O enxovalho

Richard Dreyfuss é um choramingas, um cry-baby. Vi-o lavado em lágrimas na televisão irlandesa. Mas permitam-me que primeiro invective os portugueses. Temos a mania de que somos desenrascados, que o improviso para o português é como limpar o cu a meninos. Ora, apetece-me é mandar os portugueses falar com Spielberg. Começou a filmar “Jaws” e não tinha ainda guião acabado, nem tinha actores e – Jesus, Maria, José – nem tinha sequer tubarão. Um filho de portugueses, Joe “efeitos especiais” Alves, conta que tinham três tubarões mecânicos. Mexiam-se bem em terra seca, mas mal entravam na água, dava-lhes a paralítica.

Dreyfuss lembra-se de que nos walkie-talkies só se ouvia uma irritante voz distorcida a lamentar “corta, o tubarão avariou”. Preparavam-se e “corta, o tubarão avariou”. Houve um dia em que, tudo a postos no Orca, o barco que persegue o tubarão, os walkie-talkies rejubilaram: “O tubarão funciona, o tubarão funciona!” Actores em pé, todos nas marcações e logo a voz distorcida: “barco a afundar-se, barco ao fundo, abandonar barco.” Spielberg gritava ordens para salvarem primeiro os actores, mas o operador de som, Nagra nos braços levantados por cima da cabeça, só dizia: “Fuck the actors, salvem mas é o som.” Óbvio, “Jaws” foi o êxito que qualquer chinês sabe.

Agora, que de desenrascanço estamos falados, e nem o presidente Marcelo virá dizer que é idiossincrático traço nacional, queria falar de homens, dessa enfronhada camaradagem que desaba sobre alguns de nós e que as mulheres não conseguem compreender. Vejam “Jaws”. Estão três homens num bote à espera do tubarão. Robert Shaw conta-lhes como os japoneses afundaram o cruzador em que ia e como os tubarões fizeram dos marinheiros americanos um sangrento almoço festivo. Estabelece-se uma eléctrica empatia masculina e mostram uns aos outros cicatrizes de aventuras. Bebem, riem, cantam. As personagens de Shaw e Dreyfuss superam, por fim, a brutal rivalidade de classe que até aí levava Shaw a humilhar Dreyfuss. A graça é que essa rivalidade era real fora do filme. Shaw chamava-lhe “punk”, sem experiência de palco. Iam para uma cena, e ele segredava-lhe “atenção aos teus maneirismos”, arrasando Dreyfuss. Tanto enxovalho e foi a lembrar-se de Shaw que vi Dreyfuss feito Maria Madalena na televisão irlandesa. Para a semana conto porquê.

Publicado no Expresso no sábado, dia 29 de Julho

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a O enxovalho

  1. Manuel, lembro-me bem da luta que travei, não com um tubarão felizmente, mas com os meus pais para me levarem com eles ao cinema ver o Tubarão do Spielberg. Teria uns 10 anos e, embora tenha lido tudo o que consegui apanhar sobre o filme e Grandes Tubarões Brancos, só consegui ver o filme bem mais tarde, lá pelos meus 14 anos. Talvez porque nunca o tenha conhecido choramingas (aguardarei ansiosamente a tua história amanhã no Expresso), o Dreyfuss do Tubarão e dos Encontros Imediatos do Terceiro Grau era então um dos meus atores preferidos.

    • Diogo, meu Triste companheiro, eu adoro o Dreyfuss. Desde o American Grafitti, a que eu chamo um filme do meu bairro. Espero que o resto da história não te desiluda.

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