A tecnologia a que ajoelho e rezo

Estava, diletante, a discutir com um amigo meu o futuro do livro em papel , no qual ele muito acredita e eu creio mais do que creio num só Deus, Pai todo poderoso. Saíram-me meia dúzia de razões para justificar que, crendo, ajoelhando e rezando, é ainda assim preciso dar gás ao livro, libertá-lo como a um balão que sobe ao céu. recuperando esse lust, essa volupté, que fizeram do livro a poderosa tecnologia que é. Eis a minha profissão de fé. 

Este é, antes da folha de rosto, o ex-libris da Guerra e Paz

Em cada livro em que meto imagens (e meter é sempre bom), em cada livro em que mexo na mancha gráfica (e mexer é sempre bom), em cada livro em que desregulo o formato (e desregular é sempre tão bom), eu só estou a lembrar o que, ao longo de séculos (e já são séculos), se fez em incunábulos, em livros de horas, nos dourados com que se trabalharam as faces do miolo de livros de monges e de nobres, nas prodigiosas iluminuras. Um certo fundamentalismo foi retirando ao livro o seu lado de volúpia e luxúria. Que secura, que sequeiro, o de gerações minimalistas!

Eu quero que a escrita mergulhe, nade e nunca se afogue

Agora que o livro de papel mostrou ser a “mais bela das tecnologias”, a mais resiliente também, a tecnologia a que me ajoelho e e rezo, é preciso que, metendo, mexendo, desregulando, o livro e o papel se voltem a deixar levar pela pulsão orgíaca: o papel tudo pode e nem tenho bem a certeza de ter acertado numa certa consoante.

Não é só querer que o livro seja rijo, sou até e mesmo o editor deste, de pau feito

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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3 respostas a A tecnologia a que ajoelho e rezo

  1. Bernardo Vaz Pinto diz:

    Perante a polidez do ecrã temos saudades de quase tudo…ainda bem que não está, ainda (?), verdadeiramente em extinção …

  2. EV diz:

    Já me ri, Manuel Fonseca! Lindos, lindos livros!

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