Não me posso queixar

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— Não me posso queixar — disse o morto. — E tu como estás?
— Estou óptimo — respondeu o amigo.
Seguiu-se um silêncio do tamanho de um pequeno embaraço, mas o olhar educadamente convidativo do morto e um “Pois, já ouvi dizer” incentivaram o amigo a continuar dando conta das graças que destino sobre ele derramava com a mesma inevitabilidade e ritmo com que sucedem marés e estações do ano. Se era mesmo assim, se estava mesmo óptimo, saber-se-ia mais tarde quando alguém ciciasse ao ouvido do morto o que já todos desconfiavam: que afinal as coisas não iam assim tão bem. Disso sabia o morto que já tinha trocado muito retórico cumprimento ao longo da vida. Sentia-o pelo modo como o seu amigo narrava uma linear e inverosímil sucessão de eventos que se haviam conjugado para lhe entregar tudo o que ele tinha sonhado e que era, precisamente, tudo o que todos esperavam dele.
O morto também mentia. Mentia quando dizia que não se podia queixar. É claro que se podia queixar. Talvez até o devesse fazer. Mas não se queixou. Muito menos o faria diante de quem estava óptimo. Não ia estragar uma história de belas coincidências e de encontros felizes, de portas que se abriam magicamente revelando escadarias que conduziam a claustros de vistas desafogadas sobre jardins com patos, onde confortáveis poltronas aguardavam a amena e educada cavaqueira que era, afinal, o trabalho do amigo. É pecado, senão mortal pelo menos social, estragar uma boa balela. E queixar-se de quê? De ter os brinquedos todos? De ter boa saudade e aspecto? De ter o dinheiro que precisava? De ser dono do seu tempo e de si próprio? Do talento que Deus lhe tinha entregue e que os outros, generosamente, lhe reconheciam? O morto não tinha do que se queixar. Queixar-se da procrastinação? Das doenças do amor? Da concupiscência? Não eram assuntos que dessem boa conversa. Dariam livros, se houvesse paciência para os escrever bem, ou filmes, ou séries dramáticas, se se acrescentasse um twist malévolo, ou, mais provavelmente, comédias; mas conversas entre amigos de copo na mão, não. A queixa, em certos círculos, mais do que uma maçada, é falta de educação. A malta aguenta, faz boa cara e toma comprimidos. Por alguma razão se inventou a psicoterapia, todo um serviço dedicado à queixa e pago à hora; pois só recebendo, alguém se dispõe a ouvir lamúrias e estados de alma sem solução.
“Como vão as coisas?”, “Não me posso queixar”.

