Os Livros Estão Loucos

Ao Miguel Cadete, António Saraiva e Vasco Ferreira,
que gostam de livros

Um livro pintado e louco

Não é só que me apeteça. Apetece-me e preciso de dizer o que vou dizer, para me aliviar do feliz e contente que estou. Venho falar a pais de miúdos, fedelhos, meninas e meninos de 8 a 14 anos. Bem sei que é raro eles lerem e bem sei que há um mundo sofisticado, moderníssimo, que os espera. Um mundo de gadgets e silicone e valleys, coisas e gente que, por mais estranho que vos pareça, eu admiro e estou mesmo pronto a lamber laudatoriamente. Porque essas coisas e o que essa gente faz é, a meu ver, muito bom. Um passo do mundo de vanguarda de hoje é do tamanho de mil passos do mundo onde cresci. E eu não tenho inveja, tenho gosto.

Um passo é do tamanho de mil passos

E, não obstante, como vos dirão neurobiólogos e outros afiambrados estudiosos, ler é uma inultrapassável forma de bem-estar e de aprendizagem. Mas parece que os miúdos não lêem: nem chantageados, nem  tangueados. E, não obstante, faz-lhes falta. Ler é uma forma fulgurante de conhecer, ler é uma forma arrebatadora de mergulhar em aventuras, uma forma esplendorosa de bater no nosso sangue a emoção que explode em sangue alheio.

E se pensam que vos venho vender alguma coisa, desenganem-se. Trago-vos só uma aproada alegria. Não imaginam a minha satisfação destes dois últimos dias. Criei, com a minha equipa da Guerra e Paz, uma nova colecção. Chama-se Os Livros Estão Loucos. É a adaptação (feita por nós, na Guerra e Paz) de grandes livros clássicos para miúdos, esses vossos filhos dos 8 aos 14 anos. Eu quis dar aos miúdos de hoje toda a gloriosa experiência que foram as minhas leituras de miúdo, de jovem e de adulto. Com a ajuda (e o entusiasmo e a inventividade, que felizmente em muito me ultrapassou) do Ilídio Vasco, meu designer gráfico, escrevemos e desenhámos uma versão vertiginosa do clássico Robinson Crusoé, de Daniel  Defoe. É para ler, é para ver, é para rir, é para pensar. Letras, palavras e imagens combinam-se de uma forma invulgar.

Não sei se vai resultar. Eu nunca me tinha metido em colecções ou livros juvenis. Mas a alegria destes dois dias, a resposta incrível que temos tido, já valeu a pena. Sei muito bem o que quis fazer: quero que esses miúdos irredutivelmente digitais (e que não me atrevo a desviar desse caminho, nem veria porque fazê-lo) possam ter uma experiência de leitura que os faça ter vontade de “acumular”. Quero-os emocionado com palavras, com as inesperadas rupturas que, afinal, a palavra linear também pode ter,

Linear? a palavra mergulha, a palavra nada, a palavra é mais do que a superfície

e quero-os de cabeça à roda com esse estranho objecto livro que, afinal, também pode rodar na mão como se roda um smartphone,

roda na mão ou rodapé?

Eu não disse, nem direi que é a mesma coisa. E ainda bem que não é a mesma coisa. Os Livros Estão Loucos, colecção de que Robinson Crusoé é o primeiro livro, Romeu e Julieta,de Shakespeare, é o segundo, e de que Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol, será o terceiro, quer convencer os miúdos de que existe uma coisa deliciosa, um imponderável algodão doce a que se chama literatura. E que essa coisa, essa tradição, lhes pode encher a vida de emoção, dando mais significado aos telemóveis e tablets e consolas que usam. Não é preciso trocar uma coisa pela outra. É para acumular, para ser mais rico.

a acumulação: uma página é uma página, outra página é outra página

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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