Não me posso queixar (3)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)

3

— Hoje podemos falar dos males e das dores do coração?
— Concretamente?! — exclamou o vagabundo com perplexidade perante a recaída do morto.
— Talvez hoje me pudesse queixar da incapacidade de amar para além da volúpia inicial da carne. Uma volúpia que, uma vez saciada, dá lugar a um vazio que cresce como cresce o negro de um poço quando não chove…
O morto fez uma pausa para deixar soar o símile. O vagabundo retirava o estanho do gargalo da garrafa e preparava-se para sacar a rolha. O morto continuou.
— … e em redor desse vácuo tudo seca irremediavelmente, e o coração definha como definha um músculo que não é exercitado, e dói uma dor que não se sente, nem corpo, nem nos nervos, nem na carne, mas antes no fundo do poço, por assim dizer.
O vagabundo arregalou os olhos ao céu, suspirou tédio pelo nariz e fez saltar a rolha da garrafa com um pop eloquente.
— Não tínhamos combinado esgotar antes as dores que doem? — perguntou o vagabundo.
— Tínhamos, é verdade, mas eu pensei que talvez hoje pudéssemos…
— Eu preferia esgotar as outras dores, as que doem mesmo. Isto é, se tiver mais queixas dessas.
— Este fim-de-semana doeu-me um cotovelo — disse o morto e mostrou-o inchado, um trambolho na articulação do braço direito.
— Olha, aí está um clássico. Fale-me lá disso.
À hora combinada, o morto apareceu para se queixar, e o vagabundo lá estava sentado nas escadinhas com o mesmo desleixo e pose displicente, como se nunca de lá tivesse saído. Apenas a garrafa de vinho branco tinha mudado outra vez. Esta tinha um rótulo medalhado. Também havia um copo de pé longo e um balde de plástico com água e pedras de gelo para manter o vinho na boa temperatura.
Durante as últimas semanas, e depois de um auspicioso primeiro mês, as dores de que o morto se queixava, ao contrário do branco, vinham a decair de qualidade, drama e emoção. Eram meras dores de cabeça, ou uma “incomodativa” dor no externo, como que provocada por um peso, ou um torcicolo resultado de uma corrente de ar frio que soprou pela janela durante a sesta, ou uma dor na garganta inflamada por um imprestável micro-organismo sem nome, ou uma picada de vespa na mão que tinha alastrado de articulação em articulação até ao ombro transformando-se num inchaço quase perigoso, que tivera de ser tratado com anti-histamínico e antibiótico; enfim, banalidades sem intensidade. A última queixa com algum interesse tinha resultado de um corte profundo na unha do indicador, a todo o sentido do dedo, separando a unha em duas metades iguais. A mutilação, que o médico declarou permanente dado o sentido do corte – a unha cresceria, para sempre, em duas metades distintas, como se fosse um casco de cabra –, que acontecera enquanto cozinhava uma refeição tipo gourmet para amigos, ocupação de acordo com as tendências da actualidade, foi narrada com detalhe vívido e atenção aos pormenores que foram muitos e sanguinolentos. As dores, que o morto sentiu aguçadas e penetrantes como o fio da faca japonesa, e que quase lhe provocaram uma reacção vasovagal, deram uma sessão de belos símiles, hipérboles e comparações inusitadas; a uma boa sessão, a mais interessante que o vagabundo ouvira nas últimas semanas. Mas, tirando a unha em forma de casco de cabra, nenhuma das últimas queixas tinha tido qualquer interesse. O processo atingira o marasmo. Hoje seria a dor de cotovelo.
O vagabundo encheu o copo, suspirou e recostou-se para ouvir a queixa.