Nessa noite, terminado o serão em casa dos amigos, o morto deambulou sozinho pela velha cidade com o peito prenho de queixas mudas. Durante um bom par de horas percorreu ruas e vielas sem rumo, debatendo, obsessiva e infrutiferamente, pensamentos enredados num emaranhado de paradoxos e incoerências, como um cardume de peixes se debate nas redes, e quanto mais os debatia mais os pensamentos se enredavam e não iam a lado nenhum.
— Ó chefe, não me arranja uma moedinha para comer qualquer coisa?
Nos degraus tortos de uma escadinha que escorria por entre prédios velhos, um vagabundo barbudo e magro, de cara tisnada da rua e roupas comidas pelo sol e pelo sujo, estendia-lhe a mão. Um daqueles homens que teria, com toda a certeza, razões de queixa.
— É mesmo para comer? — perguntou o morto.
O vagabundo olhou-o. Não de olhos caídos e suplicantes, como é do protocolo da mendigagem, mas com um olhar penetrante dirigido aos olhos do morto e até para além deles, como que a tentar perceber o homem que o morto era.
— Na verdade é para beber — disse o vagabundo. — Mas se eu disser que é para beber ninguém me dá nada.
O morto puxou da carteira.
— Dou-lhe cinquenta euros se me ouvir queixar durante uma hora.
— Ó homem. Sente-se e comece.
O morto sentou-se nas escadinhas. O vagabundo tirou uma garrafa de vinho de dentro do casaco e ofereceu-lhe um trago.
— Não obrigado — declinou o morto. — Começo por onde?
— Sei lá, por onde lhe der jeito. O amigo tem dores?
— Tenho.
— Onde?
— Cá dentro. Daquelas que se sentem cá dentro. Na alma, por assim dizer.
— E das outras?
— Das outras?
— Sim, das que doem mesmo.
— Ultimamente tenho dores na coluna. Uma hérnia, dizem-me, cá em baixo na lombar.
— Queixe-se lá disso então — disse o vagabundo enquanto se recostava confortável no degrau e levava à boca a garrafa de vinho branco sem rótulo. O morto queixou-se da hérnia.
Não era coisa que o incomodasse todos os dias. Era mais nas semanas em que jogava ténis, talvez por o fazer em pavimento duro e rápido. Apesar de usar calçado apropriado, a mecânica da corrida, as súbitas mudanças de direcção e o peso dos anos, porque outro peso não tinha a mais, eram capazes de ser a causa das dores. É claro que também o facto de passar muitas horas sentado a ler, não obstante o fizesse numa cadeira desenhada com esmero por artistas italianos, pudesse ser apontado como estando na origem da deformação e da maldita hérnia.
As dores, quando as tinha, apanhavam-lhe toda a perna direita, e a inflamação, pois era de uma inflamação que se tratava, alastrava ao nervo ciático provocando-lhe um andar incómodo, doloroso e bamboleante que o tornava amargo, irritadiço e incapaz de trabalhar. Chegavam a ser tão incomodativas, as dores, que ia ao ponto de esquecer as outras, as verdadeiras, as da alma que eram a sua principal preocupação e, de certo modo, a sua ocupação. Depois queixou-se mais, descrevendo com pormenor as noites passadas em branco:
Quando se voltava na sua metade da cama, adjacente à metade permanentemente vazia como o seu coração, o simples rodar do corpo para mudar de posição desencadeava uma pontada aguda, brilhante como aço e muito dolorosa. Numa escala de zero a dez, daria um convicto oito ao padecimento. Era como se alguém lhe espetasse um agulhão na lombar. Como se um espectro maligno, que imaginava com aparência humana, mas textura e viscosidade de batráquio, lhe surgisse no sono e o penetrasse com um estilete acerado pelo buraquinho entre a L4/L5 provocando uma dor infinita na intensidade e esvaziando-o de toda a energia. A única solução era a insónia forçada. Não que não tivesse vontade de dormir, mas nessas noites de terror lutava contra o sono com receio de mexer-se involuntariamente e provocar o reaparecimento da criatura de estilete em punho pronta a penetrá-lo pelas costas, dolorosamente.
— Foda-se! — exclamou o vagabundo, emborcando mais um golo do vinho branco rasca. — E eu julgava que tinha problemas.
O morto continuou:
Só graças à cortisona, que tomava moderadamente, embora sem prescrição médica porque era amigo da senhora da farmácia, lhe era possível voltar a concentrar-se nas nobres e substantivas dores que eram fruto do desamor e da prostração; as dores imprescindíveis à sua tristeza. Só a cortisona lhe permitia esquecer a hérnia para se concentrar no entendimento das causas remotas das suas queixas mais poéticas. Causas que jaziam enterradas, estava convencido, em memórias infantis. Uma convicção antiga aprendida em tempos de modas mais freudianas. Sem o potente anti-inflamatório esteroide, seria impossível sofrer as dores estupendas, as que não doem, mas moem e dão sentido à tristeza.
— Abençoada cortisona — disse o vagabundo levantando a garrafa em homenagem ao fármaco.
Com verve e minúcia, o morto passou uma hora à volta da inflamação na coluna, descrevendo o padecimento com o auxílio de símiles, metáforas e vívidas alegorias cujos protagonistas eram quase sempre súcubos de estilete em punho.
— Súcubos?! — perguntou o vagabundo enquanto esvaziava a garrafa.
— Sim súcubos.
— Não deviam ser antes íncubos? Afinal é você o penetrado.
Que não. Que embora fosse ele o passivo sujeito da dor, os espectros malignos que o visitavam e o penetravam pelo buraquinho na L4/L5 sugando-lhe toda a energia habitavam corpos de mulher. Eram súcubos, os seres que se deleitavam a escarafunchar-lhe a hérnia. Embora, segundo a opinião de alguns especialistas, a hérnia não chegasse a ser uma verdadeira hérnia (com derramamento do líquido do núcleo pulposo) mas tão só uma protusão discal. Ainda assim muito incomodativa e fonte de amargo sofrimento.
— A nossa hora acabou — disse o vagabundo estendendo a mão para receber o estipêndio.
A sessão passara rápida. As queixas que enchiam o peito do morto estavam à porta e atropelavam-se para sair, mas a hora acabara.
— Acha que podíamos fazer isto mais vezes? Talvez uma vez por mês? — perguntou o morto. — Sinto-me um pouco mais aliviado, curiosamente, mas sinto também que ficou muito por queixar.
— Uma vez por mês? — ponderou o vagabundo olhando a garrafa vazia. — Se calhar agora, no início, não era pior se nos encontrássemos uma vez por semana. O que me diz, dá-lhe jeito?
— Pode ser — disse o morto. — Na próxima terça-feira aqui nas escadinhas à mesma hora?
— Combinado.

 

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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10 respostas a Não me posso queixar

  1. Bea diz:

    Fiquei penalizada pelo infeliz morto mortíssimo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    tomaram os vivos estar assim tão mortos

  3. teresaconceicao diz:

    Ahaha. O que me ri com isto. Pedro. Que belo texto. Não sei se também deva chorar. Se calhar também me dava jeito um vagabundo ouvidor.
    E continua, que bom!

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