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Não são cinquenta anos,  nem são as cinquenta formas de deixares o teu amante, como cantou Paul Simon.

São antes as cinquenta melhores digressões musicais dos últimos cinquenta anos. A edição da revista Rolling Stone que apresenta esta lista é também a edição que comemora os cinquenta anos de existência da publicação, e por isso já vamos em muitos anos e muita música.

Em cinquenta podem caber quase todos os gostos, entre o pop, o rock, o blues, o folk e o alternativo…

A questão mais difícil, diz-nos o editorial, colocava-se em escolher entre as próprias bandas e as diferentes digressões: qual a digressão melhor de Bruce? A de 1975 ou a de 1978? E terá sido melhor a digressão do álbum dos U2 “Joshua Tree “, em 1987 , ou a digressão de 1992  “Zoo Tv” que celebraria o álbum “Acthung babe”? Ambas marcadas pela mestria da produção  de Brian Eno e Daniel Lanois, que veio a transformar a jovem banda de irlandeses rebeldes numa super banda do pop/rock.

Provavelmente será impossível de dizer.

Bem mais interessante parecem ser as pequenas histórias escondidas por detrás de cada um destes acontecimentos, os pequenos pormenores e detalhes, que acabam por definir a especificidade de cada momento.

Aqui vão alguns desses momentos:

James Brown no Boston Garden no dia 5 de Abril de 1968.

Nada de novo se não nos lembrarmos que este foi o dia a seguir ao reverendo Marthur Luther King ter sido assassinado em Menphis. A América estava a arder em momentos de turbulência social, a minoria  negra a conseguir expor aos olhos do mundo a inumanidade da segregação, o terrível cancro do ódio racista. Roxbury e o South End de Boston tinham estado a ferro e fogo na noite anterior.

O presidente da câmara de Boston Kevin White hesitamas o “manager” de Brown , ajudado pelo vereador Tom Atkins, convence que o cancelamento poderia vir a ser bem pior, e propõe que o concerto seja transmitido na televisão.

Assim se fez  história. Uma noite de tensão e medo que se transformou em música quente e ritmo fulgurante.  A música como último reduto da esperança.

 

Neil Young e os Crazy Horse , em 1970.

Uma das tournée que ficariam para a história, especificamente as datas em que a banda se apresenta no mítico Fillmore East de Bill Graham no Esta Village de Manhattan.

Não só os concertos se arrastavam na duração, como ainda se davam quatro concertos em duas noites!

Era o som distorcido da troca de solos entre Young e Whitten, um rock caótico, melodiosamente barulhento, que viria a ser apreciado bem mais tarde pelos grupos de “grunge “ de Seattle.

Whitten morreria apenas dois anos mais tarde, ficando estes concertos como um dos últimos testemunhos desta relação.

Será em honra e memória do seu amigo e guitarrista que Young escreve o clássico “The Nedle and The Damage Done”, hino sentido à dependência de substâncias que levou tantos dos melhores músicos desta geração.

 

Bob Dylan, Desire tour 1976.

 

Dylan, antes do Nobel mas já depois da obra prima que foi “Desire”.

Em vez de escolher tocar em estádios e grandes salas de concerto, Dylan, igual a si mesmo, quebra uma vez mais as regras e escolhe pequenos teatros, marcados apenas com dois ou três dias de antecedência, e preços a rondar os 9 dólares, que mesmo em 1976 era considerado barato para a estrela que Dylan, indiscutivelmente, já era.

Acompanhado por uma banda fabulosa, que veio a ser em parte conhecida como The Rolling Thunder Revue, Dylan surpreendia noite após noite, sempre diferente mas igual a si próprio.

A banda contava com nomes incontornáveis da música popular americana, como Joan Baez, Roger McGuinn (dos Byrds), Ramblin’ Jack Elliot, Mick Ronson, (o guitarrista iluminado de Bowie na sua tournée the “Ziggy Stardust “), ente outros.

 

Radiohead, em Glasronbury, 1997.

O cenário mais parecia ser o do fim do mundo, mas molhado, bem mais molhado que a chuvinha miudinha de Blade Runner.

Dias de chuva e lama fizeram esquecer a aventura hippie de Woodstock, e levaram à desistência de alguns dos 90.000 fans. Para além disso tudo parecia estar a correr mal, dois dos palcos sucumbiram à chuva e amplificadores e monitores pareciam estar programados para derreterem ou pegarem fogo, mesmo com os palcos encharcados.

No final do concerto Thom Yorke, sem entender bem o que se tinha passado,  preparava se para bater em quem lhe aparecesse à frente, de preferência um dos responsáveis pelo sistema de som, ou o seu manager…

Mas a sua namorada conseguiu controlá-lo e fazê-lo entender que o público estava extasiado, sim, mas  em delírio.

Em 2006 a revista Q votou o concerto como um dos melhores concertos na história britânica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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