Não me posso queixar (4)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)
(Capítulo 3)

 

4

O morto não apareceu. Era a primeira vez desde que tinham começado o processo. O vagabundo esperou sentado toda a hora que tinha destinada a ouvir as queixas do morto, reflectindo e bebendo um arinto fresco, frutado e com muito boa acidez: um branco nascido às costas de Lisboa, ali em Bucelas.
Talvez o morto não tivesse do que se queixar. Talvez tivesse passado uma semana sem padecimentos significativos, o que seria uma raridade, pensou. Ou teria, por ventura, ficado incomodado com o trabalho de casa: procurar e infligir a si mesmo uma dor épica e agonizante? Ter-se-ia acobardado? Não cria. Não era do feitio do morto, a cobardia. Podia ser melancólico, um pouco emasculado, até, por força dos tempos modernos e da educação excessivamente convencional, mas cobarde não era. O mais provável, depois das palavras do vagabundo na última sessão, era estar à procura de uma dor surpreendente e, não a tendo experimentado ainda, não se dignasse a mostrar a cara sem nada que contar, para não desiludir. O vagabundo estava confiante que assim era, e que a sua renda e o bom vinho não parariam de evoluir favoravelmente. A mortificação e a dor autoinfligida eram o passo lógico neste proveitoso processo terapêutico. Não havia outra solução. A relação estava a resvalar para o tédio. As queixas estavam a tornar-se banais, adamadas, quase psicológicas, de telenovela; e o morto estava a regredir a um estado de pusilanimidade sem qualquer interesse narrativo. Afinal o vagabundo estava ali para escutar dramas. Fora preciso por um travão na relação. Foi o que fez, ainda que pudesse ter ido longe demais. É claro que se arriscava a perder um cliente, mas, com o pecúlio que já ganhara, e se o gerisse bem, conseguiria beber soberbamente durante mais duas semanas.
A hora escorria. O vagabundo meditava. E bebia o arinto fresco, frutado e de boa acidez, como é normal nesta casta. É difícil estragar um arinto, pensou. Quando a hora e o vinho terminaram, despejou a água gelada do balde verde de plástico e foi escadinha acima até outra paragem.

(continua)

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Ficção, Post livre. ligação permanente.

11 respostas a Não me posso queixar (4)

  1. ana marchand diz:

    o balde só tinha água? quê do gelo?

  2. A Vieira diz:

    O mesmo se passa com os actuais geringonços:

    “O vagabundo estava confiante que assim era, e que a sua renda e o bom vinho não parariam de evoluir favoravelmente.”

    • Pedro Bidarra diz:

      É da natureza humana. Geringonços, banqueiros, subsidiados, empresários. Somos uma pequenina comunidade de muitos “rentiers” e poucos “speculators”

  3. Rita diz:

    Fiquei mais de 7 dias à espera do morto e afinal nada! A narrativa irritou-me ou por preguiça sua PEdro (autor) ou grande sabedoria. Mas irritou-me, esperei em vão!!!

  4. Bea diz:

    Pois é, a gente chega aqui e falta um. Não se faz. Vamo-nos com a expectativa incompleta. O morto, mesmo morto, faz falta.

  5. Pingback: Não me posso queixar (6) |

  6. Pingback: Não me posso queixar (3) |

SEJA TRISTE, COMENTE