Os discos e a tuberculose

Foto: Paul Heartfield

A história vem toda, e muito bem contada, aqui, na New Statestman, e em muito bom inglês. Resumo na branda língua portuguesa, aconselhando leitura do original. Na velha União Soviética, depois da II Guerra, com Estaline e depois de Estaline, até 1964, quem gostasse de ouvir música que não fosse clássica ou folclórica, passava um mau bocado. Não havia, e não era respeitável, nem responsável ouvir-se o Rock Around the Clock para dar uma bom exemplo. Esse melómanos desavindos eram mal vistos, por causa do gosto burguês e pelo seu interesse pelos padrões ocidentais, fosse jazz, fosse rock. Ou mesmo pelo seu vivamente desaconselhável apreço por formas underground de música russa.

O que fazer?, já perguntava Lenine. O que fazer?, começaram a perguntar estes homens e mulheres que queriam divertir-se e dançar. Foi então que alguém criou uma traquitana, pesadona como o raio, que era capaz de gravar discos como se gravavam no vinil. Mas gravar em que suporte? E foi então, tal como se conta no artigo que vos recomendo, que alguém descobriu que se podia gravar em cima de radiografias. Os hospitais deitavam fora, ao fim de um ano as radiografias e esse exército musical das sombras apanhava-as e, depois de as cortar em forma de disco, gravava em cima e a 78 rpm tudo o que fosse música proibida. Parece que o som era o mesmo de um ovo a estrelar ou de uma agulha a raspar em areia, mas desde que se ouvisse e desse para dançar…

Era tudo traficado, tudo clandestino, dava prisão, mas o prazer desmedido que tudo aquilo dava era muito superior à voz da proibição. Para que nada nem ninguém, nem mesmo um machado corte a raiz ao prazer tudo serve o anseio humano, até a radiografia de uma fractura ou de uma tuberculose.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Os discos e a tuberculose

  1. Bea diz:

    Curiosa descoberta. Eu acho que a tuberculose ficava contente de se findar em música. Mesmo com rugido.

  2. Creatur diz:

    suportamos tudo ….com um pézinho de dança.

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