Em Paris, a acanalhar

Se hoje fosse a Paris e tivesse de escrever sobre um lugar será que ainda escolheria, como escolhi, há 38 anos, um bar mauvais genre, estando-me-nas-tintas para o fulgor e fausto da novíssima ópera acabada de estrear?
No velho Semanário foi assim, em Março de 1989, e com o singelo título “Locais” que contei o que era andar à noite para os lados da Bastilha. No dia seguinte ia entrevistar Dominique Sanda.

Locais
Manuel S. Fonseca

Há muitos anos o 14 juillet também era uma festa no Balajo. Mas a pompa e circunstância burguesas do Bicentenário não comoveram ninguém na velha discoteca da Rue du Lappe. Apesar de ser pertíssimo da Bastilha, os frequentadores continuaram canalhas e o cenário cor-de-rosa.

É a dois passos da nova ópera. Desce-se a Rue du Lappe, apertada como uma travessa do Bairro Alto. Quase a meio, o néon dança rock entre as estrelas. Entra-se — consumo obrigatório, gravata e casaco exigíveis — e começa a viver-se perigosamente. Regra número um: nunca ninguém se olha nos olhos.

O Balajo não se chamou sempre assim nem teve sempre este ar mauvais genre. Foi fundado em 1936 por um auvergnois — na boa tradição de muitos restaurantes de Paris — e chamava-se Petit Bal Vernet. Ninguém sabe por que portas e com que voltas se chegou ao nome actual. Hipótese duvidosa, talvez o nome tenha que ver com a aquisição do local por Jo France e com a popularidade que le bal à Jo passou então a ter. Com efeito, Jo alargou a sala, dando-lhe a sua actual dimensão e, para decorar o interior, convidou Jean Mahet, criador do cenário do Moulin Rouge tal como hoje existe e também do cinema Grand Rex, ambos monumentos classificados.

Jean Mahet, ao fundo da sala, a querer quase romper o tecto, traçou uma skyline que tanto pode ser Paris vista de Montmartre (talvez do Sacré Coeur), como um pastiche amável do cenário de um musical de Busby Berkeley. Nas paredes laterais, Mahet rasgou vitrinas, perdendo os pruridos cosmopolitas e abrindo lugar a intimidades propiciatórias: são três grandes «janelas» de iluminação indiscreta expondo, de azul a rosa, a lingerie que Michèle Morgan poderia ter usado em Quais des Brumes. Na parede em frente, Mahet cedeu e, baixando a decoração para o nível do olhar humano, abandonou a estilização ou a alusão insidiosa: dois mitos, Bogart e Bardot, têm direito a citação explícita.

Muito mais do que a nova ópera, o Balajo é — ainda é — o símbolo do quartier de la Bastille. Dizer Balajo era o mesmo que dizer Bastille ou o mesmo que dizer Rue du Lappe. Jean Gabin vinha aqui ouvir acordeonistas espontâneos, como em Lisboa já se ouviu fado vadio. Rita Hayworth dançou ao som de «Mon legionnaire». Só Robert Mitchum não chegou à sala de baile: parou no balcão e perdeu-se (de «Mimi peau de chien» a «Avec son tra la la») a ler os títulos de canções rabiscados no espelho do bar de entrada.

Hoje, o patrão — má cara e pouco fiável — é um antigo lutador de catch as catch can. Criou dias especiais. Às sextas e sábados, o «disco» prova que os anos 70 já passam por «retro». Às quintas é a noite branché: os meninos bem vêm acanalhar-se procurando criar para a posteridade a lenda de uma escolaridade turbulenta.

Fermé le mardi.

p.s. – Não me arrependo de ter escolhido o Balajo. Voltou a estar na moda, cheio de uma dinâmica excitada, como se pode ver nesta reportagem da televisão francesa, que não desmente o que há 38 anos eu consegui sacar ao pessoal rijo dos anos 80. E já não fecha às terças – agora, santo Deus, é ao domingo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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Uma resposta a Em Paris, a acanalhar

  1. EV diz:

    Já viu onde a simples caneta o levou?

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