Queres que te faça o desenho?

 

The Things to Come

Foi há 25 anos e meio. Para o Expresso, e por haver uma espécie de ciclo (ou só porque se exibia Things to Come), escrevi sobre William Cameron Menzies.
Há gente que se excede numa profissão. Menzies excedeu a profissão. A tal ponto que tiveram de inventar uma só para ele.
Vamos lá contar-lhe a história direitinha, plano a plano, como ele gostava de desenhar.

 

Queres Que Te Faça o Desenho?
Manuel S. Fonseca

Menzies, o realizador e co-director artístico de A Vida Futura (Things to Come), nasceu em Connecticut, no final do século passado. Estudou em três universidades, duas na América e uma na Escócia. A mão puxava-lhe para o desenho. Teve como professor um grande ilustrador de livros e aventuras, Howard Pyle, e a ilustração de histórias infantis foi o seu baptismo profissional. Hollywood ofereceu-lhe um contrato, quando era assistente de Anton Grot, artista polaco que colaborava com o cinema, desenhando cenários e fazendo ao mesmo tempo storyboards muito pormenorizados, ao ponto de incluir indicações de luz e de sombra para cada cena. Menzies seguiu os métodos de Grot. De discípulo rapidamente passou a mestre, tendo Grot sido seu assistente na concepção dos cenários de clássicos do mudo como The Thief of Bagdad, realizado, em 1924, por Raoul Walsh. Minaretes, cavernas gigantescas, admiráveis escadas em caracol, a concepção de cenas submarinas atestam, nesse filme, a maturidade artística de Menzies.

O Ladrão de Bagdad

Para alguns historiadores, Menzies foi, no seu domínio, a personalidade mais brilhante de toda a história do cinema. Em todo o caso, se o não foi para a história do cinema mundial, foi-o certamente para a história do cinema americano. Um dia pediram a Orson Welles que escrevesse um prefácio para o catálogo de uma exposição sobre os grandes decoradores de Hollywood. Welles recusou, começando por dizer que Menzies era o único nome da lista que o entusiasmava, e que os organizadores deviam ponderar o facto de muitos dos art directors creditados nos genéricos dos filmes serem funcionários burocratas capazes de receber Óscares por filmes dos quais não tinham feito um só desenho, caso de Van Nest Polglase, art director creditado por Citizen Kane, ou de Cedric Gibbons, que impôs o seu gosto na MGM durante anos, ganhando onze Óscares com o trabalho feito pelos subordinados.

Menzies representa o pólo oposto. Nunca esteve sob contrato em nenhum dos art departments dos grandes estúdios de Hollywood. Foi sempre independente e desenhou ele mesmo os cenários dos filmes que assinou como director artístico. A designação peca, aliás, por defeito. Menzies considerava que um director artístico devia ter conhecimento da arquitectura de todos os períodos e nacionalidades, devia ser um cartoonista, um desenhador de guarda-roupa, devia desenhar o interior de um barco ou de uma casa dramatizando-os e devia até ser perito em acústica. Por ter sido tudo isto, e sobretudo por ter compreendido que os seus desenhos eram, antes de mais, momentos de drama, a contribuição de Menzies na preparação e na apresentação dinâmica dos filmes ultrapassou largamente as funções tradicionais do decorador.

Foi por essa razão que David O. Selznick lhe confiou um papel-chave na preparação e concepção de E Tudo o Vento Levou. Nos famosos memorandos da preparação do filme, Selznick escreveu: «Penso que precisamos de um homem com o talento e a imensa experiência de Menzies para os cenários do filme e para a sua produção propriamente dita. Espero ver E Tudo o Vento Levou praticamente planificado até ao menor enquadramento antes do início das filmagens. Em consequência, escolhemos Menzies… Ele preparará todos os cenários, todos os esboços e os planos dos cenários. Vai fazer o que só raras vezes foi feito na história do cinema (e sempre que o foi, na maior parte dos casos foi Menzies quem o fez): um guião completo sob a forma de desenhos, indicando o enquadramento, a iluminação, etc. É um trabalho monumental, no qual Menzies deverá colaborar muito estreitamente com Cukor. Há também sequências de “montagem”; conto pedir-lhe não somente para as desenhar mas também, em larga medida, para as realizar ele mesmo. Em suma, tenho a intenção de confiar pessoalmente todos os aspectos plásticos desse filme a um homem que terá só essa tarefa… É evidente que o seu trabalho sobre esse filme, tal como o encaro, será muito mais vasto do que o geralmente coberto pela expressão art direction. Por conseguinte, dar-lhe-ei provavelmente um título do género Production Designer

Foi o começo de uma nova profissão. Toda a criação do look dos filmes em que participou a seguir (King’s Row, Our Town, So Ends Our Night ou The Pride of The Yankees) ficou nas suas mãos. A colaboração íntima com os directores de fotografia — e às vezes a subordinação destes, como sem pejo confessou o grande operador que foi James Wong Howe — converteu-se num atributo do exercício da actividade de production designer. Não se tratava apenas de determinar o estilo visual ou de inscrever as marcas características de uma época no filme — tratava-se, como disse o realizador Anthony Mann, de deixar que, pelas mãos de Menzies, passasse o clima emocional do filme.

Houve conflitos. Desde logo em E Tudo o Vento Levou, envolvendo, por exemplo, decisões sobre a cor. Selznick estabeleceu aí uma regra de ouro: «O Sr. Menzies é juiz soberano quanto a estas questões.» Acima dos técnicos da technicolor, acima dos decoradores e acima do director de fotografia Lee Garmes, Menzies decidiria nos casos conflituais, «sem apelo».

Art directors nunca deram bons realizadores. A regra aplica-se a William Cameron Menzies. Por exemplo, A Vida Futura está longe de ser uma obra com impacto dramático. Mas naquilo em que Menzies era muito bom, A Vida Futura é muito bom também. A organização visual do filme é espantosa. Nitidamente influenciada pela antevisão da cidade do futuro de Metropolis, de Fritz Lang, desenhada por Otto Hunte, Erich Kottelhut e Cari Vollbrecht, a cidade do futuro que William Cameron Menzies desenhou (em colaboração com Vincent Korda) constituiu uma referência iconográfica para todo o cinema de ficção científica posterior. Era uma visão. A visão futurista dominada pelas linhas verticais, essa forma obsessiva que Menzies tinha de rasgar o espaço e criar perspectiva.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Queres que te faça o desenho?

  1. EV diz:

    A quantidade de coisas cinéfilas que aprendo…

  2. ana marchand diz:

    quero!

  3. Bea diz:

    Bonito e instrutivo, este desenho.

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