O monstro da lagoa azul

Foi assim por acaso, como tantas coisas por acaso: andava à procura de outas fotografias e deparei-me com esta que foi parar àquela pasta por engano. As minhas amigas pequeninas na Lagoa Azul.

Naquela tarde tinha-as levado em expedição científica para a Serra de Sintra. Instrumentos de registo: blocos e lápis de cor. Instrumentos de observação: pernas, olhos abertos, lanche e maior fome de descoberta. Os meninos não ficaram na foto porque já tinham partido à descoberta. Voltaram e desenharam ninhos e patos. O mais pequeno coloriu o monstro da Lagoa Azul, que tem talvez vinte patas e é vermelho fluorescente. Um desenho científico muito realista. Não percebo como não existe a lenda do monstro da lagoa azul, porque é muito mais impressionante que o do Loch Ness e este pelo menos existe mesmo. Não fotografei o desenho e isso é que é de lamentar, agora não há prova.

De lamentar mais ainda é o facto de estar agora sentada numa secretária a trabalhar, numa redacção sem janelas nem vista para nenhuma praia ou lagoa. neste domingo de sol.

“Escre­ver é triste”, não é Drummond de Andrade? “Impede a con­ju­ga­ção de tan­tos outros ver­bos”, só fica espaço para esta redacção sem janelas e umas notícias sem graça.

O que você perde em viver, escre­vi­nhando sobre a vida. Não ape­nas o sol, mas tudo que ele ilu­mina. Tudo que se faz sem você, por­que com você não é pos­sí­vel con­tar”.

E fico a olhar, parada, para a fotografia da Lagoa Azul tirada há sete anos. Agora as minhas amiguinhas já estão grandes e naquela idade de descobrir uma Lagoa Azul como a do filme. E de mergulhar como no filme e explorar outras coisas sem as desenhar nem escrever. Há dias em que escrever é triste à brava, caramba. Ou não. Um dia alguém se lembrará de fazer um blog com esse nome e aí é que vai ser uma alegria. As minhas amiguinhas iriam logo pôr um big smile a fechar a coisa e assim já tínhamos um monstro sorridente a boiar neste texto.

 

 

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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8 respostas a O monstro da lagoa azul

  1. Aquele risco de raízes na água, mesmo por cima da cabeça das meninas, é um jacaré que passa ou é já o monstro da lagoa azul?

    • Aposto que ele, seja monstro ou jacaré, já estava a espreitar para ver se gamava o lanche. Mas não conseguiu nada, porque as meninas estavam muito atentas. É sabido que o monstro só aparece quando ninguém está a olhar.

  2. EV diz:

    Que belo lago para um monstro! E a caixa de lápis de cor? Dá para um monstro gigantesco… Até os olhos se refrescam.

    • Eugénia, eu também acho que ele deve ser um monstro de bom gosto. E discreto, nunca afugentou ninguém, que se saiba. Mas sempre fugiu de máquinas fotográficas. Pelos vistos só se deixou apanhar num desenho.

  3. albertino.ferreira diz:

    Naquela paisagem idílica, lagoa azul, margens luxuriantes e dois anjos inocentes, não é possível, nem verosímel que haja monstros. Os monstros somos nós que os criamos.

    • Albertino, tem toda a razão.
      Mas os anjos não sabem nada disso. E os monstros inventados por anjos devem ser bem comportados. Pelo menos não dão nada nas vistas!

  4. Bea diz:

    Um big smile para tão belo texto.

    • Ó Bea, tão querida.
      Bela só se for a lagoa, porque um texto escrito numa sala sem janelas não consegue beleza, só uma data de palavras repetidas. Obrigada pela bondade.

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