Não me posso queixar (5)

(Capítulo 1)
(Capítulo 2)
(Capítulo 3)
(Capítulo 4)

5

 

A hora estava a contar. O morto tardava, talvez não aparecesse como sucedera nas semanas anteriores. O vagabundo aguardava-o, recostado nas escadinhas e apreciando um branco espetacular, feito de rabigato e viosinho e ligeiramente passado pela madeira, mas não o suficiente para lhe cortar a elegante e refrescante acidez. Um topo de gama. A garrafa refrescava-se num balde novo cheio de água e gelo. Um balde de metal reluzente que suava pequenas gotas de água, brilhantes como pérolas, que contrastavam com a habitual imundícia que do vagabundo emanava como uma aura.
A garrafa ia a meio, quando finalmente o morto chegou vagaroso e com um andar estranho. Tinha enfiado um bebé pelo cu.
— O que é que lhe aconteceu homem?
— Sabe lá — respondeu o morto sentando-se com dificuldade e de esguelha em cima de uma almofada de ar em forma de donut. — Fiz como combinamos e, foda-se, esta merda dói.
— Ó homem, queixe-se lá que é para isso que aqui estamos.

Na sua procura de uma dor épica, o morto havia consultado a internet e a rede havia-se revelado um maná de sevícias criativas. Havia de tudo: artefactos de autoflagelação capazes de provocar síncopes só de olhar; listas de torturas novas e antigas; e todo um mundo de répteis e insectos cuja evolução natural transformara em impiedosos verdugos munidos de eficazes instrumentos de dor.
Algumas das mortificações estavam ali mesmo à mão, e podiam ser provocadas domesticamente com instrumentos familiares e facilmente adquiríveis, outras, porém, as mais complicadas, requeriam produção e até a importação de instrumentos e organismos. O morto estava particularmente interessado na dor provocada pela Paraponera Clavata, a formiga da amazónia conhecida por tocanera, formigão-preto ou hormiga veinticuatro, numa referência às 24 horas consecutivas de dor que a sua mordedura provoca. Uma dor tão avassaladora que foi classificada como a maior de todas as dores no índice de Schmidt, e referida, em vários sites, como a pior já experimentada pelo homem. Na Amazónia, por exemplo, alguns índios usam a hormiga veinticuatro como rito iniciático enfiando as mãos em luvas cheias destes pequeninos e implacáveis himenópteros. O suplício dura vinte e quatro horas, findas as quais, e depois de muitíssimo sofrer, o menino vira homem. Era esse o desafio: enfiar as mãos num formigueiro de veinticuatro e viver para contar nas escadinhas. O morto estava mesmo convencido que, se sofresse vinte e quatro horas, todo o desejo de queixa o abandonaria para sempre, e todas as dores, no corpo ou na alma, se tornariam irrelevantes, pequenas e maricas por comparação. O morto estava decidido a deixar de ser  menino.
— E esse sofrimento que traz consigo, esse andar estranho, é já resultado das formigas? — perguntou o vagabundo, sem tirar os olhos do vinho, dourado pela luz ténue do candeeiro das escadinhas, que fazia rodopiar com delicadeza no copo. — Não me diga que as enfiou no…
— Não. Isto foi o bebé.

