Invadimos o São Carlos

Fomos ver Donizetti, que nasceu em Bergamo e morreu em Bergamo. Fomos, portanto, ver um fantasma dele que trouxeram ao São Carlos. Donizetti é, na linhagem desses operários que fizeram a ópera, um tipo entalado entre Rossini e Verdi, o que o meu camarada Henrique Monteiro (tenho razões, e não exactamente operárias, para este tratamento fraterno e solidário) confirmará negando.

Fomos, portanto à ópera. Um bando de Tristes. Sentámo-nos em duas frisas mais apertadas do que duas marquises num prédio da Damaia. Já passou mais de um mês, já eu fui dançar à ópera a Viena (hei-de contar, hei-de contar!) e o Henrique a Zurique ou a outra ópera qualquer, e ainda ninguém, nem o Pedro Bidarra, nem a Teresa Conceição ou a Rita Vasconcelos, o Diogo ou a Sandra, nenhum deles veio aqui perorar sobre essa exaltante incursão.

Fomos ver, do compositor de Bergamo, a Anna Bolena que Donizetti compôs em 1830, e a que uma soprano lendária, Giuditta Pasta, obrigou a Europa a render-se. Pode pedir-se muita coisa ao São Carlos, mas que ressuscitassem essa Pasta, que a morte calou em 1865, não é um pedido curial, nem é disso que eu, leigo, insensível e meio surdo, me quereria queixar, se de alguma coisa, da encenação à orquestra e aos cantores, me quisesse queixar. Não quero.

No São Carlos, Anna Bolena era Elena Mosuc, uma soprano romena, que a mim me pôs quase com olhos de água, embora eu saiba, mas não diga quem, na frisa ao lado, se lavou mesmo em lágrimas. Ouvia a Mosuc, e lembrei-me que devemos a Luchino Visconti andarmos hoje, de novo, a ver e ouvir Anna Bolena. A ópera ficou esquecida e foi Visconti, cineasta, mas nesse caso encenador convidado para o La Scala, que foi buscar Anna Bolena para, com essa ópera de Donizetti, fundir o fantasma de Giuditta Pasta na vivíssima Maria Callas.

A pequenina parte abstractizante da minha cabeça ouvia os cantores, o coro, a encenação de Graham Vick e só pensava no que pensaria Visconti, encenador e realizador, quando encenava e quando filmava. Gostava que, entre os 80 cigarros por dia que fumava, ele tivesse arranjado tempo para me falar das diferenças que via entre as duas artes, na diferença que há entre o continuum de tempo e espaço da ópera e a fragmentação do espaço e do tempo no cinema. Para os meus pobres e velhos olhos a ópera é amiga. Pede-me que os deixe quietos, passivos. No cinema, essa arte refém da montagem, essa arte feita plano a plano, frame a frame, os meus pobres olhos não param, são uma pequena régie que dá sentido, que disciplina o torrencial e aparentemente aleatório fluxo de imagens.

Estava eu nestes lamentáveis preparos, nesta angústia reflexiva, e já no São Carlos, em off, bem fora de cena ou fora de campo, se ouvem sinos e o povo em júbilo com o casamento de Henrique (o VIII entenda-se) com a amante pela qual trocou Anna, a sua segunda mulher, enquanto ela, ainda viva, caminha com nobreza para o cadafalso. Talvez a montagem, afinal, tenha sido inventada por Donizetti.

Não acabam aqui as incursões conjuntas dos Tristes. Já fomos juntos à Missa, agora à Ópera. Tínhamos planeado incursão ao Elefante Branco, o que foi fatal como o destino: assustada a gerência fechou a vetusta instituição. O Pedro Norton está a organizar a ida ao Estádio da Luz, perdão, à Catedral. Aceitam-se sugestões.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Invadimos o São Carlos

  1. Bea diz:

    A um bando de tristes com tanta alma não se dão sugestões. É quanto queiram e lhes apraza. Deixá-los ir. Que alguma coisa há-de ver-se no escrever dos tristes.
    Está mimoso o relato de só um em grupo.

  2. EV diz:

    Isso é que foi multitasking mental: então estava ali plasmado a pensar em Visconti? Isso faz-se? As pessoas a esgoelarem-se para isso?!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Vemos, ouvimos e lemos. Nunca ninguém me disse para fazer isto às pinguinhas, menina Eugénia.

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