O silêncio de Francisco

Foi há pouco mais de uma hora, no pletórico centro dos telejornais. Francisco desceu do papa-móvel e caminhou em festa pela avenida central em direcção à capelinha das delirantes e deliciosas Visões. As televisões, como é da sua obrigação e natureza, deliravam e deliciavam-se: toques de mão, lenços a acenar, olhos a que uma, duas lágrimas purificavam.

O já velho Papa – foram sempre velhos os Papas do meu tempo, com excepção do impopular Paulo VI – chegou cansado ao altar onde está a imagem de Maria. Tocou na base da imagem sacra, mão aberta, coração atento. E sentou-se. Recolheu-se. Uma voz altifalante pediu aos milhares e milhares de peregrinos, a essa multidão humana, diversa, que se recolhesse também. Como uma brisa sobreaquecida, o silêncio dilatou-se e cresceu, excepcional, pelo Santuário de Fátima.

Foi um silêncio humano, um desses silêncios de que nem Deus, nem a Natureza conhecem o segredo. Só nós, os humanos, em momento de temor ou tremor, de perplexa alegria, ou de incendiada fé, somos capazes de um silêncio deste espantado tamanho.

Nenhuma das nossas três televisões soube o que fazer com esse clamoroso silêncio, tão humano, tão divino. Era preciso calar o silêncio, aniquilar essas sublimes chamas silentes, mudos Espíritos Santos, que saíam da boca de milhares e milhares de pessoas. Os comentadores, padres ou leigos, desunhavam-se a falar. Atropelavam uma palavra com outra histérica palavra para que os telespectadores não ouvissem o silêncio.

A televisão, hoje, às 21:00, em pleno telejornal, não soube o que fazer com o silêncio de um homem sentado frente à modesta escultura de uma figura de mulher, não soube o que fazer com o silêncio do que, por serem muitas mulheres e muitas homens juntos, chamamos povo. A televisão não soube o que fazer com o silêncio dessa estranha coisa – que eu há tanto anos esqueci – a que se chama oração.  E, não obstante – o mesmo eppure que a outro Papa ou a mandatários dele disse Galileu – esse silêncio, como um grito, abria buracos no matraquear aflito, preenchitivo, dos comentadores e uns eram leigos, outro eram padres. Falavam e era uma ininteligível Babel.  A voz de Deus, se houvesse ou viesse haver uma voz de Deus, calava-se no silêncio de um homem de branco, na ajoelhada voz de centenas de milhares de seres humanos vestidos de todas as cores.

Eu queria ter ouvido o inteiro silêncio, cheio de graça, do Santuário de Fátima.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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9 respostas a O silêncio de Francisco

  1. Maria Silva diz:

    Por ossos de oficio também eu estive em frente à televisão nesse momento. Foi tão insuportável essa negação do silêncio que não consegui e tirei o pio ao orelhas

  2. Luisa Gonçalves diz:

    Eu também gostaria de ter tido esse silêncio.

  3. Bea diz:

    Eu também. E queria que os padres portugueses – ou não – que rodeiam o papa não parecessem aves de rapina despidas de qualquer fé face à humildade da oração do crente. A foto é, na verdade, muito elucidativa.
    As televisões são o hábito do som, muitas vezes, do ruído. Não entendem que haja silêncios cheios de si mesmos. Repletos. Que repelem a palavra como o azeite o vinagre. E é este fenómeno um bocado triste.

  4. EV diz:

    Foi constrangedor ouvir aquela malta a encher chouriços, padres incluídos, e Fátima em silêncio. Mudei de canal, da rtp para a sic e para a tvi – tudo a mesma escola. Depois tirei o som.

  5. Claravasconcellosmarques diz:

    Foi o momento mais impressionante Sua Santidade a rezar e os Portugueses todos em silêncio. Não ouvi nenhum comentador tirei o som em todos os canais, eu estava a rezar.

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