O estômago proletário

Estou a trabalhar num livro comemorativo da Revolução de Outubro. Essa revolução que mudou o mundo vai, como ninguém se lembra, fazer 100 anos. Há um século, já por esta altura as ruas de Petrogrado andavam numa roda viva. Os bolcheviques estavam, nesse Julho de 1917, em maré vazia, mas a radicalíssima estratégia de Lenine daria frutos em Outubro (que por acaso, no calendário que nós seguimos, é Novembro). Eu prometo que a Guerra e Paz vai pôr nas livrarias um livro original e diferente. Para já, nesta fase de espalhar livros em cima da mesa, deparei-me com a guerra das caves.

Os guardas vermelhos, essas forças armadas espontâneas da revolução que os sovietes mencheviques tinham gerado, descobriram que a aristocracia de São Petersburgo, mas também a sua burguesia, restaurantes e grandes lojas guardavam nas suas caves preciosos vinhos franceses, champagnes e licores. Atacaram, por isso, as caves, numa revolucionária ânsia de pilhagem. E se  eu lá estivesse não teria também feito a coisa por menos.

O assalto às caves particulares e públicas de vinhos e bebidas teve consequências desastrosas sobre a disciplina. Os comissários ideológicos não perderam tempo a acusar, antes de mais, os inimigos de classe: «A burguesia escolheu uma maneira infame de lutar contra o proletariado, constituindo enormes depósitos de álcool para os quais atrai os soldados.» A verdade é que os soldados descobriam as caves e as bebedeiras eram homéricas, ao ponto de se ter criado o “Comissariado para a Embriaguez” que tomaria medidas impetuosas para travar essa nefanda vaga de alcoolismo. As caves foram, evidentemente, nacionalizadas, devendo os donos declarar a sua existência, de acordo com uma proclamação feita pelo poder bolchevique. Seriam dinamitadas as que fossem posteriormente encontradas. A guerra das caves levou mesmo à definição de um «estômago de classe»: os estômagos proletários recusariam necessária e espontaneamente os ingredientes debochados que faziam a vergonhosa festa dos estômagos burgueses. Trotski, que privadamente gostava dos prazeres báquicos, louvou os gloriosos marinheiros de Cronstadt, chamando-lhes «flor e orgulho da Revolução» por terem destruído no alto mar vinhos cujo valor se estima em cerca de cinco milhões de dólares.

A guerra ideológica dos estômagos parece ridícula. E não é ridícula. Tudo bem pensado, hoje, há uma guerra ideológica dos estômagos em curso. As guerras contra a carne, calorias, as proclamações veggan, bio e outras são esfarrapados ecos dietéticos dessa velha luta de classes que fez do sábio Trotski (por uns meses, pelo menos) um abstémio. Há mais 1917 nos nossos pratos e nas nossas mesas de século XXI, do que algum dia podiam imaginar os marinheiros de Cronstadt, essas flores e orgulho da Velha Revolução.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a O estômago proletário

  1. EV diz:

    Palpita-me que tenho um estômago burguês a rimar com pâtés e um figuinho fresco e maduro quase demais que não rima mas vai tão bem nesta altura…

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