Há duas semanas que o morto encomendara e aguardava a chegada das hormigas veinticuatro, mas a coisa não estava fácil. Trazer espécies de outro continente revelou-se uma tarefa difícil e mais ardilosa do que traficar droga.
— Afinal, não se podem enfiar as formigas pelo cu ou engoli-las, como se faz com a comum bolota de cocaína — disse.
Entretanto, enquanto o formigueiro chegava e não chegava, e não obstante as repetidas promessas do clandestino transitário, e porque não queria faltar às sessões nas escadinhas, o morto procurou alternativa, algo com que se entreter e passar o tempo. Foi assim que chegou ao bebé.
Na sua incessante procura por um padecimento épico, tinham-lhe caído no goto três tipos de dor: a pedra no rim, a inflamação no trigémeo e a dor de parto. Quaisquer delas classificadas como magníficas, heróicas mesmo, embora quase todas inacessíveis. Dificilmente conseguiria, de uma sessão para a outra, criar uma pedra no rim. Ainda considerou passar duas semanas a lamber uma pedra da calçada, ou andar com um pedacinho dela na boca, como se chupasse um rebuçado de calcário; talvez fosse suficiente para promover a formação de cristais de cálcio nos rins, mas não havia tempo. Por outro lado, provocar uma inflamação do trigémeo não era coisa que estivesse ao alcance de um amador. Ora como o formigueiro tardava, o morto matutou e decidiu-se pela dor de parto. Mesmo não estando ao alcance da sua anatomia, algo podia ser feito para a simular: talvez enfiar um bebé pelo cu e depois expeli-lo, pensou. Foi o que fez.
Começou por pesquisar bebés na internet. Havia-os com fartura, em tamanhos muito diferentes e também nos mais variados materiais. Não podia ser um bebé muito mole e de consistência flácida, sem o tónus apropriado à penetração. Nem podia ser um bebé excessivamente duro. Haveria um meio caminho, uma consistência e dureza ideais. Por fim optou, talvez influenciado pelos textos promocionais que leu, e que anunciavam “um bebé muito realista, uma pequena obra de arte que simula perfeitamente a realidade”, por um Bebé Reborn. O texto prometia, ainda, um certificado de autenticidade e dava conta de um centro de adopção, “um pequeno sítio mágico cujo objectivo é facilitar a adopção de Bebés Reborn para quem pretende viver uma bela experiência”. Ora uma bela experiência, senão bela pelo menos inesquecível, era o que o morto procurava.
Feita a encomenda, e chegado o bebé, o morto pôs de imediato mãos à obra. Primeiro tomou dois comprimidos de Flexiban, um competente relaxante muscular destinado a facilitar a penetração tornando o esfíncter mais colaborante; depois, com desmedida excitação, untou o bebé de óleo Johnson e sentou-se em cima dele.
Devagar, deixou-se penetrar pelo brinquedo tendo como ajuda apenas a força da gravidade. Começou pela cabeça. A princípio a dor foi lancinante, ridícula mesmo, mas nada comparada com a dor que sentiu quando os bracinhos lhe entraram pelo recto. Aí, percebeu que estava perdido e tentou expulsar o bebé, mas este, com as suas perfeitas mãozinhas de boneco, agarrou-se às paredes do intestino, agora grossíssimo, e recusou-se a sair. A dor, muito para lá do lancinante, em saraivadas absurdamente indescritíveis, mesmo para quem era dono de um superlativo talento para a metáfora, transformou-se num frémito agonizante. Por fim, o instinto de sobrevivência sobreveio, e o morto, desistindo do parto contranatura, ligou ao INEM em busca de salvação.
Na ambulância e pelos corredores do hospital em direcção ao bloco operatório, onde o boneco seria cirurgicamente parido, e passando à frente dos atónitos e reclamantes doentes do SNS, apressado por maqueiros que anunciavam com urgência e em alta voz “Bebé enfiado no cu”, o morto gritou como uma sirene antes de perder os sentidos. Só os recuperaria dois dias mais tarde, depois de os médicos repararem, o melhor que puderam, o segmento grosso do tracto intestinal e de o medicarem, fortemente, com um cocktail de opióides e antibióticos; estes últimos destinados a combater a infecção provocada pela Escherichia Coli que, livre das fronteiras intestinais que marcam o seu habitat natural, tinha alegremente migrado pelo recto dilacerado e contaminado o sangue com perigo de uma infecção generalizada.
Tinha acontecido há duas semanas. Duas semanas passadas no hospital em dor e a soro.
— Os meus parabéns — disse o vagabundo, muitíssimo orgulhoso com os progressos.
O morto gemeu um agradecimento.
— Mas diga-me, essa dor é maior, menor ou igual àquelas angustiantes dores de alma? Ainda as sente?
— Foda-se, não.
— E dói como?
— De uma forma insuportável.
— E as outras dores antigas?
— Não. Quem me dera essas. Essas são um prazer. Um prazer mórbido, mas um prazer. Isto é a pior coisa do mundo. Você não faz ideia do que é ter o cú todo rebentado. Literalmente rebentado. Isto dói mesmo, a sério.
— Está a dizer-me que as outras dores não doem?
— Não, foda-se!
O vagabundo deixou soar o foda-se e reclinou-se para apreciar o seu branco topo de gama, satisfeito por terem os dois conseguido extraordinários avanços neste colóquio de queixas.
— E as formigas chegam quando? — perguntou.
— Para a semana — disse o morto, entre murmúrios dolorosos.
— E o que vai fazer com as formigas? Ainda se sente com determinação para dar esse passo?
— Não sei. Talvez. Mas só penso nisso quando estiver bom do cu.
— Então vai pôr-se bom do cu e, se resolver experimentar o formigueiro, volta cá para se queixar.
O morto acenou em concordância.
O resto da sessão foi passado sem palavras. O morto gemeu e o vagabundo bebeu. A acidez suave do vinho pedia, e aguentaria, alguma gordura no palato. O vinho era extraordinário. A mistura de castas tinha corrido muitíssimo bem, e o toque da madeira atirava-o para os píncaros do sublime. Raramente o vagabundo havia bebido tão bem. Para ser perfeita, a experiência, faltava apenas uma tábua de queijos.
— A nossa hora terminou. São cento e cinquenta euros.
— Cento e cinquenta?
— Cinquenta desta sessão e cem das duas a que faltou sem avisar.

(continua)

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu):
“Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”

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6 respostas a Não me posso queixar (5)

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Voltei a ler tudo, de princípio e permito-me pensar que a dor é um grande tema, muito superior à alegria; e que o corpo é um motor narrativo muito superior à alma.

    • Pedro Bidarra diz:

      Pois é. Foi esse o desafio e a experiência, falar de dor. E o curioso é que só lá vai com recursos estilísticos. Mesmo quando vamos ao médico, para a descrevermos, usamos similes, e metáforas. Nunca se consegue explicá-la objectivamnte.
      Comprei, há tempos, um grande e académico (chato) livro chamdo “The Story of Pain – From prayer to painkillers”. É muito engraçado perceber como essas metáforas e similes mudam com o tempo. Bem como as justificações e causas percebidas. Todo um maná

  2. A Vieira diz:

    “Se nos vendemos tão baratos, porque nos avaliamos tão caros?”

    Padre António Vieira-Sermões

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