estás a olhar o quê? nunca viste?

 

 

Estava a olhar para o cinema e para a literatura e o cinema e a literatura a olharem para mim já meios virados, como as miúdas da Vila Alice, em Luanda, quando eu era miúdo – “o que é que foi?  estás a olhar o quê? nunca viste?”  

Não, nunca tinha visto. Lembrei-me duma coisa que o Norman Mailer disse do J. D. Salinger e que não posso dizer agora porque acabei de usar a frase numa crónica que há-de sair no Expresso no dia 15 de Julho. Mas posso roubar-lhe a ideia e virá-la ao contrário: o cinema é uma aventurosa arte de liceu. Ou seja, o cinema nunca saiu do liceu. Ficou lá, juvenil, cheio de aventura, com um lindo lirismo ingénuo.

Faz uma grande diferença. A literatura, que já tem outro caparro, séculos de sarro subversivo e subtexto, com tantas sílfides como hipérboles, a literatura é hercúlea quanto baste para aguentar a universidade e não se ir abaixo de desgosto.

O cinema não. Se lhe cai a universidade em cima – essa universidade que já nasceu caturra, de casaca e seminário, de monóculo work in progress – se lhe cai em cima o Deleuze ou os primos, hermenêutica e semiótica, o cinema torna-se logo uma merda execrável.

O mais bonito do cinema é ser à frente liceu e nunca atrás museu. É por isso que o mais belo livro de sempre do cinema é essa conversa de um falso e anafado mestre com um aluno que, de tanto chumbar, nunca há-de sair do liceu. O gordo Hitchcok, o “fugueiro”* Truffaut

*Fugueiro – Termo usado em Luanda, no liceu Salvador Correia: o que “fuga”, o que falta às aulas.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a estás a olhar o quê? nunca viste?

  1. EV diz:

    Já me ri Manuel Fonseca! O bom de estar ao pc num domingo à noite é isto: ver brincar caparro com sarro e o liceu a rir do museu… Subversivo sei eu quem é.

  2. Bea diz:

    Tão bonito e verdadeiro. Literatura e cinema são isso mesmo, se postos ao dispor da universidade.

  3. Luis Eme diz:

    É isso mesmo, Manuel, o cinema ganha em rebeldia e perde em “cabelos brancos”, tanto para a literatura como para o teatro…

  4. nanovp diz:

    E que nunca perca esse sentido…grande documentário, by the way….

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