Ligações

Está tudo ligado.

O sol que se põe, o sorriso que se troca.
A raiva que se sente, a miséria que se olha.
A rudeza da paisagem, a beleza da manhã, o desespero do desânimo, da desesperança.

Está tudo ligado.

A genialidade de um urinol que passou a ser história, o céu dourado de Tintoretto que Rothko tanto gostava .
A guerra paga por quem produz civilização, a arte de uns para a barbárie de outros.

Está tudo ligado

O poder de uns na humilhação dos outros, a coragem de poucos que alimenta milhões.

Está tudo ligado.

O meu carro com o teu sol abatido, a minha água gelada  com a tua doença.
O animal que se abate para ser deitado fora,
O calor que uns sentem no frio dos outros que choram. O sol que queima, o gelo que mata.
A cumplicidade no mal, a hipocrisia do  bem.

Está tudo ligado

A minha segurança de ouro com tua instabilidade, tudo aquilo que tenho e tudo o que não quero dar.

A solidão com o teu egoísmo, a demagogia com a minha liberdade, a compaixão de uns com o narcisismo de todos.

Está tudo ligado.

E nem a morte desliga tudo.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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2 respostas a Ligações

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    É a vida que liga tudo, Bernardo?

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