o sexo faz medo e o medo faz rir

O filme estreou em Março de 19192, escrevia eu crítica de cinema no Expresso, artigos na Marie Claire, apontamentos nas emissões do Sena Santos na Antena 1, além de coordenar as acções de descentralização da Cinemateca com sessões no Porto, Viseu, Coimbra, Caldas da Rainha, sei lá eu. Era um tempo em que eu ia a festivais de cinema mudo, em Pordenone, ali mesmo ao lado de Veneza, o que preferia a ir ao bling bling dos grandes festivais. E estreou este filme de Scorsese. Hoje, há uma campanha em curso, comandada pelo Imperador Pedro Norton, esse Nero do cinema dos anos 90, para abater Scorsese. Por ele ser pequenino? Por falar muito depressa? Ora, eu vejo os filmes dele e gosto da agitação moral que os anima. E gostei tanto deste Cabo de Medo, que vou pedir à personagem do Robert de Niro que dê uns acalques mais convincentes no Norton, que isto já lá não vai com o meu paleio à Andrew Sarris. Dito isto, aqui vai o artigo que escrevi em 1992, no Expresso, que fiz até acompanhar de um mini-dicionário.

 

o pequeno polegar
manuel s. fonseca

 À PRIMEIRA vista dir-se-ia que O Cabo do Medo é um cabo das tormentas alimentado pela força da vingança. Comparando este filme a um veículo, é pacífico reconhecer que o seu carburante se chama Max Cady (Robert De Niro). Vêmo-lo, logo no início de O Cabo do Medo, a sair da cela da cadeia onde cumpriu 14 anos de pena por crime de violação. Deixa na parede o retrato de Estaline; traz na pele uma colecção mística de tatuagens em que se confundem os termos vingança e justiça. Se, com um esforço mínimo de imaginação, podemos supor que De Niro entrou para aquela cela paranóico, a observação mais sumária do seu comportamento, agora que o libertam, confirma que, com absoluta certeza, paranóico saiu. Esteve 14 anos a ruminar vingar-se da humanidade, e a humanidade toda resume-se a um homem só, Sam Bowden (Nick Nolte), seu advogado de defesa, que no julgamento omitiu dados susceptíveis de suavizar a pena sofrida.

De Niro é, pois, a encarnação da ameaça, elemento decisivo na mecânica deste filme de Martin Scorsese. Chega a New Essex, uma cidadezinha moderna e pacata da Carolina do Sul, disposto a fazer mal. Ou, melhor e mais substantivamente, a fazer o mal. Com brutalidade, é claro, mas seguindo paradoxalmente os cânones que obrigam as partes a suceder-se em crescendo dramático e o todo a revestir-se de elegância. Ou será que ainda há alguém suficientemente ingénuo para pensar que o psicótico é inimigo do esteta?

O Cabo do Medo poderia muito bem ser o assalto de um homem à paz e inocência de uma família. O que significaria filmar de fora para dentro, isto é, filmar o tigre De Niro observando-lhe os gestos de preparação dos ataques, a espera da presa e o desfecho obviamente sangrento. Martin Scorsese virou o bico ao prego. Identificou a câmara com a vítima e fechou-se em copas, que é como quem diz, em casa da família do advogado interpretado por Nick Nolte. Táctica que determina assinaláveis implicações estratégicas, a saber.

A PRIMEIRA é o reforço da dimensão colectiva da vítima. O Cabo do Medo já não é apenas a vingança de um homem sobre outro homem, mas é acima de tudo a verificação da crise moral de uma família, da perda do amor entre os cônjuges (a mulher de Nick Nolte é Jessica Lange), até ao descalabro do exercício do poder paternal sobre a filha do casal, Juliette Lewis, nomeada para o Óscar de melhor actriz secundária. No fundo, O Cabo do Medo é o filme de uma família que interioriza uma suposta ameaça externa, fazendo dela a catarse das suas frustrações e dos seus conflitos latentes.

