A biblioteca sentimental

A minha biblioteca nasceu no dia em que o meu pai me ofereceu a estante que está nesta fotografia (aqui no seu escritório em casa). O fascínio que esta imagem exerce sobre mim é ver o meu pai (em pose barthesiana), quando ele ainda não me conhecia e saber como era a minha estante antes de ser minha. Ela tinha (e tem) linhas minimais e design de inspiração nórdica e as duas prateleiras superiores obedeciam às medidas certas para albergar toda a colecção dos 100 pequenos volumes da RTP de então, com capas de Sebastião Rodrigues. Isto veio a dar-me problemas de logística, mas deixo isso para umas linhas mais à frente. Foi nesta estante que comecei a juntar os meus primeiros Kafka, Camus, Barthes, Eco, Borges, Virgínia Woolf, Mishima, Vergílio Ferreira, Kundera, Nietzsche e Lawrence Durrell. Depois, os livros foram-se multiplicando e chamaram outras estantes. Hoje, a minha biblioteca é um pequeno bairro constituído por 14 prédios (leia-se estantes) de diferentes tamanhos e tipologias.

Quem tem uma biblioteca sabe como ela nunca está quieta. Parece um animal com vontade própria e pede um dono que a domestique. Claro que a minha biblioteca segue as categorias básicas: cinema, poesia, filosofia, fotografia, teoria da literatura, publicidade, escrita criativa, arte – mas esse critério sempre me pareceu demasiado rígido. Por isso, escolhi um padrão secreto para orientar as minhas mãos nas estantes: as razões sentimentais. É verdade. A minha biblioteca é organizada por sentimentos – o afecto que os autores estabeleceram entre si, as suas paixões comuns e o gosto que eu tenho especialmente por alguns deles. Fui desenhando, de forma cada vez mais consciente, um GPS imaginário, em que as ruas do mapa são as veias de um coração (o meu) e que se tem revelado um informador preciso (e precioso) sobre o posicionamento de livros e autores. Brinco aos deuses e junto nas estantes aquilo que a vida separou e faço uma espécie de justiça com as próprias mãos. Querem alguns exemplos? Fernando Pessoa está ao lado da sua alma par, Mário de Sá-Carneiro, o amigo que a falar amava. E Borges (como se tivesse o dom da ubiquidade, vive em três estantes diferentes) está ao lado do seu amigo Adolfo Bioy Casares numa delas e noutra convive com Alberto Manguel, como no tempo em que o jovem Manguel lia em voz alta para ele. Insisto no triângulo amoroso Lou Andreas-Salomé, Nietzsche e Rilke e Sylvia Plath e Ted Hughes continuam juntos, como quando eram marido e mulher e ela ainda não tinha colocado a cabeça dentro do fogão com gás. José Gil vive no mesmo andar do seu professor e amigo Gilles Deleuze e não resisti a colocar Sartre e Camus juntos, como antes de se terem zangado por causa do artigo na revista Les Temps Modernes, contra O Homem Revoltado. Ainda não perdi a esperança de que façam as pazes. E ao lado de Sartre não podia faltar o Castor, como ele chamava a Simone de Beauvoir, outrora une jeune fille rangée. É um andar existencialista, está visto. Noutra estante, o agressivo Ernest Hemingway e o delicado Scott Fitzgerald têm Graham Greene de olho neles, para moderar as discussões entre estes amigos tão diferentes, quase sempre provocadas pelo primeiro. As duas Marguerites, apesar de habitarem mundos diferentes, podem pedir algo emprestado (ovos, sal, farinha ou livros) à vizinha do lado em francês. Longe dos ouvidos delas, Charles Bukowski e Henry Miller falam sobre mulheres e sexo.

No meio de tantos afectos, tenho também o gosto perverso de juntar personalidades que entraram em choque ou que nunca se entenderam. Imagino Heidegger com vontade discutir o Ser e o Tempo em alemão e Wittgenstein a aconselhar-lhe o silêncio, com a sua desarmante e derradeira frase do Tractatus. E noutra estante, José Saramago e António Lobo Antunes podem escolher se querem continuar de costas viradas ou trocar literárias palavras.

O limite para estas combinações de grande sentimento e boa vizinhança é o formato das estantes, sobretudo a altura das prateleiras (ou deverei dizer pé direito?). Os livros de fotografia, como os de Duane Michaels, Cindy Sherman e Francesca Woodman estão quase sempre deitados, devido ao seu grande formato. Lembram aquelas pessoas que passam o dia na cama ou os gigantes das histórias infantis, que nunca cabem dentro de casa. Ao contrário dos livros de fotografia, nessa espécie de águas furtadas que são as prateleiras outrora ocupadas pela colecção RTP, o requisito é ser-se pequeno, quase anão. Os livros da &etc, a colecção Livros B da Estampa e os Livros Unibolso moram aqui, entre exemplares da Europa-América e grande parte da colecção Gato Maltês da Assírio & Alvim. Os centímetros de madeira conseguem ter argumentos convincentes.

