Poetas e gente dessa

Ainda há pouco, na Revista do Expresso, no Fraco Consolo, de Pedro Mexia, li Poetas. Claro que sorri logo com o oposto do oposto do oposto…

Why, oh why, didn’t I take the blue pill?

Não conheço Pedro Mexia. Não conheço um único poeta vivo. Dos meus poetas mortos, também não conheci um que fosse – chateou-me a sério, fiquei triste, por não ter conhecido Ramos Rosa, Manuel António Pina, Ruy Belo, Herberto Helder… Não conheço Lobo Antunes, e só conversei com Agustina num longo sonho de fazer inveja ao Matrix depois do comprimido tomado – nem o cadeirão de orelhas assente em efémero branco me faltou ao sonho: tinha eu dezanove anos e foi tão real aquela ficção que até hoje a tomo por verdadeira e juro por ela. Também sonhei um poema com uma enorme pintura de Paula Rego, e escrevi-o, detalhei bem aquela bonecada toda, acho que lhe chamei O Guardador de Patos e foi um momento de absoluta lucidez – horrível como só a verdade sabe ser.

No início da minha adolescência, a Biblioteca Municipal e a da Gulbenkian funcionavam num claustro que também cumpria funções de Museu. Ia no Verão. À torreira do calor, quando o sol a pique lambe até o ângulo recto das casas nos passeios e não há a sombra de uma sombra. Nem todos os livros se podiam levar para casa e uma pessoa tinha de ler de empreitada e copiar os poemas ainda com a letra redondinha da infância que não se despega nunca, nem quando a caligrafia se faz de electrocardiograma e já somos crescidos. Por mim, comprava aqueles livros e mais sei lá quantos, de certezinha todos, um exemplar de cada, de tudo quanto houvesse sobre a terra, para fazer uma habitável biblioteca infinita onde casa e rua e praia fossem o mesmo caminho de estantes, a pé ou de bicicleta. Eu sabia lá que Eugénio de Andrade estava no Porto? Sabia era que os meus catorze anos queriam vê-lo de carne e osso como os meus quinze queriam conversar com David Mourão Ferreira que descobri por acidente num livro de António Ferro, e os meus dezoito todos os dias juravam a si mesmos, os mentirosos, que amanhã sem falta iriam ter com Yvette Centeno, de Musaeum Hermeticum e cinco mil dúvidas debaixo do braço.

E havia a questão dos maridos. Os meus maridos. Os mortos eram uma poligamia às claras encabeçada por Eça. O pior foi o dia em que vi, não um, mas dois dos meus maridos na Feira do Livro, já em Lisboa. Vivíssimos. A dar à caneta. Uma roda de gente, mais que à volta da banca do peixe, na praça, ao fim-de-semana. Azar do caraças, Vasco Graça Moura estava de um lado e Lobo Antunes do outro e eu, de adultério e poligamia ao léu, com medo de ser apanhada no meio da sanduíche, ou desgraça maior ainda, de lhes falar e ficar com cara de dois de paus, como está? é um gosto conhecê-lo, olhe, li tudo o que apanhei daquilo que escreveu,  o tempo parece que está a querer mudar, não é? zás, fugi logo – sempre fui especialista em fugir daquilo que desejo. E olhar sem tocar também é outra grande especialidade minha. Aliás, foi assim que percebi o gótico no primeiro ano da faculdade. Punha-me a olhar, de olhos postos lá em cima, o edifício de gaveto onde ficava o velho Expresso, e onde passava todos os dias, e com o mesmíssimo olhar, a fila das Colóquio de Letras, as mil horas na Buchholz. Território sagrado, divinas alturas, que gente seria aquela? Eu aos dezassete anos só queria aprender a ser isso, assim por osmose ou milagre, tanto fazia.

Não conheço Pedro Mexia, nem poetas nem escritores, nem críticos literários, nem pintores. Não conheço gente dessa. Quero dizer, conheço. Bem. Até o avesso lhes conheço, virei-os e revirei-os letra a letra. Também gosto de me lembrar deles. Também gosto de lhes agradecer.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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14 respostas a Poetas e gente dessa

  1. albertino.ferreira diz:

    Leio com interesse as crónicas do Mexia, mas nem sempre concordo com ele. Desses poetas que citou o meu favorito é o Herberto. O seu poema “As Musas Cegas V” acompanha-me sempre. Não me canso de o recitar para mim: “Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira/e a eternidade das mãos.”Etc. A Ivette Centeno tem um blogue que com certeza conhece “Literatura e Arte” que é um dos meus favoritos.

  2. Ana castro fernandes diz:

    Gosto mesmo de ler o que escreve, sejo poesia, prosa, gosto mesmo! cumprimentos

  3. Maria Antonieta diz:

    Afinal, conhece ou não conhece, gente dessa?…

    • EV diz:

      As duas são verdadeiras: conheço-lhes a obra, mas a eles desconheço-lhes até a biografia.

  4. Bea diz:

    Sabe o que eu acho Eugénia? Que conhecê-los só é preciso e faz falta nas letras. Que no mais são capazes de ser muito semelhantes a nós e sem interesse de maior (para conhecer gente igual a mim é mais económico e fácil olhar em volta, está mais à mão). Bom, mas somos humanos, gostamos de um autógrafo ou outro num livro, e fazemos reverência à pouca esferográfica que ali passou maquinal em palavras sempre repetidas. Coisas.

  5. Pedro Bidarra diz:

    Eu também não quero, nunca quis, conhecer nenhum escritor ou poeta. Nem biografias leio. Só lhes leio a obra que publicam. Escrever é uma trabalheira. Penso sempre que é criar os raciocínios, os pensamentos, as histórias que não somos capazes de pensar, raciocinar, viver. E por isso dá trabalho. procurar e encadear palavras que não fomos capazes de produzir espontaneamente. Por isso dá trabalho. E no fim, quando sai bem, parecem que não são nossas. Porque não são. E por isso, de carne e osso, não somos aquele que as escreveu. E por isso é melhor não os conhecer. Nem ouvir-lhes a voz, porque a voz que ouvimos quando os lemos, é sempre uma voz melhor que a deles.
    Como a voz que oiço quando te leio.

    • EV diz:

      Sempre fugi disso como o diabo da cruz… É um medo que as pessoas encolham, não é?

      Ps: e tanto que eu gostava de ter assim uma voz grave, profunda e tal… qual o quê!

  6. ana marchand diz:

    Eugénia a sua escrita é magnifica e o que colhemos nas palavras é muitas vezes muito mais do que o que encontramos no encontro. E voçê pertemce ao clube dos in-visiveis que eu prezo. Sabem que o seu melhor está dado…o resto é convers. Mais uma vez obrigad.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei de tudo, mas muitíssimo desta sua bela frase: “Azar do caraças, Vasco Graça Moura estava de um lado e Lobo Antunes do outro e eu, de adultério e poligamia ao léu, com medo de ser apanhada no meio da sanduíche, ou desgraça maior ainda, de lhes falar e ficar com cara de dois de paus”
    Que sanduíche mais gourmet!

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