. Um livro de batalhas, de vitórias e de derrotas. Nalguns casos de derrotas que vão até à morte. Mas às batalhas, à euforia da conquista, ao luto que caminha ao lado dos féretros, à proclamação do Bem contra o Mal, a tudo e em tudo prevalece a palavra.

Este é o livro da palavra dita, da palavra gritada de um púlpito, da arrebatada palavra que clama do alto de uma escadaria, à entrada do palácio que se assalta, junto a um muro ignóbil.

Este livro é da Guerra e Paz editores, aquela casa de livros com quem vivo já 11 anos de pecaminoso concubinato. Mas este livro também é, em pequena medida, um livro Escrever é Triste. Dito por Platão, Péricles, Marco António, Kennedy, Obama e Nelson Mandela, entre outros, este livro foi na verdade escrito por Henrique Monteiro, meu Triste companheiro nesta casa que roubou o nome a Drummond.

Henrique Monteiro apresenta o livro e apresenta, depois, cada um dos 23 grandes discursos que marcaram a História da humanidade, de Jesus de Nazaré e Cícero a Luther King, Gandhi, Churchill ou Salvador Allende e Ronald Reagan.

Este livro ouve-se. Começamos a ler e é a voz de Marco António (ou a de Marlon Brando no filme de Mankiewicz) que ouvimos gritar do alto da escadaria do Senado: “Amigos romanos, venho enterrar César, não fazer-lhe elogios!”. E já ouvimos os aviões a sobrevoar o palácio de la Moneda e Salvador Allende a dizer aos microfones da Rádio Magallanes: “Passam neste momento os aviões. É possível que nos crivem de balas.” E ouvir a voz do actor Ronald Reagan, nesse grande tempo em que os presidentes da América derrubavam muros em vez de os construírem, dizer em Berlim: “Secretário Geral Gorbachev, venha a este portão. Abra este portão. Senhor Gorbachev derrube este muro!”

Estas foram, como escreve Henrique Monteiro, organizador e autor dos textos deste livro, palavras que nos construíram. Foram as palavras certas para fundar a democracia, para fundar a reconciliação e o perdão, para fundar a liberdade e o pensamento. A História é conflito, a História é de tiros e de gritos? É, certamente que é. Mas a História é também de palavra. Dessa arte de as combinar e de as proferir com uma emoção irresistível, em agitação e urgência, mas com a firmeza de quem sabe que tem de dizer No passaran para que possamos nós também dizer Eu tenho um sonho. A História deixa dizer-se.

Este “Os Grandes Discursos da História” é um livro de Henrique Monteiro, aventura de que, como ele diz, eu fui cúmplice. Uma aventura familiar a que a minha filha, Rita Fonseca, se juntou, traduzindo (e quase tudo foi traduzido do inglês) os discursos.  O acompanhamento editorial foi do André Morgado, a capa é, está bom de ver, do Ilídio Vasco.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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Uma resposta a Grandes discursos: Ich Bin ein Berliner

  1. Creatur diz:

    e o que é que nos aconteceu para chegarmos aonde estamos?que muros teremos de derrubar para que o nosso olhar e ouvido sejam trans-lucidos?
    livro pertinente, sim.

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