O fogo

 

 

Nada nos prepara para a tragédia, para a horrível morte, que o fogo – sempre sobrenatural, inclemente e imparável – causa. Não há consolo para a indiferente fúria com que tudo consome. Podemos apenas lembrar que o cantou o épico Homero, na Ilíada, nestes versos que Frederico Lourenço pôs na língua portuguesa em que agora amaldiçoamos as chamas, e o que nelas julgamos ser maldade e traição.

Assim disse; e Hefesto ateou seu fogo sobrenatural.
Primeiro surgiu o fogo na planície e queimou os mortos
numerosos que ali jaziam, chacinados por Aquiles.
Toda a planície ficou ressequida; a bela água, impelida.
Tal como quando na época da ceifa o Bóreas seca
um pomar há pouco irrigado e alegra-se o cavador –
assim ficou seca toda a planície e os mortos foram
queimados. Mas depois virou a chama brilhante contra o rio.
Arderam os ulmeiros e os choupos e os tamarindos;
Arderam o lódão e os juncais e a junça, que crescia
com abundância à volta das belas correntes do rio.

“Be fire with fire” foi a frase que Shakespeare pôs na boca de um bastardo. Poderemos, como ele parece dizer-nos, aprender a ser fogo com o fogo? E tempestade com a tempestade, raio com o raio, trovão com o trovão? Morte com a morte?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a O fogo

  1. Bea diz:

    Não podemos nem sabemos. Podemos, isso sim, lamentar de coração todos os que foram agarrados para sempre por ele. O fogo que aquece e tanto nos ajuda é domável. Aquele é selvajaria da natureza. Ficamos esmagados com tanto sofrimento. Pequenos, pequenos. É morte bárbara.

  2. xico diz:

    A Natureza é por definição selvagem. Barbarismo é próprio dos povos que não se deixam civilizar. Como o nosso Povo que é avesso a toda e qualquer regulamentação tornando os seus líderes avessos a saber regulamentar e fazer cumprir com a sabedoria dos civilizados.

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