Inadvertidamente, o morto tinha batido o cotovelo com violência contra a esquina de uma estante enquanto rearrumava livros procurando, pela enésima vez, uma ordem lógica, irrefutável e prática para o seu acervo bibliográfico que era considerável. Já tinha tentado a ordem alfabética, que resultara numa ilógica mixórdia de temas; já tinha tentado a ordem alfabética dentro de outra mais vasta, a dos assuntos, mas a biblioteca revelara-se maçadora e previsível, com a personalidade de uma livraria de centro comercial; também já tinha tentado arrumar os livros por nacionalidades dos seus autores, mas esbarrou com o Nobokov. Ultimamente, e porque era um ser sensível e visual, tivera a ideia de arrumar as lombadas por tons: blocos inteiros de amarelo, junto a outros laranjas, depois os avermelhados, os rosas, até chegar aos azuis, para concluir com um bloco de lombadas pretas. Quando terminou a tarefa, que lhe levou boa parte de dois dias, e toda a estante era um arco-íris de lombadas, o efeito cromaticamente previsível não foi do seu agrado. Irritado, resolveu recomeçar tudo de novo, o que lhe levou mais uma boa parte de outros dois dias, arrumando os livros por assuntos, ainda que mantendo as lombadas ordenadas por espectros de cor: um arco-íris de ficção, um arco-íris de História, uma arco-íris de poesia, um arco-íris de ciência, outro de filosofia. Uma biblioteca fragmentada numa colorida de manta de retalhos que era, afinal, como a sua cabeça funcionava. Quando procurava um livro, lembrava-se sempre e em primeiro lugar da cor dele. Os Heinleins, por exemplo, eram todos cinzentos. A trilogia do Smiley, do Carré, era preta. Os Karamazov eram esverdeados, como verde era o Crime e o Castigo. Já o Idiota era azul e por essa razão encontrou o seu lugar junto de duas Agustinas, das obras completas do Azimov, do Hitchiker’s Guide to the Galaxy e de uma colectânea de contos do Elmore Leonard. Não muito longe encontravam-se os azuis clarinhos, e entre eles O Coração das Trevas e a Odisseia que partilhavam o mesmo azul celeste quase brumoso. Curiosamente, o Vitória partilhava o mesmo vermelho tinto da Ilíada.
— Algum sentido há-de ter esta coincidência — disse o morto fazendo um silêncio meditativo que fez cair a cabeça do vagabundo, acordando-o.
— Continue, continue – disse o vagabundo, disfarçando interesse e reenchendo o copo.
Foi quando estava a arrumar um livro de um novíssimo autor da velhíssima escola necroliterária – cujos seguidores fazem carreira imitando escritores mortos – livro que lhe fora oferecido, mas que não tinha lido nem fazia tenção de ler, que bateu violentamente na esquina da estante. A dor no cotovelo, logo no cotovelo direito, foi fulminante como o foi o inchaço que se lhe seguiu. De imediato abandonou a tarefa, maldizendo o autor mais a quem o editou, para se recostar no sofá com o cotovelo apoiado num saco de gelo durante a boa parte de mais dois dias; impossibilitado de jogar ténis, de produzir rimas sobre as suas angústias – o que fazia manuscrevendo com uma caneta de aparo, de modo a aportar aos emasculados queixumes uma genuinidade de fim de século (XIX) –, de erguer um livro, sequer, ou mesmo de puxar pelo macaco, tarefa a que se dedicava com a mesma regularidade com que os seus intestinos trabalhavam.
— E como é que resolveu a coisa? — perguntou o vagabundo olhando concentrado para a garrafa de branco que ia a pouco menos de meio como a sessão. — O cotovelo ainda dói?
— Dói. Dá-me ideia que vai doer sempre. É o género de coisa que já não passa nesta idade. Sei que aqui e ali a dor de cotovelo reaparecerá. É inevitável — disse o morto.
Ainda assim não era caso para a cortisona. O velho diclofenac 100 mg, de libertação prolongada para não acicatar a úlcera, parecia ser suficiente. Mas o ténis nunca mais seria o mesmo. Algo que implicaria com a sua rotina, e sem a sua rotina sentia-se perdido. O morto havia enchido todas as horas do dia com as mais diversas actividades para evitar pensar naquilo que devia fazer. Agora, havia mais quatro horas da semana para se dedicar ao nada.
— Talvez arranjar outra dor mais forte? — sugeriu o vagabundo, enquanto pegava delicadamente no pé do copo fazendo rodar o vinho.
— Como assim?
— Se tem mais tempo para se dedicar a dores sem sentido – e note que digo sem sentido apenas porque não se sentem na carne, nem na pele, ou seja, através do sistema nervoso, não que não façam sentido para si, de um modo significante, mas, a certo nível, por certo muito básico, não fazem sentido para o seu corpo, senão sentiam-se a sério – talvez devesse, para se entreter, arranjar dores maiores.
O vagabundo fez uma pausa para dar um golo e esvaziar o copo. Depois voltou a enchê-lo com o que restava na garrafa, ofereceu ao morto, que declinou, e continuou:
— Parece-me que essa dor de cotovelo é uma dor menor. Uma dorzinha, apenas capaz de produzir lamúrias e não queixas viris. Quando combinámos estas sessões foi para ouvir queixas e não lamúrias. Queixas de consequência, queixas com drama e enredo, que comovam quem as ouve, que arrepiem e impressionem. Esta dor, de que hoje se queixou, é uma dor medíocre, e o inchaço apenas um altinho no cotovelo que parece ser onde você guarda o ego. Se vamos continuar este trabalho, de uma forma séria, preciso de dores épicas que resultem em queixas agonizantes. Para a próxima sessão quero que me traga uma dor heroica, uma dor miserável, das que não se aguentam. Caso contrário é porque não tem nada de que se queixar. Nem vale a pena aparecer.
— Está a dizer-me que devo provocar uma dor em mim mesmo, de forma masoquista?
— Fazer o mal e a caramunha, não é o que se diz? Não é isso que tem feito toda a vida com todas aquelas dores que não se sentem na pele? Essas dores do coração, e da alma, e do ser, e do fundo do poço e mais ó caralho?
O morto ficou calado, aturdido com a violência das observações. Seria mesmo assim? Seriam as dores poéticas, dores que ele convocava em si mesmo? Uma espécie de mortificação psicológica para combater, subconscientemente, a frivolidade a que votara a sua vida?
— É essa a tarefa para a próxima semana. Arranjar uma dor que doa. A nossa hora acabou.
— E como é que eu faço isso?
— Sei lá, procure que há-de encontrar qualquer coisa: cilícios, coroas de espinhos, camas de pregos, chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. E estes são apenas clássicos. Estou convencido que também a mortificação sofreu um upgrade nestes tempos mais digitais. Procure na internet.
Ficaram calados, cada um com os seus pensamentos. O morto dobrado sobre si, com os cotovelos nos joelhos e cabeça apoiada nas mãos, pensava em chicotes de rabo-de-gato com nós na ponta. O vagabundo, olhando o balde onde jazia a garrafa vazia de vinho branco medalhado, dava-se conta de como ele era feio, o balde, de um verde muito rasca como só o plástico conseguia fixar.
— São cinquenta euros.

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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8 respostas a Não me posso queixar (3)

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  2. “O vagabundo fez uma pausa para dar um golo e esvaziar o copo” Estamos perante um chuto ou um trago?…

    • Pedro Bidarra diz:

      Estamos perante o esvaziar do copo, Sr. Teixeira, para depois o reencher. Mas sugestões de revisão são bem vindas.

  3. Ana diz:

    O Pedro não se pode queixar, escreve muito bem!

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