Então?

Foto EV Douro Junho 2017

– O que vês nesta imagem?
– Na fotografia?
– Sim.
– Queres que te responda por alguma ordem?
– Não. Diz-me só o que vês nesta foto.
– Mas … não podia ser outra?
– Outra como?
– Se não podia ser outra imagem?
– Podia. Mas não é outra. É esta.
– Ah!
– Ah! o quê?
– Nada. Já percebi.
– Então?
– Então queres que te diga o que vejo nesta fotografia?
– Mau.
– Não te zangues.
– Não me vou zangar. Só gostava que me dissesses, sem ordem específica, o que vÊs nesta imagem.

Silêncio

– Foste tu que tiraste?
– Não.
– Ah!
– Mas vê lá. Se não queres dizer … não digas.
– Não. Não é nada disso.
– Então?
– Queres que diga o que sinto ou o que vejo?
– Mau. Mas eu pedi-te para me dizeres o que sentes?
– Não.
– Então não quero saber o que sentes, não é?

Silêncio

– Pois. Mas se não queres saber o que sinto, para que queres saber o que vejo?
– Mau … mau … mau … mau … mau.
– Então? Não nos vamos chatear por causa da porcaria de uma foto, pois não?
– Não sei.
– Não sabes?
– Não. És assim em tudo.
– Assim como?
– Bom. Olha. Vou eu dizer-te o que vejo nesta imagem. Está bem?
– Não!

Silêncio

– Não?
– Não. Eu digo-te o que vejo na tua imagem.
– Não é minha, já te disse.
– Está bem. É uma maneira de falar.
– Então?

Silêncio

– … não vejo pessoas!

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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8 respostas a Então?

  1. Bea diz:

    Está um bom diálogo para ser lido, diverte. E muito aborrecido para ser falado. Desapetece a quem está dentro dele.

  2. Creatur diz:

    e então?

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    – Eu não.
    – Tu não o quê?
    – Eu cá não-não vejo pessoas!
    – Engraçadinho. Então o que é que não-não vês?
    – …Sombras!

  4. teresaconceicao diz:

    Ahahah. Rita, até parece inventado! Que bem escrito. É preciso ver que o sol, que também não-não se vê, estava a pique.
    Essas coisas cegam. 🙂

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