Nunca saí do liceu

Se a vida fizesse sentido, não havia filmes. Nem livros. Não sabemos onde moramos e, por vezes, um filme ou um livro dão-nos a impressão de estarmos em casa. Os filmes e os livros de que gosto são os de homens ou mulheres perdidos. Gente que não sabe encontrar o caminho para casa ou nem sequer sabe já o que seja uma casa.

É fácil achar que a humanidade é estúpida. Uma coisa é dizê-lo com doçura e inclusão, outra coisa é dizê-lo com ressentimento e misantropia. O mais misantropo dos escritores, J. D. Salinger, escondeu-se do mundo literário na adorável pasmaceira de Cornish, na Nova Inglaterra. Autor de “The Catcher in the Rye”, fez o que Holden Caulfield, herói desse livro, prometera: foi para uma “pequena cabana com a massa que ganhei, viver lá o resto da vida”, para não ser obrigado a ter “a treta de conversas estúpidas com ninguém”. E nem é verdade: Salinger falava com os vizinhos, ia ao supermercado e os estudantes de Cornish vinham a sua casa ver filmes que ele projectava em 16 mm.

Alguns dos melhores espíritos de Hollywood tentaram seduzi-lo. O produtor David O. Selznick e Billy Wilder queriam fazer de “Catcher” um filme. A imoralidade juvenil do herói do romance e a sua descarada rejeição da vida adulta cairiam como mel nessa sopa dos anos 50 de que Nick Ray tirou o “Rebel Without a Cause” e Elia Kazan o “East of Eden”.

Aliás, Elia Kazan também falou com ele. Disse-lhe que o “Catcher” era romance para um filme e, já sou eu a inventar, que James Dean daria um estarrecedor Holden Caulfield, o herói do livro. Salinger respondeu que nem era bem por ele: “Receio é que Holden não vá gostar.” E lembrou a Kazan a tirada ululante de Holden, logo no começo do romance: “Se há alguma coisa que eu odeio, são os filmes.”

Salinger tinha as suas razões, a começar pela adaptação em que Hollywood enterrara viva uma história sua, mas escondeu-se atrás de Holden Caulfield. Talvez para dar razão à futura boutade de Norman Mailer: “Estarei sozinho a achar Salinger o nosso maior espírito que ficou para sempre no liceu?”

Também o melhor cinema dos anos 50 nunca saiu do liceu – ficar-lhe-iam bem as histórias de Salinger, cheias de palavras da rua e personagens que pisam com desconforto um mundo que não é o seu. Já vivo da nostalgia do que nunca aconteceu: que pasmoso Holden Caulfield não tirou Kazan de James Dean!

Publicado no Expresso, sábado, dia 14 de Julho

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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Uma resposta a Nunca saí do liceu

  1. EV diz:

    Só o arranque deste texto leva-nos logo a um lugar que conhecemos – estar perdido também é um raio de uma toponímia… Fartei-me de gostar.

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