O Senhor da Aflição sou eu, que estou aflito*

O gordo à direita sou eu. Seguem-se o presidente da Câmara de Vila Nova de Paiva (a terra do Malhadinhas e dos meus avôs), José Morgado Ribeiro e Paulo Neto, aquilinista consagrado na zona. À esquerda Joana e o marido Aquilino Machado (o neto) e o presidente da Câmara de Moimenta da Beira, José Eduardo Ferreira. Ao meio, o presidente da Câmara de Sernancelhe, Carlos Silva Santiago. O vinho é “Terras do Demo”, claro, da Cooperativa de Távora, em Moimenta (recomenda-se o espumante da mesma marca)

 

O que de mais importante há para dizer sobre ‘O Homem da Nave’, foi já dito por estes senhores, meus fidalgos, como dizia o Malhadinhas. O senhor da Aflição sou eu, que estou aflito

E os senhores são, além do nosso presidente aqui de Moimenta e do editor da Bertrand, Eduardo Boavida, o Aquilino Machado – que ainda há de ser meu primo, tão afastado como o Caramulo está daqui, mas unido no entendimento de que é necessário revigorar a obra do seu avô, mestre das palavras e mestre da vida.

Sobre ele, o neto, tenho apenas uma vantagem: conheci-lhe o avô que fugiu da vida faz hoje 54 anos. Conheci-o pouco, mas a marca indelével da sua mão na minha cabeça ainda cá a sinto. Tão viva quanto aquela manápula que no cinquentenário da sua morte, ali na casa de Soutosa, quando eu referi – havia um advogado comunista, dramaturgo, por sinal estagiário do meu tio Álvaro – essa manápula se abateu sobre o meu ombro e a figura de Jaime Gralheiro ficou enorme à minha frente e disse na sua voz forte: “Havia e ainda há!”.

Também já partiu o Jaime, assim como o meu pai, que fez da Bertrand a sua casa tantos anos e que tanto conviveu com Aquilino, para já não falar do meu avô, que a Dona Gigi, avó do Aquilino, disse, em entrevista publicada por António Valdemar, ser o único homem em quem o Mestre confiava plenamente – dedicou-lhe em letra impressa os Cinco Reis de Gente, as memórias da meninice.

O outro senhor é Álvaro Domingues, académico da Universidade do Porto, geógrafo, como este Aquilino neto, minucioso, curador e investigador da vida do campo. Os geógrafos gostam de Aquilino porque ele – em minha opinião – além de escritor é descritor. Também ele disse o que deve ser dito desta Serra de onde se avistam todas as serras que vale a pena avistar. Di-lo o autor na introdução, mas Álvaro Domingues, que é académico não esquece o essencial: os homens e a sua natureza.

Não esquece a característica de homem que foi o autor, a quem chama (e bem) rebelde crónico ou lobo sem coleira – aquele a quem se grita ‘Á coa’, como o Gil Sapateiro ensina o filho, para depois o enganar e fazê-lo saltar da lura onde se metera.

Mas Álvaro Domingues faz mais do que isso – e tiro-lhe o meu metafórico chapéu – porque desmonta a mitologia romântica em volta do aldeão. Bem sei eu que ela é tão falsa como Judas, ou mais, porque os autores desta patranha, fossem os que ele cita, como Jules Michelet ou António Feliciano de Castilho, fosse ainda o nosso Eça que se desconchava em ‘A Cidade e as Serras’ admirando a paisagem e os odores de uma sopa bem cozinhada, ou não conheceram a aldeia ou mentiram com os dentes que puderam.

Eu por aqui andei a matar o tempo. Coisa de que ele se vinga pois ele é que me mata agora. Tipo pescarreta, mais do que caçarreta. E andei como pude, se pudesse descalço, não por falta de sapatos, mas para imitar os sobrinhos do padre Lucas ou os netos do Luís e da Florinda até me ir embora com o ar descrito num destes capítulos, quando vai o doutor Anacleto e outros tantos, além do estudante.

O Homem da Nave é granítico, daqueles de antes quebrar que torcer. Faz e diz isto e aquilo e também o seu contrário, como todos, mas não tendo o gesto por incoerência, nem por oportunismo, mas por astúcia do momento. Consegue, apesar de tudo, manter intacta, como ar da nossa serra de Leomil (ou da Nave que não sou eu a meter-me nessas disputas geográficas), a pureza de intenções e uma certa candura que jamais o abandona.

Já velho, interrogado a propósito de “Quando os Lobos Uivam” por um brutamontes que lhe dispara: “O Senhor é português?”, confessaria mais tarde, já em casa, a Dona Gigi, sua mulher: “fosse eu mais novo e tinha-me virado ao homem partido aquilo tudo”. Não era um ferrabrás, mas também fora um ferrabrás. Diz ele, da sua própria terra: “Nas imediações havia povos, bárbaros de todo, governados pela lei da selva, onde se matavam uns aos outros com sobranceria e inaudita fereza”.

