Não me posso queixar (2)

(Capítulo 1)

2

— Hoje trago-lhe gota — disse o morto que chegou coxeando.
O vagabundo aguardava-o nos degraus das escadinhas tortas. Parecia que nunca dali saíra nem mudara de posição. Tudo nele era igual: o mesmo aspecto, a mesma roupa imunda, o mesmo olhar esperto, a única excepção era a garrafa de branco, que tirou do casaco que lhe servia de manta. Esta tinha um rótulo conhecido.
— Vamos lá ouvir essas queixas — disse o vagabundo visivelmente satisfeito.
Havia um mês que se encontravam nas escadinhas. Nunca o vagabundo esperara que o morto fosse tão assíduo e pontual, nem que esta lucrativa relação durasse. Mas ele ali estava de novo, à hora combinada, pronto a desfazer-se em queixas. E trouxera uma queixa dolorosa, sentida na pele, e não uma dor hiperbolizada para dar sentido a angústias banais. Fora esse o trabalho do primeiro mês: substituir queixas banais e sem drama digno por queixas com verdade escatológica. Acabar com os foros de drama urdidos pela palavra, onde angústias se fingem dor, pondo o verbo ao serviço dos verdadeiros ais. E ais era o que o morto trazia.
Não era a primeira vez que tinha um ataque de gota. Já no passado fora afligido por esta maleita velha de séculos mais literários. Desta vez o destino e os Deuses imortais tinham-se conjugado para lhe proporcionar um padecimento épico, quase religioso, que durou todo um fim-de-semana. Um fim-de-semana de imobilidade e dores de uma plenitude tão acintosamente aguçada e tão aguçadamente insuportável que, para as descrever, teria de recorrer a um vocabulário e a um imaginário tão vetusto e de antanho como a condição de que sofria. E ainda sofria, quando chegou à sessão, mesmo já passados alguns dias; mas também era grande o orgulho que sentia na sua dor de verdade. Afinal, como o vagabundo lhe tinha feito ver logo nas primeiras sessões, citando hinos a Deuses antigos, é sofrendo que o insensato aprende porque a dor obriga a reflectir.
— A culpa é da carne — disse o morto — literalmente da carne, que não é fraca, mas antes gorda. E também do álcool, pois sem o bom vinho não vale pede darmo-nos ao prazer da carne. O meu bisavô dizia que para o pecado da carne, quanta mais carne melhor.
Daí a gota. Doença de príncipes e reis, os poucos que no passado comiam proteína em quantidade suficiente para alimentar o privilégio da maleita. O morto também gostava de carne. E também tinha reis e duques como antepassados longínquos. Deles herdara a predisposição para a gota, para além um solar no Minho – que partilhava com mais um cento de primos e cuja decrepitude (do solar) disfrutava três dias por ano – e uma ligeiríssima, embora não incapacitante, imbecilidade. Esta última provocada por uma educação excessivamente orientada para convenções sociais de modo a evitar-se qualquer pensamento inusitado, original e, assim, desconfortável. Enfim, toda uma herança que vinha, como é norma nestes casos, atada com um nome carregado de pesadas expectativas.
— Mas vamos à dor propriamente dita — disse o vagabundo, reorientando a conversa. — Queixe-se lá, homem! — concluiu e bebericou um trago do bom branco, bem mais aceitável do que o vinho das últimas sessões.

