Não conheço outra coisa

Nem uma pessoa consegue vir ao de cima…

Não conheço outra coisa

e não é que eu seja assim tão agarrada à vida, apenas não conheço outra coisa. E a morte dura que se farta – tenho tempo, não me atrai.

Mas há dois ou três dias, estava na esplanada a almoçar, a Primavera em forte, azul de postal, vistas de fazer inveja à Região de Turismo, tinha no prato umas belas bochechas de porco em vinho tinto com o arroz armado em pudim flan e um penacho de tomilho a nascer-lhe no meio, ao lado as batatas fritas congeladas – ficaram os dois intocados, claro, o flan com penacho de capacete oitocentista e as batatas – e eu a pensar: raio, porque não fazem umas migas de espargos a acompanhar as bochechas e se deixam de arroz em forma de pudim? Com tanta boa batata, que é lá isto?! Arroz e batata? Verde nada, olha-me o enfardanço…

Enquanto isto, o azul a enfiar-se-me pelos olhos adentro e eu já meio afogada, dou por mim cheia de desapego ao postal, às bochechas, lixe-se o arroz em formas e as fábricas de congelados, uma paz de corpo a boiar e zás, uma estranha em mim não sente nem pensa, de alto a baixo percebe, podia morrer sem espernear e sem remorsos e o que não escrevi, tivesse escrito. É irrelevante.

Foi aqui que vim ao de cima. O sentimento de me deixar ir partiu.

É irrelevante.

Tenho andado com esta irrelevância nos bolsos para todo o lado desde esse dia. Deito-me e levanto-me com ela. Talvez o relevo se obtenha só por continuidade. Assim como um visto biológico, um carimbo, toma lá, tens relevo quando tens dependentes. Qualquer bicho mamífero e saudável cuida das crias. É-se relevante quando se é amado. Preciso. Ou então, um relevo civilizacional, sei lá, olha, aquele ali descobriu a cura de um terror qualquer.

Sem equívocos, continuo a sonhar com templos de kung-fu, penso no Cão, vejo-o na minha imaginação livre da idade e da doença, a correr, enfim, se é inútil, despropositado, infantil, eu penso. Continuo a pasmar-me com a grandíssima maturidade de toda a gente e eu nada. Contudo sei, qualquer coisa se afogou ali, no postal, ao almoço quando a Primavera deu em forte no azul.

O tempo passa. Martelo as teclas. Aceito que é irrelevante. Uma maneira simpática de deslocar o verbo ser da primeira pessoa.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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8 respostas a Não conheço outra coisa

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Parece que agora já há tempo em cristais. Mas não deixe, por favor, de martelar as teclas.

    • EV diz:

      Nem mais… como no filme do Superman. E não deixo, não, que não sou de deixar. Merci.

  2. Os românticos alemães chamavam-lhe ‘Frühjahrsmüdigkeit’. Mas para português, este texto é mais fácil de ler.

  3. riVta diz:

    não percebi nada … lol

  4. A Vieira diz:

    Não compreendi, não “atinjo”……

    Devia dar-se por muito feliz pela “ração” que tinha na mesa…….ou gourmandise para si…

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