Os pianistas

 

 

 

Por razões que não vêm ao caso, mas que um dia destes se hão-de ver, o comunismo caiu-me em cima e ando soterrado em literatura ensaística de Outubro. De 1917. Comecei com Lenine. E não, não é o Lenine da Cinemateca que, já um dia contei, a minha mulher em lágrimas, entrando pelo gabinete do João Bénard da Costa, anunciou em soluços: “Morreu o Lenine, João.” E logo ele, atrapalhado por a saber tão comunista: “Oh Antónia, caramba, já morreu há que tempos.” E a Antónia, prontamente: “João, não é esse, é o nosso Lenine.” Não é com esse saudoso e macilento Lenine, presença permanente nas sessões da Cinemateca, vigilante de todas as gralhas e falhas nos texto que a Cinemateca publicava, que me ando a entreter. É mesmo com o Vladimir, o Ulianov e bolchevique. Li-o, li-lhe biografias, li ensaios sobre a economia russa, sobre 1905 e 1917, e vou agora quase no fim das memórias do seu figadal adversário, Kerenski.

Para arranjar tempo para ler tudo isto, precisei de ler, ver e ouvir derivas e outros sonhos. Podia dizer que fui ver o Paterson do Jarmusch, e fui, mas isso é o que direi no Expresso de sábado que vem.  Adiante.

Mas o que quero dizer é que ainda bem que antes de ir ver o Paterson já andava a ler, e continuo, O Pianista de Hotel, de que é autor o Rodrigo Guedes de Carvalho. E não é autor coisa nenhuma, porque até páginas 201 deste Pianista os autores deste livro são os olhos de uma personagem e os ouvidos de outra.  O romance que esses ouvidos e olhos escreveram, substituindo-se ao Rodrigo, seu pretenso autor, apanham-me no momento certo da minha vida. Também os meus olhos e os meus ouvidos ganharam vida própria, ficando muito mais velhos do que eu, e por isso se sentem irmãos dos ouvidos da personagem do Pianista que ouve vozes que mais ninguém parece ouvir (e a própria personagem tem algumas dúvidas) e dos olhos da outra personagem que vê uma mãe que a parva, parvíssima objectividade garante rotundamente já estar há muito morta e enterrada.

Um dia perguntarei ao Rodrigo, cujos olhos e ouvidos ainda são muito mais novos do que ele, quem lhe contou este segredo da autonomia federativa de olhos e ouvidos, mas a páginas 201, e se o suspense, uma trama de linhas paralelas e uma prosa sóbria fazem as delícias do vosso palato narrativo, vão ver este hotel e ouçam o pianista.

Má fortuna de outro pianista, Júlio Resende, são os meus descomandados ouvidos que o andam agora a ouvir. Estranhando pessoanamente a heteronímia com que aqui Alexandre Search o absorveu. tenho de dizer ao Júlio que até o Lenine (o de 1917, não o da Cinemateca), obstinado fã da Apassionata de Beethoven, se exalta com ele, intrigado com a forma como, quando toca, o corpo de Resende se desfaz, a cabeça em voo picado pelos ombros abaixo, os braços em câmara lenta de cinema mudo.

E já tinha ouvido e hei-de sempre ouvir Fado & Further, onde se ouve a voz de quem ali nem canta, fantasmas dos meus sonhos e dos meus medos, dessa estranha forma de vida que é o século XXI a debruçar-se sobre o século XX.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Os pianistas

  1. Bea diz:

    Júlio Resende é pianista e pessoa que admiro. O romance…do que não se sabe, não se pode falar.

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