Felizmente, há livros que não me importo de não ter à mão. Mandei Aristóteles para a prateleira mais alta. Está ao pé de São Tomás de Aquino, Hegel e Karl Popper. Lembram aqueles moradores que gostam do último andar do prédio por causa da vista. Eu sou grande adepta do 2ª andar. Parece-me a melhor distância a que estar do chão. Talvez por isso, os desesperados Kierkegaard, Schoppenhauer e Nietzsche também morem num 2º andar. Se tentassem o suicídio por causa das dores do mundo ou dos suplícios da alma, as hipóteses de sobreviverem eram muitas. Grandes apreciadores de primeiros andares, quem sabe por serem acometidos de vertigens frequentes, são os dicionários: de etimologia, de símbolos, de francês, de calão, de estrangeirismos, do futuro, de alemão, de sinónimos, de provérbios, das cores, das superstições, dos nomes. Não esquecer o Dictionnaire de la Bêtise, com um burro na capa, de que o Manuel S. Fonseca também tem um exemplar na biblioteca dele.  Numa das estantes de ficção, as mulheres mandam: Katherine Mansfield e Virgínia Wolf espreitam as vizinhas do andar de baixo, que são precisamente Clarice Lispector e Lydia Davis. Só a Senhora Lispector tem tantas palavras para mobilar o seu espaço que se cada livro precisasse de uma divisão, necessitaria de um T13 para viver. Noutra estante, algumas mulheres juntaram-se para esotéricos pensamentos: Cristina Campos, Etty Hillsman e Simone Weil. Achei que Maria Filomena Molder ia gostar da vizinhança e parece que acertei. Nunca mais daqui saiu, excepto para visitar as mesas ou o sofá. E ainda por cima, tem como vizinho de cima o seu querido Benjamin. Walter Benjamin, sim, mas também Giorgio Agamben, Jean Baudrillard e George Steiner, com o intrometido Zizek a meter-se entre eles. Se eles espreitarem à janela, na estante em frente podem ver Jim Morrison a beber um copo (sempre o último) com Tom Waits, que repete incansavelmente: the piano has been drinking, not me. São coisas que só acontecem no reino do lagarto.

Também há uma estante que é a dos livros que gosto de consultar. Neste verdadeiro pot-pourri de vozes, encontram-se Borges (pela terceira vez) Agustina, Thomas Bernhard, Henri Michaux, Pascal Quinard, Cioran, Pitigrilli, Marshall Mc Luhan, Antonioni, Italo Calvino e José Rodrigues Miguéis, todos eles prontos a despertar do seu sonâmbulo sono. Dos escritores actuais, juntei na mesma estante Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, Pedro Mexia e José Mário Silva, como se estivessem na apresentação de um livro ou num debate literário. E claro que reuni os autores do EÉT: Pedro Bidarra, Eugénia de Vasconcellos e Pedro Marta Santos (infelizmente, não tenho os livros de Pessoa com as fotografias do Pedro Norton). Une-os a editora Guerra & Paz, mas também este blogue. Digo-lhes baixinho: façam de conta que estão num jantar dos Tristes.

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

5 respostas a A biblioteca sentimental

  1. albertino.ferreira diz:

    Muito interessante post sobre a sua biblioteca. Lembra-me um livro que li “Bibliotecas Cheias de Fantasmas” de Jacques Bonnet, com tradução do José Mário Silva, salvo erro. Ainda não li “A Biblioteca à Noite” do Alberto Manguel mas fica para breve. A minha está dispersa por 3 locais (Beira Alta, Ribatejo e Lisboa) e não está organizada como a sua e não tenho mais espaço para livros, de tal forma tenho de ser criterioso quando penso adquirir mais um. O último foi “A Felicidade dos Tristes” de Luc Dietrich, ed. da Matéria Solar. Este é magrinho e cabe em qualquer recanto, mas a “camiliana” organizada por José Viale Moutinho, são 4 tijolos de 700 páginas que não sei onde caberão… A Anabela Mota Ribeiro estreia esta semana, dia 12 na Antena 1, um programa de entrevistas sobre a felicidade (dos tristes ou não digo eu). Não era o Tom Jobim que cantava “Tristeza não tem fim, felicidade sim…” Então…viva a melancolia, a saudade, ” Le temps des cerises”.

  2. Creatur diz:

    gostei desta versão de biblioteca.E eu que não sou citadina não me importava de pertencer a este bairro. Acrescentava-lhe um t3 com a Yoursenar, a Elsa Morante e a Elena Ferrante. Num canto do parque punha-lhe bem perto do metro para o aeroporto um hotel para viajantes…com o Paul Theroux, o Melville e Bruce Chatwin. Eu moraria aí. E tentaria seguir o dito de Einstein :
    «chegado a determinado ponto da vida é preciso acabar de ler o livro dos outros e escrever o nosso próprio»

  3. Bea diz:

    Que biblioteca extraordinária. As minhas duas ou três estantes ordenadas desordenadamente ficaram até de mal comigo ao lerem este post. Agora tenho de ir ali ameigá-las, dizer que cada um sabe de si e nem é muito o saber, e que me dá gozo vê-las assim pessoalmente desorganizadas. E o mais que me lembre para ver se não atiram com os meus livrinhos ao chão. Que isso é que não senhor, não se faz.

  4. riVta diz:

    querida Maria João que belo “post”. No meu gaveto também há livros que casam entre si.

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Os Livros B foram a minha descoberta não-cultural. Lia-os como quem se enfrasca, por puro gáudio, na longa noite do século passado. Uma pequena droga, a que chamava Livros. B, está claro. E o teu post é A,

SEJA TRISTE, COMENTE