Tantas saudades meu Lindo Cão

Quem teve tanta sorte com o seu Lindo Cão, meu querido Cão? Fui eu…

e eu que sou católica e praticante, e praticante e praticante, de tanto não acreditar na ressurreição dos mortos e na vida no mundo que há-de vir, espero, mal morra, ver no mundo que há-de vir, porque de tanto praticar ai dele se não vier, espero ver o meu Cão a correr para mim, aquelas corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento, e eu ai que lindas orelhas de Peter Pan seu maluquete, e ele um salto daqueles de molas nas patas… Não há nada mais feliz do que um cão novo: todos os dias parece que descobriu o mundo na ponta do nariz, a farejar.

Tenho tantas saudades do Cão… Não queria que ele estivesse vivo porque gastou a vida todinha e já não podia mais, nem estar de pé, nem sentado, nem dormir, nem estar acordado, nem o coração já sabia bater e se ele estivesse vivo levava-o a morrer outra vez que gostava que fizessem o mesmo comigo.

O Cão, ó raça de Cão mais que independente! Qual colo nem meio colo, deixo que me faças umas festinhas e já está, o que eu quero é passear, andar a direito sempre frente, ladrar aos cavalos, em pé, que é lá isso de ter esse tamanho todo, é pateta, olhe que chego bem para si, ouviu?!

O Cão mais que independente passou um dia inteiro, o penúltimo dia, numa longa despedida, deitado ao meu colo, a cabeça pousada, sem força nem peso, encostada no meu ombro e assim toda a manhã do dia a seguir, mesmo antes de o levar para morrer. Acho que chorámos os dois o tempo todo  – mas deve ser mentira porque o Cão era um valente e eu nem por isso. E fomos pelo caminho mais comprido, a fazer render o céu azul, o mar azul, a volta que antes fazíamos de carro, só os dois, a cheirar as laranjeiras com maresia. A cabeça sempre no meu ombro. Nem um olhar para tanto azul, nem maresia nem laranjeiras, nada, só um cão velhinho, leve, embrulhado numa mantinha de velho e lá fui levá-lo para morrer antes de almoço.

Assinei um papel. O veterinário deu-lhe a injecção. Morreu ao meu colo. Não estremeceu. Não se sentiu. Só o coração de gasto é que parou. Não queria que estivesse vivo: é cruel a obrigação de sofrer só para durar.

Mas tenho tantas saudades do Cão… E já que não existem milagres, gostava muito que existisse pelo menos a vida no mundo que há-de vir. Só para ver o Cão a correr para mim aqueles corridas loucas de cão novo, as orelhas para trás, todas do vento…

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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12 respostas a Tantas saudades meu Lindo Cão

  1. Maria Antonieta diz:

    E que lindo era o seu Cão! Acho que acreditar que há um mundo que há-de vir e, nesse mundo, todos teremos lugar para o reencontro com os nossos afectos, não faz mal e apazigua a saudade. Acredite, e será mais feliz. Eu acredito!!

  2. EV diz:

    Tem razão Maria Antonieta – obrigada, era muito lindo, e bom.

  3. ana marchand diz:

    Eugénia eu tambem sei como é…estas criaturas entram e quando partem deixam vazio e cicatrizes fundas. Mas há o outro lado, o privilégio do que nos deram no tempo que estiveram connosco.
    solidária, sim.

  4. Carla Andréa Balthazar Da Silveira Frederico diz:

    E nós aqui, que acompanhávamos o cão, ele se tornando um pouco de nós todos tbm, sofremos a sua perda. Ateia que sou, acredito em um céu só para nos reencontrarmos com eles que nos esperam, tenho quatro gatitos me esperando lá. No momento são 4 cães e sete gatitos lá em casa, a farra é grande, vale a pena viver a vida cercada desses companheiros peludos, mesmo a tristeza que sentimos quando partem tão cedo e justificada por tantos momentos felizes que nos proporcionam. Lindo texto, lindo amor.
    Bjs do Rio de Janeiro Brasil

  5. manuel mateus diz:

    minha amiga, eu que agora sou um homem de gatos, acredito que há um céu para os cães, e um dia vai encontra-lo lá… a correr para si.
    e também sei que um dia hei-de encontar nessa mesma encosta a minha cacau.

  6. albertino.ferreira diz:

    Actualmente gosto mais de gatos; a minha cunhada tem dois: um dos telhados meio coxo porque foi atropelado e uma gata “scotish fold”, Olívia, adorável e muito meiga. Estou com curiosidade em ler o livro que já encomendei “O Velho e o Gato”- Uma História de amor, entre o autor sueco Nils Uddenberg, antigo professor universitário de Psiquiatria, e uma gata.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Um cão independente, assim, faz-nos falta a todos, Eugénia. Que bela e canina companhia teve durante quase uma eternidade.

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