Imitação dos Livros

IMITAÇÃO DOS LIVROS

E a apresentação do livro
e o programa de rádio, a entrevista?
É não. O livro não estende a mão,
passou bem, um abraço, um beijo, nada.
O livro tem o bom senso que falta ao autor:
sente o mesmo quer gostem dele ou não
e é-lhe indiferente o lugar na estante.
Há quem tenha imitado os santos, platinado
o cabelo à Marilyn, escrito devocionalmente
à la mode deste ou daquele. É não.
O livro tem a sabedoria que falta ao autor,
ou a humildade: ou é bom, ou fica curto ou
largo se a camisa é de empréstimo.
Os poemas então, alguns, são a pesca no inferno
a rabiar-nos nas mãos os versos e o diabo a rir…
É por isso que os poetas são chatos, chatos,
e escrevem sobre escrever poemas enquanto
o diabo ri e nos mostra o espelho:
ah poeta pateta! É verdade, senhor diabo. É sim.
Ai como essa verdade ao espelho nos rebaixa –
há-de ser por causa disso que Narciso para se
espreitar no rio, andava de gatas.
Eu também quis ser viral como a gripe, ter troupe,
ser do circo. Tive a grande sorte de me correr mal
ou agora andava por aí a assinar na feira e a debater
no festival. Hoje é não. Leve lá o espelho,
senhor diabo, quem não me faz não me desfaz,
e não preciso de me ver reflectida.
Sei que le coeur n’a qu’une seule bouche e
é ele quem dita ao poeta ou ao escritor,
nomes de possessos para o verso e a frase em trânsito
desde o fundo escuro de onde vimos até lá ao fim
que só Deus sabe.
Nem é por mal que andamos de gatas na juventude
das letras. Quando somos bebés, basta-nos pestanejar
bocejar e oh que coisa mais linda, amor às carradas,
mas um dia pestanejar não chega nem falar, e já é o pino
ou a pirueta linguística e o débito gnóstico só para saber
que não há coisa mais linda – para ser amado, poeta pateta,
venha a pesca de versos no inferno e riso do diabo, não é?
É patético, sim, e poético, e terrível.
É o esplendor da decadência de Blanche quando
a morte assina com a impressão digital do desespero
a data e a hora, e Stanley e Belle vida fora.
A beleza partida em duas luas de sombra.
Whoever you are, I have always depended on the kindness of strangers.
Nós sim. O livro não: le coeur n’a qu’une seule bouche.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Imitação dos Livros

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Menina Eugénia, mesmo que este seu poema “sinta o mesmo quer gostem dele ou não”, diga-lhe que me causou funda impressão a narratividade dele. Gosto dele, claro e espero que cumpra com o que diz e se venha a esconder nas páginas de um livro, seja qual for a estante a que irá parar.

  2. ana marchand diz:

    segredos de um criador…poeta sem pudor!

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