A segunda consequência estratégica prende-se com o próprio Robert De Niro. De ameaça objectiva, De Niro vê-se, por força daquela interiorização da ameaça, convertido em projecção do mal-estar doméstico, monstro gerado pelo sono da razão familiar. Martin Scorsese aproveita ficcionalmente essa mudança transformando Robert De Niro num ser que se materializa subitamente nos lugares mais imprevisíveis, por obra e graça das obsessões de cada membro da família: aparece sentado no muro do jardim da casa e no segundo seguinte já não está lá; deixa as suas marcas de terror no lar dos Bowden sem que ninguém o tenha visto entrar ou sair; telefona-lhes, grava-lhes as conversas, cola-se a eles na fuga final, tudo sinais da sua fantomática omnipresença. A família Bowden bem poderia cantar em uníssono o «I’ve Got You Under My Skin».

A terceira consequência, a mais filosófica, é a mudança de mote. O Cabo do Medo, afinal, não tem a vingança por tema. Isto é, a vingança é um recurso temático menor. O grande tema do filme é a culpa. Olhem bem para Nick Nolte: se medo tem, é a si mesmo que se teme. Teme um erro do passado, do mesmo modo que teme as mentiras do presente. É o medo dessa culpa dupla que, a seus olhos, faz de De Niro um Adamastor. O terror de Jessica Lange, a mulher, e de Juliette Lewis, a filha — terror que, a ser presente em juízo, deveria sê-lo a um hipotético juízo de foro sexual —, é igualmente um terror gerado nelas e por elas mesmas. Mistura recalcamentos e desejos proibidos, cujo momento mais explícito é a magnífica cena do polegar de De Niro na boca de Juliette Lewis, no anfiteatro do liceu.

Nenhuma destas considerações contradiz declaradamente a ideia inicial deste comentário a O Cabo do Medo, segundo a qual, recordo, Robert De Niro era o carburante do filme. Reconheça-se, todavia, que é coisa diferente ser-se um carburante objectivo ou um subjectivo. Para ser carburante objectivo bastava a Robert de Niro protagonizar os diversos episódios com que aterroriza a família Bowden. Com gozo sádico, vá lá! Como carburante subjectivo da trama do filme, De Niro teve de dar à sua interpretação — nomeada para o Oscar — uma qualidade etérea. O terror e o inefável dão-se as mãos, e o psicótico aproxima-se do angélico. Não seria, aliás, a essa espiritualidade que Scorsese se queria referir quando apresentou Max Cady, a personagem de De Niro, como «uma espécie de espírito de culpa maligno da família — um anjo vingador»?

PARECE-ME ser esta a altura ideal para, travando desenfreados ímpetos metafísicos, chamar a atenção para o carácter lúdico deste filme de Martin Scorsese. O Cabo do Medo é um «remake» de A Barreira do Medo, que tinha o mesmo título original, Cape Fear, filmado em 1962 por J. L. Thompson. Steven Spielberg e De Niro tiveram a ideia de refazer a história. Se o psicopata protagonista nascera já à medida e ao feitio de De Niro, o mesmo não se pode dizer dos tons sombrios do drama, mal talhados para a sensibilidade de Spielberg. Chamaram, por isso, quem de direito, o Martin Scorsese de complexos e culpas de Taxi Driver e de A Última Tentação de Cristo. Scorsese, sem deixar de chamar à colagem muitos pontos do elenco temático e formal dos seus filmes anteriores — «todos os meus velhos amigos», como ele afirmou à «Time» —, respeitou as regras do jogo. E o jogo era um género preciso, o «thriller» psicológico, com os seus códigos de construção e de manutenção do «suspense».

Ver O Cabo do Medo é ver também a rede de relações que o filme entretece com a obra anterior de Martin Scorsese, merecendo particular evidência os laços com A Última Tentação de Cristo e Taxi Driver; e ver O Cabo do Medo é ainda descobrir toda uma galáxia cinéfila de referências, a maior das quais me parece ser — para o papel de De Niro — a da perseguição sistemática e implacável que Robert Mitchum movia às inocentes vítimas de A Noite do Caçador, pista facilitada pelo facto de Mitchum ter sido posteriormente o protagonista do primeiro Cape Fear, para o qual o actor transportou, e louvo-me em opiniões de terceiros, a mesma brutal capacidade de ameaça física.