E, como escreve noutro dos livros do Quinteto – e aqui fica o quinteto da Beira – composto pelos livros Os Avós dos Nossos Avós // Aldeia // Geografia Sentimental // Arcas Encoiradas,// O Homem da Nave (socorro-me do académico Valdemar para esta taxonomia), como escreve nas ‘Arcas Encoiradas’.

“A fazendinha de regadio produzia-lhe o linho de que fazia os lençóis, a camisa, os sacos, as calças de Verão e até a mortalha. As ovelhas davam-lhe a lã de que urdia o burel em que talhava a andaina, capucha, barrete e meiotes. Este burel, batido nos pisões, com mais pisadura ou menos pisadura, adaptava-se aos diferentes graus da sua necessidade: impermeável para a chuva; leve para as festas; rala – a chamada serguilha – para aventais; entretecido com trapo, para mantas da cama. Noutros tempos eram os pastores que confeccionavam os botões, recortando-os no chifre, atrás do gado. À parte as brochas para os tamancos e o cabedal para as encoiras, o serrano estava-se marimbando para o filibusteiro. Que mais precisava ele? Não precisava de remédios, e se adoecia era tratado pelos simples à maneira dos lusitanos.”

Podia, desta obra, retirar a parte da carta de Ludovina Jesus para o Brasil. Cito de cor: o porco, com sua licença, está magro e tivemos de o matar antes que se fosse. Já a vaquinha se vai portando em termos. Era este o mundo, o idílico mundo que alguns persistem em nos vender.

Ora bem. “Deus nos guarde de parrafo [parágrafo] de legista, infra de canonista, etc de escrivão e récipe [receita] de mata-são [mau médico]”. Eis as coisas que eu ainda hoje utilizo para me proteger do mundo e me abrigar na Nave, ou em Leomil, que é mais próprio, se não for numa fraga da Lapa, onde a Nossa Senhora fez mais milagres que pensamos.

Sim, nós – eu digo estes nós de coraçao aberto e orgulho cheio – somos assim: manhosos, mas gente de boa cepa, talvez um pouco puxada ao exagero, de exaltações rápidas, perdões imediatos, sonhos grandes, pequenos feitos e coração puro.

Ó Aquilino, tens aqui, Mestre, no teu neto, um homem que ainda pode ter umas costelas valentes daquilo que tu – meu querido, bom e paternal amigo – assim como eu, por todos os costados da zona, ainda tenho. Sei que as terras foram e são selvagens, do Marau, acusado de passador de moeda falsa e de bater na mãe, ao Zé da Custódia que parecia aviar os pardais como quem mata piolhos, terras de analfabetos e brutos, mas onde um aperto de mão tem o valor de um contrato em tabelião.

Quereis mais sobre a Nave? Subia-a! Como fez o Mestre que por aqui andou escondido com o filho Aníbal, Ide aos locais que ele diz, onde nunca a bota da lei calcou. Não sei se ainda há lugares assim, mas quero acreditar profundamente que sim. Que vos tenho, meus amigos, acaso a fúria das bestas de Lisboa me queira perseguir ou fazer mal.

O homem da Nave é o Mestre e sou eu. Sou eu pelo meu bisavô e pelo meu avô, que aqui andaram; pelo meu pai que se foi há dois anos, pela minha família que é a vossa família.

*extrato da apresentação de ‘O Homem da Nave’ junto à capela do Senhor da Aflição, perto de Soutosa, Moimenta da Beira, a meia encosta entre a casa de Aquilino Ribeiro e o cume da Serra da Nave

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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Uma resposta a O Senhor da Aflição sou eu, que estou aflito*

  1. albertino.ferreira diz:

    Ainda tenho na memória o Itinerário Aquiliniano em boa hora organizado pela APE, salvo erro em abril de 2013, em que percorremos as Terras do Demo e demos um salto á Casa Grande de Romarigães em Paredes de Coura. Eu já tinha uma edição antiga do Homem da Nave, em boa hora encontrada num alfarrabista, e foi com prazer redobrado que reli a reedição da Bertrand, de rajada, naquela prosa enxuta, camiliana do Mestre. Tenho o quinteto e muito mais, quase todos os Romances e Novelas, além do Romance de Camilo, em 3 volumes, biografia romanceada de outro mestre da língua, que já li duas vezes. Nunca é demais recordar Aquilino. Obrigado H.M. por fazer reviver a memória dos homens das naves que existem por essa Beira Alta, de onde sou natural, embora das faldas da serra da Marofa que Aquilino também conhecia.

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