Liceu Salvador Correia

Esta era a sala de professores do meu liceu, o Liceu Nacional Salvador Correia, em Luanda. Uma sala destas confere ao espírito um tumulto  de violinos. É uma sala belíssima, que chama ao professor, professor. O aluno que entra nesta sala de professores deixa-se seduzir pela grandeza e pela beleza e acredita e exige que o professor saiba e seja mestre.

Esta era a biblioteca do meu liceu, o Liceu Nacional Salvador Correia. Entrei aqui, pela primeira vez, num dia de Setembro de 1963 e só de lá saí em Junho de 1970. O livro mais proibido que me lembro de lá ter lido foi “O Crime do Padre Amaro”. E foi debaixo de uma destas mesas, a primeira a contar da esquerda, encostada à grande estante, que os joelhos das minhas pernas curtas encontraram os joelhos das pernas compridas da colega de turma, a mais improvável namorada, e que nunca o foi, que só me oferecia os joelhos e só me cedia meio flanco neste cenário de livros e azulejos, como se a metade do corpo que tínhamos debaixo das mesas, ganhasse uma alucinada vontade. Saída a porta, sem a acelerada oxigenação dos livros, nem um toque de mão, nem um sussurro. Eu sabia, ela tinha outro namorado.

Este era o meu liceu, o Liceu Nacional de Salvador Correia. É o mais belo liceu do mundo. Uma torre, o relógio e uma família de corvos. Um ginásio atrás e um gigantesco mapa-mundi virado para a Avenida Brito Godins. Tinha dois jacarés num dos pátios interiores, o da esquerda, cercado pelos claustros conventuais. Era grandioso e, à direita, que esta aguarela já não retrata, tinha barrocas meio selvagens. Era deslumbrante e no deslumbramento é que começam todos os sonhos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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10 respostas a Liceu Salvador Correia

  1. EV diz:

    Tinha outro namorado mas só dos joelhos para cima… Lindo, lindo Liceu!

  2. Cecília Sant'Ana Godinho Raposo de Magalhães diz:

    Foi também o “meu Liceu ” !!
    Saudades imensas deste Liceu e desta Luanda

  3. Maria Antonieta diz:

    Escrever é uma arte; quem escreve com alma, confere à arte da escrita, laivos de poesia…Que belo me pareceu o seu Liceu…

  4. Bea diz:

    Amores que só apanham a perna e o pé, são de andar. Mas duram, sem dano, na memória, está visto neste post. Desejo firmemente que os jacarés fossem embalsamados, retóricos, figuras de estilo, qualquer coisa menos bichos a sério e daqueles que a gente lembra quando ouve a palavra.

    • Os jacarés estavam vivíssimos. Tinham um tanque, mergulhavam e apareciam quando lhes dava na real gana. Uma rede protegia-nos deles e a protegia-os também de nós.

  5. A Vieira diz:

    De 53 a 1959,(6ºano) o meu liceu, as recordações da casa amarela e das areias da Ilha, da Samba, Belas.
    Em Julho 59, cai o pano colorido e entro no “cinzento e negro” do Portugal a negro e branco !

    Hoje, passados largos anos, já continental, são só recordações…….

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Só? recordações podem ser uma coisa inspiradora e muito produtiva. Nunca desanime.

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