Mas um filme muito mais recente que O Cabo do Medo evoca irresistivelmente é O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme, interpretado por Anthony Hopkins. O traço comum mais forte resulta desse ar de conto de fadas que exibem: ambos querem aterrorizar, para muito mais e melhor, a seguir, maravilharem. Não era outra a intenção de histórias infantis como a do Pequeno Polegar, por exemplo. O tópico é reforçado, no filme de Martin Scorsese, pelas réplicas de De Niro, a si mesmo se chamando lobo mau e mencionando a floresta como sua origem. O tratamento da personagem de De Niro, concedendo-lhe, a par de poderes quase sobrenaturais de controlo e resistência físicas, uma convicção de pureza moral inultrapassável, contribui, finalmente, para valorizar o seu lado elementar, o de um símbolo extremo do Mal. Como um dragão, em O Cabo do Medo o guardião de todo o mal e de todos os pesadelos chama-se Max Cady. Melhor, Robert De Niro, pronto para o Óscar de melhor actor, que, não por acaso, irá perder para outro dragão, de parecido mal e parecidos pesadelos, chamado Anthony Hopkins.

E já agora, um pequeno dicionário que vai de
Censura a Medo

CENSURA — O primeiro Cape Fear levou sopa dos censores britânicos. A crítica liberal da época fartou-se também de lhe lançar suspeitas morais. Agora, O Cabo do Medo, à conta do horror crescente dos assaltos de De Niro à tranquilidade do lar de Nick Noite, fez a crítica americana encolher-se nas cadeiras. «Basta com tanto horror», gemeram eles, a pensar nas noites de insónia com olhos do lobo mau a faiscarem no escuro.

Deontologia — No primeiro Cape Fear, o motivo da vingança do psicopata era o testemunho que Sam Bowden prestara contra ele; agora é a omissão feita pelo advogado de defesa dos dados favoráveis ao réu, acusado de violação de uma rapariga. A mudança de motivo não é inocente. O advogado de defesa, convencido da culpabilidade do seu constituinte, omite o facto de a rapariga violada ter antecedentes de vida sexual promíscua. O advogado faz justiça pelas suas próprias mãos: para além da quebra deontológica, manifesta uma genérica descrença no sistema jurídico. O Cabo do Medo faz ainda passar, de forma subliminar, a ideia de que, num caso de violação, a parte ofendida passa também a ser julgada, confirmando assim, pela ficção, o que as imagens televisivas de recentes julgamentos famosos (o caso do juiz Clarence Thomas e o caso do jovem Kennedy) mostraram à saciedade.

Ficha Técnica — Começa com um genérico fabuloso assinado por Elaine e, claro, Saul Bass. Registe-se a utilização, pela primeira vez na carreira de Scorsese, do formato «scope» (tão bom para os grandes planos, dir-se-ia vendo o resultado final). O Cabo do Medo é depois servido por três trabalhos técnicos de altíssima qualidade: a fotografia de Freddie Francis, a montagem de Thelma Schoonmaker (assombrosa a sequência final) e a música de Elmer Bernstein, que adapta a partitura original de Bernard Herrmann.

Gratidão — A Universal, indo muito além do que se espera de uma produtora, suportou financeiramente a loucura de Scorsese chamada A Última Tentação de Cristo. Scorsese é bem formado. Quis agradecer. O Cabo do Medo, cumprindo as regras de um género simpático à indústria, é um belo testemunho de gratidão. A Universal percebeu e, como com os amigos não se cortam as unhas rentes, recheou o presente com 34 milhões de dólares, o orçamento final do filme.

Medo — Nick Nolte e a família vão ao cinema. Duas filas à frente, um homem fuma desalmadamente um charuto e ri-se que nem um alarve. É assustador. O melhor terror, em O Cabo do Medo, nasce a contrapêlo do sentido mais imediato e óbvio das cenas. As cenas mais arrepiantes são, se nos limitarmos a vê-las com objectividade, cenas de sedução amorosa. Curiosamente, algumas das cenas mais convencionais de horror têm um insólito fundo humorístico. Em O Cabo do Medo, o sexo faz medo e o medo faz rir.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

2 respostas a o sexo faz medo e o medo faz rir

  1. albertino.ferreira diz:

    Gosto de quase todos os filmes do Scorsese, especialmente do “Taxi Driver” mas este “Cape Fear” não é dos seus melhores, apesar de todos os dicionários e de todas as interpretações psicanalíticas. Paciência!

SEJA TRISTE, COMENTE