A alegria do futebol

É um tipo baixo, redondinho. Está de costas para o campo adversário, quando recebe a bola. Veste camisola azul e calção preto e ainda está no seu meio campo, a dois metros da linha divisória e do grande círculo. Recebe a bola com o pé direito e roda para ficar com ela no pé esquerdo. Nesse subtil movimento de 180 graus já deixou dois adversários para trás, dois anjinhos de camisa e calção brancos, dois anjinhos ingleses. Galga vinte, mais de trinta metros e há outro homem que lhe vem fazer a cobertura, mas que um ligeiro desvio do pé esquerdo do homem de azul à bola tira logo do caminho. E já está à entrada da área inimiga. Os defesas ingleses estão em linha impecavelmente, como sempre os defesas ingleses estão, e um dos centrais vai ao homem. Mete o pé esquerdo, mas o seu pobre pé esquerdo – pé esquerdo de back – não se compara à subtileza e arte do pé esquerdo do homem de azul e negro que controla a bola. Com o mais macio dos toques, num milésimo de segundo, já o veloz fugitivo lhe dá um metro de avanço. O imparável homem baixo, redondo, de coxas cheias, está agora dentro da grande área. O defesa esquerdo, o outro central e o guarda-redes adversários fecham-se num garfo que o tenta crivar com três dentes. E ele, o homem tão gordinho como um jovem merceeiro, tão gordinho como um empregado de restaurante que se vê que gosta de comer sofregamente e bem, só com o pé esquerdo, sempre com o pé esquerdo, adorna a bola para a direita, evitando o guarda-redes, suporta a entrada do lateral esquerdo já atrasado e não deixa que o central sonhe sequer ser parte interessada. E a bola despede-se do pé esquerdo do homenzinho de azul e negro para ir beijar na boca as redes dessa baliza de um estádio mexicano. O homem gordinho tomba entre o eufórico e o esgotado nessa relva posta e regada para nela se sonharem os mais olímpicos dos sonhos.

Esta é a relva. E o slalom divino e o pé esquerdo de que tenho estado a falar são de Maradona. Juraria, aliás, que, depois dele ter recebido a bola, só o seu pé esquerdo conduziu, tocou, fintou, desviou e rematou o que eu julgo ser o mais belo golo de sempre da história do futebol. Descrevi-o e na minha descrição ele fintou, iludiu, ultrapassou, venceu gloriosamente seis adversários e é mentira, que eu bem sei que foram sete. Só que não há forma de as palavras puderem descrever a jogada e caber ainda o sétimo inglês tirado da fotografia – aquilo sim, foi um Brexit e god save the queen.

E agora vejam, Maradona já se levantou, corre e exulta ao longo da linha final. Vai direito à bandeirola vermelha espetada na marca de canto, à espera que cheguem  os companheiros para festejarem e levarem a inocente e pura alegria ao povo que está nas banca das. Há-de haver ali advogados e engenheiros, talvez operários e empregados de escritório, um doce casal burguês de Buenos Aires e dois amigos das Pampas, malta que dança tango. Há ricos e pobres e Maradona, a alegria gordinha e aos saltos de Maradona, une-os a todos.

E eu, ecuménico que sou, diria mais, a alegria, o prazer descarado quase obsceno de Maradona, une o estádio inteiro, os argentinos vencedores e os ingleses vencidos. Une-os o prazer do futebol.

Foi assim que eu aprendi a ver futebol. E não consigo gostar, zanga-me muito a maldade que tenho visto, ao longo de mais de uma década, fazer ao futebol. O rancor, o ressentimento, a sórdida teoria da conspiração, os cânticos de ódio, peço imensíssima desculpa, mas não vejo nisso um átomo de amor ao futebol.

