Amor, Moreia

Obituário publicado na revista Sábado a 03 de Agosto (Moreau detestaria as paredes bidimensionais de 3400 caracteres, ela que é um ser da quarta dimensão):

Nunca teve a beleza das estrelas dos anos 60 (Brigitte Bardot, Romy Schneider, Kim Novak, Jean Seberg). Era pequena, de ar triste, olheiras perpétuas, a velar a angústia, como n’”A Noite” que atravessou para o mestre do mal de vivre, Antonioni. Por isso, não amedrontava as mulheres, e os homens comuns não se viravam à sua passagem. Mas a câmara jamais a largou: foi paixão à primeira vista. Moreau tinha o look da inteligência, os gestos do instinto e o sublime cansaço de cem anos de vida audaciosamente vivida. Era parecida connosco mas, em simultâneo, inalcançável. A voz, essa, sussurrava a cama dos grandes amores e o templo das grandes histórias – ouvi-la como Duras no, de resto, medíocre “O Amante”, de Jean-Jacques Annaud, era compreender o eterno nas pequenas coisas: o calor do sol na pele; os dedos penetrando a mansidão do rio; ter catorze anos. Com ela, um audiolivro dos sete volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” seria o veloz reencontro da felicidade.

Já andava pelos filmes há uma década quando explodiu, tranquila mas desafiadora (seria sempre assim) em 1958, ao som do trompete de Miles Davis, num “Fim de Semana no Ascensor”, adúltera e de intenções assassinas, e como um d’”Os Amantes”, a mulher mais velha, adúltera de novo, ambos de Louis Malle. Fez uma breve figuração para Truffaut em “Os Quatrocentos Golpes” (1959), abertura oficiosa da Nouvelle Vague. Ele não a largou mais até convencê-la a protagonizar o papel que se lhe colará à pele como o ar temperado do Alto Reno: Catherine, seta, alvo e perdição do triângulo amoroso de “Jules et Jim” (1962), filme de novo construído sob vozes-off e abissais elipses – “o primeiro beijo deles durou uma noite inteira”.

Foi rosto e drama de quase todos os cineastas tão grandes como ela: Joseph Losey (“Eva” e “Mr. Klein”), Orson Welles (que integrava uma pequena multidão ao considerá-la a melhor actriz do mundo, em “O Processo”, “As Badaladas da Meia-Noite” e “História Imortal”), Renoir (“Diário de Uma Criada de Quarto”), Elia Kazan (“O Grande Magnate”, ou uma das formas que teve de demonstrar quanto Hollywood lhe era indiferente), Fassbinder (“Querelle”), onde canta, para nossa renovada perdição, “Todos os homens matam aquilo que amam”, seguindo Oscar Wilde.

A biografia? Filha do gerente de uma brasserie em Montmartre e de uma bailarina inglesa do Lancashire que passaria pelas Folies Bergère, foi figura do Conservatório Nacional e da Comédie Française, aos 20 anos. Casou-se com Jean-Louis Richard – com quem teve o único filho, o pintor Jérôme Richard – e William Friedkin, e viveu com Tony Richardson, que deixou Vanessa Redgrave para lhe cair nos braços (Moreau tinha um fraquinho por realizadores). A maioria dos que com ela contracenaram sofreu igual destino: Mastroianni, Jean-Louis Trintignant, George Hamilton, mas também o designer de moda Pierre Cardin. Foi amiga de Jean Genet, Cocteau, Henry Miller. Boa cozinheira,  leitora ávida, fumadora compulsiva, fez de tudo: cinema, teatro, ópera, séries televisivas, álbuns musicais. Foi encontrada sem vida aos 89 anos pela empregada, na manhã desta segunda-feira, no seu apartamento da Faubourg-Saint-Honoré, em Paris, a cidade onde nascera. Nada disso esclarece o mistério da boca de carnudo pisco-vermelho, daqueles deliciosos joelhos, da maneira desastrada como corria, do melancólico sonambulismo, como se Jeanne fosse a guarda-avançada dos nossos sentimentos mais ocultos. O cinema fica, mas uma parte da sua bravura terminou.

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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