Os livros estão mortos?

Já contei que a minha relação com a edição de livros começou nos anos 80, na Cinemateca, com o João Bénard, que me pôs e aos meus colegas programadores como editores dos catálogos dos ciclos de cinema. Depois, nos tempos da SIC, criei, como hobby, uma editora, a Três Sinais e publiquei logo Jorge de Sena e Agustina.

Mas a verdade é que eu não sou um bicho da edição, nem sou um editor canónico. Não sou, se se quiser, “do meio”. Um “meio” onde, diga-se, sou capaz de destrinçar entre a mediocridade de uns poucos e a grandeza, a extraordinária generosidade de muitos – e deixem-me recordar e saudar o meu velho e saudoso Hermínio, a doçura em figura de gente que é o Manuel Rosa, essa admirável capitão de mar, guerra e liberdade que se chama José da Cruz Santos, pelo muito que me deram e pela originalidade de caminhos que escolheram.

Essa minha forma esquinada de ser editor faz com que me venham, de vez em quando, com a questão da “imagem” da Guerra e Paz. Há muitas formas de responder, umas mais marketeiras, outras mais apaixonadas, outras mais vernaculamente descontraídas. Mas não é que entrou por este ano dentro o mês de Abril e veio cheio de surpresas? A surpresa deu-ma, então, o mês de Abril, mas sobretudo a minha cada vez mais linda equipa editorial, a Inês Figueiras, o André Morgado e a Ana Salgado, que se conluiaram com o meu que já sabem Ilídio Vasco, designer, ou como diria um certo poeta, il miglior fabbro, e com o Américo Araújo, a Vânia Custódio, e com aquele back-office que dá segurança, o do José Cardoso e da Carla Castela.

Querem então saber qual é a “imagem” da Guerra e Paz? Olhem, é a que saiu que das mãos desta equipa e chega amanhã às vossas mãos se forem a uma livraria.

 

 

Vão lá encontrar dois romances clássicos, o “Moby-Dick”, de Herman Melville, traduzido homericamente pela Maria João Madeira, e “As Aventuras de Tom Sawyer”, de Mark Twain, que o Miguel Nogueira (“tás a ver Paulo, como é bom ter filhos assim?”) verteu para um trepidante português.

O que eu gosto de amor e morte! Assim, juntos como uma sanduíche intelectual. Um intrigante autor húngaro, Antal Szerb, escreveu, casando trágico-comicamente amor e morte num romance, “Viajante à Luz da Lua”, traduzido já com exclamações e protestos de admiração nas línguas mais civilizadas, mas só agora em português.

E numa edição limitadíssima (500 exemplares) e de luxo chega o livro que o grande editor José da Cruz Santos, amigo de Saramago, Vasco Graça-Moura e do pintor Rogério Ribeiro, deixou que fosse eu a fazer. É este, o “Ensaio sobre a Cegueira”, de José Saramago, com prefácio inédito do Vasco e 10 ilustrações de Rogério Ribeiro feitas expressamente para esta edição.

 

Que Abril é o mais cruel dos meses já o dizia o tal poeta; o que ele não disse é pode também ser apocalíptico. E foi. Num só livro fomos à guerra e juntámos, que não há cá paz para malucos, dois Apocalipses, o de São João e o de D.H. Lawrence Com eles fizemos o mais volumoso Livro Amarelo da colecção que começou o ano passado. O meu autor Helder Guégués fez a competente justificação da inclusão e aproximação destas duas obras que são agora só uma.

 

Qual é, afinal, a “imagem” da Guerra e Paz? Uma imagem de ponta ou uma imagem do meio. Dizem que os livros em papel estão mortos – foi o que li, há dias, no Público! E o que eu digo é que os livros estão loucos – conversa a que voltarei, talvez, amanhã. É que só ficando loucos é que podem escapar à morte que dão por tão certa.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a Os livros estão mortos?

  1. albertino.ferreira diz:

    Os livros não estão mortos, não senhor, basta ver as últimas edições da “Guerra e Paz”, mas deixe-me citar uma reflexão de Stefan Zweig no final da vida, sobre os livros :” Eles estão lá, os livros, esperam em silêncio por nós. Não nos pressionam, não impõem nenhuma exigência. Estão mudos, alinhados ao longo das estantes. Se os olharmos ou passarmos a mão acariciando-os, não nos responderão ou exigirão nenhuma súplica… Esperam pacientemente até que alguém esteja interessado neles, então consentem que sejam consultados. É preciso, no entanto, que á nossa volta reine a calma, a paz, o sossego; em seguida estamos prontos para os acolher. Escolhemos um: delicadamente ele apoia-se nas nossas mãos. Á medida que mergulhamos neles, experimentamos uma sensação de acalmia e de contemplação, bem-estar, um palpitar sereno no coração da sua melodia, num mundo irreal, situado muito para além deste mundo cheio de frivolidades.”

  2. Bea diz:

    E que os livros não morram; não morram nunca. E, se empreenderem na morte, que seja. Mas seja depois de se ir o último homem. E já a sua eternidade não sofre beliscadura.

  3. Fernando Vale diz:

    Excelente ideia, num exercício de memória selectiva esta malta irá lembrar-se deles, destes livros!

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