Não me venham falar do escrutínio milimétrico da arbitragem. Grande parte do maravilhoso encanto do futebol vem também dos erros. Nesse mesmo jogo, Maradona marcou um golo com a mão – com a mão de Deus, ironizou ele, nesse tempo em que o futebol era superior e por isso se autorizava e deliciava com a ironia. Sem esse golo a mitologia do futebol seria mais pobre – abençoado árbitro que se enganou e deu ao mundo, durante semanas e semanas, a possibilidade de sorrirmos. O que esse golo e essa mão serviram de cerveja e conversa em pubs ingleses

A dimensão humana do futebol é o erro. O de arbitragem incluído. Mas é uma ilusão e um revisionismo histórico pensar que foi a arbitragem que fez o domínio do Sporting e dos cinco violinos na década de 50, que foi a arbitragem que fez o domínio do meu SLB e de Eusébio, Coluna e Simões durante os anos 60 e 70, ou que foi a arbitragem que fez a glória do FCP de Gomes, Madjer e Futre nos nos anos 80 e 90. Não foi. Essa glória vem direita dos pés desses jogadores que muito amaram o futebol vestissem-se de verde, vermelho ou azul.

E eu quero que se lixem as bancadas de honra muito compostinhas, com presidentes enfatuados e de rabinhos apertados a ver se não lhes entra um feijão no olho do cu. Eu sou do tempo em que, para comemorar os maravilhosos golos de Tardelli e Altobelli com que a Itália esmagou a Alemanha, um Presidente da República de Itália, il signor Sandro Pertini, dançou e pulou na bancada de honra, ao pé do rei de Espanha, e sem que o primeiro-ministro alemão, Helmut Schmidt, se abespinhasse. Sandro Pertini também tinha olho do cu e ria-se disso.

O que torna o futebol respeitável é a alegria, a pura alegria do jogo. O que nos derrota não é perdermos um jogo, nem perder um campeonato. O que nos derrota e o que derrota o futebol é a respeitabilidade hipócrita de presidentezecos e comentadorzecos, é o cântico de ódio, o very-light que mata, as cadeiras arrancadas e incendiadas, as estratégias dos presidentes de clubes que escolhem a confrontação de secretaria ou de região ou seja lá o que for como seu único princípio.

Peço muita desculpa, mas o jogo é o pé esquerdo de Maradona, um voo de Damas, o golo de calcanhar de Madjer, o iluminado segundo golo de Eusébio nos 5-1 ao Real de Madrid, o golo fantasma de Geoff Hurst que fez da Inglaterra campeã do mundo em 1966. O erro é, se quiserem, a Vénus da mitologia do futebol. Eu quero.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a A alegria do futebol

  1. Artur Hermenegildo diz:

    Só queira referir que, embora esteja de acordo contigo em muito do que escreves, o que se passou com o FCP em boa parte dos anos 80 e 90 não foram “erros de arbitragem”, mas um esquema de corrupção organizado pelo direcção desse clube e alguns árbitros em benefício do dito clube e em prejuízo dos outros, principalmente o Benfica, em troca de favores vários.

    É algo que não pode nem deve ser branqueado nem misturado com simples erros.

    Mas é de facto uma pena que agora não se fale de futebol e só se promovam polémicas inúteis e estúpidas, em grande parte alimentadas ou pelo menos amplificadas pelo triste “jornalismo desportivo” que temos.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Artur, o que for de justiça, a justiça que trate, claro. Mas o primado tem de ser do jogo, o resto é matar o jogo.

  2. EV diz:

    Que beleza de texto… é muito jogo bem amado – dá gosto ler!

  3. albertino.ferreira diz:

    Belo texto sim senhor, para quem gosta de futebol e não só,mas não podemos esquecer as “cartilhas”, os hinos “assassinos ” das claques, quer sejam dragões ou lampiões e os espectáculos degradantes do Lyon- Besiktas e Bastia-Lyon que estão a matar o futebol…além de outras máfias que corrompem jogadores e dirigentes sem escrúpulos, e que para aqui não são chamados porque já entram noutros domínios. Estaremos condenados a ver os jogos á porta fechada?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Repito, à justiça o que for de justiça, mas vamos dar o primado ao jogo. E saber vê-lo e saber apreciá-lo.

  4. João Manuel Esperança da Silva Barroca diz:

    Excelente texto, como sempre.
    Só quem ama o futebol pode escrever assim!

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