Durante o fim de semana, no almoço anual com os primos, tinha-se entregue ao tinto, à perdiz e ao javali. Já sabia que ia ter um ataque de gota, mas como dizer não ao tradicional repasto e desiludir a família? Dizer não era comportamento que dominava mal. Nunca tinha aprendido a recusar. Fora educado no salamaleque do positivismo, da boa cara e da concordância. Não, não se dizia (a não ser para admoestar cães e criados). Para mais, há anos, desde que se conhecia, que comparecia a este almoço. Não podia recusá-lo e muito menos sentar-se à mesa e pedir um prato de tofu, ou uma saladinha verde, ou beber apenas limonada. Era um almoço de família, com caça, vinho, pão alentejano e queijos absurdamente gordos e salgados. Uma tradição. E as tradições, como aprendera, eram para ser honradas, mesmo as que provocam a acumulação de cristais de ácido úrico nas articulações dos dedos dos pés. E, no íntimo, embora não o admitisse, não queria deixar passar a oportunidade de experimentar o épico sofrimento da gota e ter assunto que partilhar nas escadinhas. Foi o que aconteceu, muito para além das suas expectativas e por causa da bisavó.
Quando a dor começou, o morto estava ainda na herdade onde tinha almoçado com os primos e onde resolvera passar todo o fim-de-semana, que era dos grandes. Também a herdade era das grandes, embora já tivesse sido maior. Mas os comunistas, primeiro, e as dívidas contraídas pela imperícia dos primos para o trabalho, depois, haviam encolhido os hectares. Manteve-se a casa, no entanto, e com ela uma aparência de dignidade antiga encarnada pela bisavó. Uma mulher de preto, magra, baixa e curvada, daquelas mulheres que vivem a vida toda em dor e não morrem nunca. Era a bisavó que dirigia a casa e tudo organizava com espartana austeridade de que era exemplo a recusa em tomar anti-inflamatórios. Nem um havia nas muitas gavetas das muitas cómodas escuras que ensombravam os muitos quartos mal iluminados por causa do calor. Nem esteroides, nem não esteroides. Nem colchicina, nem alopurinol, nem probenecida. O único consolo para as dores, em toda a casa, eram crucifixos. Restou, assim, ao morto suportar a dor vociferando.
“Foda-se, já sabia que esta merda ia acontecer. Foda-se, caralho, puta que pariu a gota!”
Nas primeiras doze horas, enquanto os aguçados cristais de ácido úrico se incrustavam na articulação do dedo grande do pé, aumentando as dores, os impropérios, que iam crescendo de volume, cor e frequência, ecoaram pelos corredores obscurecidos da casa chegando, inevitavelmente, aos ouvidos da bisavó, a senhora dos crucifixos, que correu a admoestá-lo veementemente fazendo-o saber que a sua ordinária impaciência ofendia o Senhor. O Senhor, dizia ela, com toda a certeza tinha-lhe enviado a dor nos pés como medida das suas transgressões passadas que – ela sabia-o bem e, portanto, Ele também o sabia – eram muitas e graves; e que tinha de a suportar, a dor, com satisfação e sem anti-inflamatórios, pois ela era uma dádiva do Altíssimo pelas dívidas dele; e que também o Senhor tinha, por todos nós, suportado a dor que as cavilhas Lhe tinham provocado nos pés quando o pregaram na Cruz. E acrescentou, para terminar o sermão, que a gota, de que o defunto bisavô também sofrera como medida, porventura, do pecado das putas a que se dedicava todos os anos na Primavera – quando mentia que tinha de ir a Sevilha mandar fazer umas botas novas, e depois voltava lá para as provar, e depois para as ir buscar, num total de duas semanas de cada vez durante as quais torrava metade dos proventos do ano – que a gota, dizia ela, sofrida por ele, que era o que mais se parecia com o bisavô, com abnegação, vontade e sem anti-inflamatórios, como queria o Senhor, acabaria por saldar as dívidas e salvar as almas dele e do defunto. Não era por acaso que era gota, e que era nos pés: era por causa da mentira das botas e do pecado das putas, disse a bisavó.
E a verdade é que a parábola das botas e das putas em Sevilha assentava como uma luva à situação; do mesmo modo que, outrora, as botas assentaram como luvas nos pés do bisavô, pois era em Sevilha que havia os melhores sapateiros. A dor parecia resultar de umas botas justas, forradas por dentro com dezenas de pequenos e aguçados pregos de medida seis por seis. Um padecimento bíblico.
— Meu Deus! — exclamou o vagabundo, que tinha estado suspenso nas palavras do morto.
— Pois foi em Deus que pensei durante todo o fim-de-semana. Sem anti-inflamatórios era tudo o que me restava. E perguntei-me muitas vezes se a dor é coisa do diabo ou do bom Deus.
— E a que conclusão chegou?
O morto ponderou a resposta, deixando o silêncio da velha cidade tomar conta das escadinhas. O vagabundo emborcou mais um golo do muito razoável vinho e soltou um pequenino arroto.
— Não cheguei a conclusão nenhuma — respondeu o morto. — Continuo a debater: será a dor um modo do bom Deus nos remeter ao caminho, castigando o corpo pelos desvios, pelos atalhos e estradas secundárias que nos levam à concupiscência e ao pecado? Ou será a dor um divertimento do diabo, que tem no humano o seu parque de diversões? Ou, ainda, será o diabo, que me cravou os pés com pregos afiados, apenas um ajudante do Senhor, um subempreiteiro, por assim dizer, a quem o Senhor delega esta empresa menor, estes trabalhos que são o padecimento dos mortais, enquanto Ele se dedica às grandes tragédias e cataclismos?
— Belíssimas perguntas, mas a hora acabou. São cinquenta euros.
— Já?
— É verdade. O tempo voa quando se o passa bem.
— Para semana à mesma hora? — perguntou o morto.
— Aqui estarei — respondeu o vagabundo recolhendo as notas no sobretudo.

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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7 respostas a Não me posso queixar (2)

  1. albertino.ferreira diz:

    Ah! como eu compreendo as vociferações do morto; também eu. e ainda estou vivo. já sofri terríveis ataques de gota. que não desejo a ninguém. nem ao pior inimigo. Felizmente que graças ao zyloric 300 essa “puta” que ninguém pariu não me tem apoquentado ultimamente. Já que estamos a tratar de mortos que falam sugeria a leitura do romance de Jean Dutourd “Journal intime d’un mort”.

  2. O texto está quase nos trinques. Gosto particularmente da questão do responsável da dor, o sacana e desgraçado diabo ou bom Deus. Imaginemos por um segundo que se tinha inventado o pobre diabo. Poderia a humanidade viver sem o filho da puta do diabo?

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